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Crítica +Flashback|Watchmen [2009]

Quem vigia os vigilantes?

A partir de hoje começa uma nova sessão de postagens aqui no Gay Nerd Brasil, iremos postar semanalmente duas críticas de filmes baseados em histórias em quadrinhos, cumprindo uma tabela de mais de 70 até hoje lançados. Para começar nossa coluna de flashbacks, escolhemos Watchmen, filme de 2009 e dirigido por Zack Snyder.

Para o aprofundamento de qualquer assunto, sempre nos deparamos com obras ou autores essenciais para compreender seu desenvolvimento. Por exemplo, é impossível entender a evolução do cinema sem conhecer Charlie Chaplin, ou falar sobre música pop sem falar de Madonna e assim por diante.

Nas histórias em quadrinhos não é diferente e para compreender a evolução dos super-heróis, desde sua origem, é essencial ter lido algumas obras, em especial Watchmen.

Minutemen

Escrita por Alan Moore e publicada entre os anos de 1986 e 1987, durante 12 edições, acompanhamos a trama dos Minutemen. Moore trouxe algo revolucionário até aquele momento, que é uma análise crítica e realista do gênero super-heróis.

As HQs anteriores a Watchmen traziam super-heróis puros, imaculados e que enfrentavam ameaças externas à raça humana (alienígenas, monstros, etc). E não importava o grau de ameaça, no final os heróis sempre venciam com integridade moral, honestidade e bondade.

Além disso, as histórias e os super-heróis (talvez com exceção do Capitão América e Tin Tin) estavam sempre alheios aos eventos da sociedade e também intocáveis pelos defeitos da natureza humana. Antes de Watchmen, era impensável ler uma HQ de super-heróis com nudez, estupro, crises políticas e vigilantes psicologicamente desestruturados.

Enquanto os heróis tradicionais estavam isentos de crises existenciais, emoções humanas, traumas, valores distorcidos da sociedade, Alan Moore traz uma história com vigilantes que muitas vezes o leitor se questiona se realmente são heróis.

Watchmen 2

Uma adaptação cinematográfica era tida como algo impossível, mas mesmo assim foi feita em 2009, dirigida por Zach Snyder. Obviamente a adaptação não consegue retratar toda a complexidade da HQ. E muitos fãs torceram o nariz para o filme e até o próprio criador Alan Moore praguejou a obra.

No entanto estamos diante de uma das mais fiéis adaptações para a telona de uma HQ. Isso porque toda a atmosfera dos quadrinhos foi transportada para o filme por Snyder com uma riqueza de detalhes impressionante.

Para quem leu a graphic novel e assiste o filme, é como se as páginas ganhassem vida diante dos seus olhos.

Filme HQ

Mas além do visual, o roteiro também se manteve fiel a obra. E com isso o filme se mostra interessante mesmo para aqueles que não leram nada sobre Watchmen.

A história se passa em uma dimensão paralela, no ano de 1985. Período da Guerra Fria, os EUA venceu a guerra do Vietnã e a União Soviética está prestes a declarar uma guerra nuclear. Os vigilantes protagonistas da história ou estão aposentados ou trabalham para o governo americano. A aposentadoria da maioria dos heróis mascarados foi de forma compulsória, após a criação da Lei Keene, que transformou o vigilantismo em ação ilegal (achava Guerra Civil original?).

Mas com a morte de um dos antigos colegas, o Comediante (Jeffrey Dean Morgan), os heróis acabam voltando à ativa para descobrir quem aparentemente está assassinando os vigilantes.

Dentro da trama todos os personagens são pessoas comuns que decidiram vestir máscaras e lutas contra o crime, com exceção do Dr. Manhattan (Jon).

Jon é um cientista que sofre um acidente em uma experiência subatômica e adquire poderes quase que divinos (onipresença, controle da matéria, controle do espaço-tempo e etc).

