Página Inicial / Resenha e Crítica / Crítica - Quadrinhos / [Crítica] Lúcifer & Sandman

[Crítica] Lúcifer & Sandman

“Eles me culpam por tudo(…). Mas eles são responsáveis pelos próprios atos, e se odeiam por isso”

É raro encontrar alguém que já tenha lido Sandman. Mais raro ainda encontrar alguém que tenha lido Sandman e Lúcifer. Talvez porque estas histórias não tragam super-heróis, mundos para salvar ou equipes fantásticas, e sim tramas poéticas, filosóficas e densas.

Nestas duas obras há um apelo ao subjetivo e a cultura universal, com temas pouco abordados nas HQs. Comecemos por The Sandman.

Neil Gaiman escreveu várias histórias durante sua carreira, mas sem dúvida The Sandman é a mais conhecida. Gaiman também escreveu histórias para DC Comics, como a belíssima Orquídea Negra.

Bom, Sandman conta a história de Morpheu, a personificação do Sonho e a família dos perpétuos, 7 entidades responsáveis por manter a realidade em ordem. São eles: Delírio, Desespero, Sonho, Destruição, Desejo, Destino e Morte. Os perpétuos (Endless, no original) já existiam muito antes da humanidade e somente suas existências mantém o universo intacto.

Perpetuos

Os perpétuos são um show a parte na história. Minha favorita, a Morte, por exemplo é extremamente alegre e divertida. Sandman/Morpheu, o protagonista, é o responsável por criar os sonhos e os pesadelos para os humanos, e não entende sarcasmos e piadas.

A obra definitiva possui 10 volumes encadernados e no 4º volume, aparece Lúcifer. Lúcifer, como todos já sabem (eu acho), é o senhor do Inferno. O Inferno de Gaiman é uma sacada genial. Nada de fogo, lava, tridentes, demônios, etc. O Inferno é um completo vazio. Não há nada lá. Absolutamente nada.

Lúcifer decide sair do submundo e buscar outra vida (quem não faria o mesmo né?). Lú se recusa a continuar como Rei do Inferno, mas alguém precisa ocupar o seu lugar. Ele então entrega a chave do seu reino para Sandman. A partir daí, o Sonho passa a reinar no Inferno. No entanto, apesar de Lúcifer não querer mais o submundo, muita gente tem interesse nesse “território abandonado”, o que origina uma trama adorável.

paginaSandman

Impossível contar a história aqui sem estragar todo o encanto da história de Sandman, então se você ficou curioso, vale a pena conferir essa magnífica história.

Mas e Lúcifer, para onde foi? Foi para uma praia belíssima na Austrália, óbvio.

Lúcifer percebeu que o inferno era apenas mais um território de Deus, e que ele era apenas um gerente em nome do criador. Ou seja, Lúcifer não reinava em nada, apenas obedecia e cumpria seu papel já escolhido pelo criador Todo Poderoso.

O personagem é vaidoso, inteligente, orgulhoso e segue a risca o seu código de honra. Sua aparência nas HQs foi baseada na imagem de David Bowie (exigência de Neil Gaiman), que é o oposto de Sandman (que tem a imagem do vocalista do The Cure, Roberth Smith).

DavidBowie

A história de Lúcifer fez tanto sucesso, é tão interessante e cheia de referências literárias (o Lúcifer de Gaiman é baseado em uma obra muito famosa, “Paraíso Perdido” de John Milton – diferente do que muitos desavisados podem achar que tem algum fundo biblíco) que acabou virando uma spin-off.

Na sua própria HQ, escrita por Mike Carey, Lúcifer decide criar um novo mundo, já que percebeu que era apenas um vassalo de Deus, administrando as almas enviadas ao inferno.

Capas

Lúcifer quer um universo paralelo e até oposto ao que conhecemos (Yahweh, na obra de Sandman) e para isso, enfrentará deuses mortos de antigas civilizações, entidades místicas e os anjos que enfrentou na época de sua rebelião (quando foi expulso do Paraíso).

No Brasil, a série de Lúcifer foi publicada pela editora Panini, com o selo VERTIGO, em 75 edições, no ano de 2000. Ouvi alguns leitores comentando que o personagem foi adicionado em algumas histórias dos Novos 52, da DC Comics, mas não posso confirmar a informação.

Mas a notícia mais recente sobre o personagem é de que a FOX lançará a série de Lúcifer. Somente o trailer foi lançado até agora, mas já é possível perceber que a série não está sendo feita para os fãs da HQ.

Enquanto os quadrinhos trazem reflexões sobre questões do livre-arbítrio, da criação da identidade, da predestinação e da criação do próprio destino, quase sempre com um tom sombrio e violento, a série Lúcifer, aparentemente será mais uma série no estilo macho-alfa-galanteador (primeiro episódio já foi dirigido pelo mesmo diretor da série Californication, então é possível que esses sejam os norteadores da história: humor e sexo).

Esperamos que a série não desvie tanto assim de uma história tão questionadora e inteligente como a HQ da VERTIGO conseguiu ser.

Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana. Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

Veja Também

Crítica|Call Me by Your Name (2018)

Me chame pelo seu nome traz um típico romance de verão, belo e triste, conduzido …

  • Diogo Miranda

    Já li os 3 (Sandman, Lucifer e Orquide Negra) e são obras magnificas. A profundidade e sensibilidade que Neil trata as coisas é incrivel ! Ele usa tão poucas frases mas tão profundas que cada pagina fica demais. E o HQ do Lucifer foi a melhor coisa que já li na vida! É inteligente, engraçada e entrelaça diversas culturas de forma divertida e fluida entre personagens apaixonantes e extremamente bem elaboradas. Parabéns por divulgarem essas obras meninos!

    • Michel Furquim

      Obrigado Diogo!
      Amo Gaiman. Orquídea Negra é sensacional (li na época da editora globo ainda).
      Sugiro ler também Dias da Meia Noite, que são histórias dos primeiros trabalhos deste autor.

  • Pingback: [Indicação Nerd] Orquídea Negra()

  • Thieres

    Algumas observações:
    Na verdade a 1ª aparição de Lúcifer em Sandman ocorreu antes de Estação das Brumas, como o texto dá a entender. Veja Primeiro Arco, Prelúdios e Noturnos, na edição nº 4 para ser mais preciso, quando Morpheus recupera seu elmo do demônio Chorozon.

    Lá, o Inferno é um pouco diferente do descrito por você no texto, já que Lúcifer ainda não havia abdicado de suas funções como príncipe do inferno e regente do triunvirato infernal…