Ele adota o codinome de Dr. Manhattan (o incrível ator Billy Crudup) e é um dos personagens mais interessantes e complexos do mundo dos quadrinhos, porque realiza reflexões e questionamentos filosóficos em relação ao universo e a humanidade que enriquece a história imensamente. Seu poder ilimitado é visto por alguns como um benefício e por outros como um perigo para toda a humanidade.

Dr. Manhattan

Outro personagem que marca a trama é Rorschach (interpretado por Jackie Earle Haley). Um personagem assustadoramente realístico e extremamente denso, que utiliza uma máscara com desenhos das placas do teste psiquiátrico criado por Rorschach e relata em seu diário toda a corrupção e imoralidade que encontra na humanidade. Sua descrença e paranoia são as únicas coisas que o fazem buscar justiça a qualquer preço. Pode ser considerado completamente insano, mas de alguma forma veremos que talvez seja o mais próximo da razão que o mundo necessita.

Rorschach

O filme apesar das suas 2 horas e 40 minutos não consegue trazer algumas coisas presentes na Graphic Novel, como a obra “Sob o Capuz”, livro escrito pelo primeiro Coruja sobre a história da época da primeira equipe dos Homens-Minuto, e o Contos do Cargueiro Negro, uma HQ que é lida dentro de Watchmen (!). Além disso, no filme a origem dos Homens-Minuto é vista rapidamente nos crédito iniciais, o que pode deixar algumas relações no decorrer da história um pouco confusas.

Mas uma obra com tantos questionamentos morais, filosóficos, ótimas atuações e uma fantástica trilha sonora (de Bob Dylan a Jimo Hendrix), fazem do filme uma obra que deve ser vista por todos, amante de HQ ou não.

Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana.
Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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  • Marco Antônio Freitas

    Uma das minhas adaptações favoritas, penso que Snyder fez um bom trabalho e acredito que o filme consegue adaptar bem a essência da obra original. O Conto do Cargueiro Negro está presente na edição especial, um bônus, mas não é algo que ajude muito o filme no final das contas. Talvez seja por causa de Watchmen que torço o nariz para a maior parte dos filmes de super heróis atuais, e não falo do clima sombrio e adulto da historia, mas da riqueza de detalhes que tornam a experiencia muito mais divertida e enriquecedora. Gosto de ver filmes de super heróis debatendo temas políticos e trazendo acontecimentos históricos para seu universo, torna tudo mais imersivo (ao menos sob o meu ponto de vista). Mas é claro que sou suspeito para falar, já que Watchmen foi umas das obras que me introduziram ao mundo dos quadrinhos.

    • Michel Furquim

      Watchmen e Cavaleiro das Trevas marcaram né Marco? Depois de conhecer essa época fica difícil mesmo se sentir satisfeito com as histórias atuais. Talvez por isso tantas histórias estão sendo relançadas em edições especiais.

    • Israel Lucas

      Watchmen também me iniciou no mundo dos quadrinhos, apesar de amar a DC e a Marvel, os selos adultos sempre me chamaram mais a atenção.

  • Antonio Paulo Junior

    Gosto do filme, apesar de concordar q a HQ é mais rica e profunda. Deu vontade de reler e rever.

    • Michel Furquim

      Sempre dá vontade né Antonio? Tem as edições Before Watchmen. Algumas são muito boas, como Minutemen e Dr. Manhattan. Já leu?

      • Antonio Paulo Junior

        Não li nenhuma Before Watchmen ainda. Mas tá anotado aqui. TANX

  • Israel Lucas

    Amei a iniciativa de vocês em revisar filmes “antigos”, muito boa a ideia. Quanto ao filme, eu imagino que o excesso de questões filosóficas acabou “prejudicando” para a audiência que não tem, teve, ou pretende ter contato com o material. Por isso que hoje, não temos uma continuação, com o aprofundamento que você citou em outros arcos, Michel. Como fã, fiquei feliz sim, é um ótimo filme. Parabéns pela crítica, estou ansioso pela próxima.

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