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Especial | Tom of Finland

“Naqueles dias, um gay era feito para não sentir nada, apenas vergonha sobre seus sentimentos e sua sexualidade. Eu queria que meus desenhos contrariassem isso, e mostrasse aos gays os quão positivos e felizes eles eram.” – Tom of Finland

Se nos dias atuais é um pouco mais comum encontrarmos personagens gays nas HQs ou cartoons voltados para o público LGBT, houve um período onde nada disso era pensado e muito menos produzido.

O homoerotismo, desenhos com homens, produções que sugerissem homossexualidade ou ideias contrárias à heteronormatividade, até a metade do século passado, eram coisas vistas como criminosas e inclusive passíveis de punições (dentro ou fora da lei).

Mas na década de 50 surgiu um dos maiores autores conhecido da arte homoerótica. Nascido na Finlândia, Touko Laaksonen desde muito cedo demonstrou talento para as artes, especialmente música e pintura. Touko cresceu em uma cidade pequena e rústica, onde grande parte dos homens trabalhava no campo.

TOM ESTILO

Enquanto adolescente Touko observava e memorizava a anatomia destes homens, ásperos, rudes e até um pouco selvagens. Estes tipos eram uma fascinação para o jovem Touko, mas que não mantinha relação com seus objetos de admiração.

 Já adulto, foi para a escola de arte na cidade, em Helsinki, onde teve contato com outros tipos de homens: marinheiros, policiais, soldados e trabalhadores de obras. Nesta mesma época, Stalin invadiu a Finlândia, o que levou Touko ao exército de seu país.

Nesse período da Segunda Guerra Mundial, Touko conheceu a luxúria nas ruas escuras com os soldados (finlandeses e alemães) e assim vivenciou o que no futuro desenharia e se tornariam as fantasias de muitos gays: botas, jaquetas, couro, homens uniformizados e homens brutalmente viris.

Após o fim da guerra, Touko voltou às aulas de arte e desenhava os homens que habitaram sua vida e imaginação nos últimos anos (homens do campo, soldados, marinheiros, policiais, etc). Todos extremamente sexualizados, músculos e órgãos genitais aumentados de forma sobre-humana e idealizados.

TOM HOMENS

Para a divulgação em um jornal deste material, Touko adotou um pseudônimo, Tom. Qualquer representação contendo “atos homossexuais” era proibida e as leis federais censuravam tais obras. Por isso, Tom enviou desenhos de homens musculosos, jovens e idealizados como “modelos” de saúde a serem seguidos. O editor que recebeu aqueles desenhos adorou e publicou em 1957 as primeiras imagens do Tom da Finlândia (Tom of Finland).

Assim os desenhos de Tom pouco a pouco ganharam o mundo. Era a primeira vez que a sexualidade, a fantasia, os fetiches dos gays eram exibidas de forma realística, selvagem e pornográfica.

As publicações de Tom produziram dois resultados para a comunidade gay da época que são importantes citar:

1 – As obras foram importantes na formação da autoimagem dos gays, que puderam perceber que havia pessoas com características, desejos e fantasias semelhantes aos deles. Além de mostrar que a expressão da sexualidade não era algo sujo ou errado. Na época, os homossexuais eram vistos apenas como homens que queriam ser como as mulheres. (Lembrando que estamos falando da época onde a homossexualidade ainda era uma doença a ser tratada, internet era um sonho distante e as poucas produções para TV eram feitas para toda a família hétero).

2 – Por outro lado, a idealização da figura masculina, a aparência viril de seus personagens e o padrão homem-macho-másculo colaborou para o culto ao corpo pelos gays para se sentirem desejados e mais próximos das fantasias de homens desenhados por Tom.

TOM CASAL

A qualidade da obra de Tom of Finland é inquestionável, cheia de detalhes e quase toda feita apenas com lápis, e hoje é reconhecida no mundo todo.

Muitos dos desenhos foram publicados em diversos livros, jornais, revistas, mas a obra completa está no mega livro XXL. É possível atualmente encontrar livros em edições menores com parte das ilustrações, fotos que serviram de inspiração para Tom e uma capa reversível (!) para você guardar seu livro sem “chocar” curiosos que venham a mexer na sua estante.

TOM - LIVROS

 Em 1986, foi fundada nos EUA a Tom of Finland Foundation para a divulgação da obra de artistas da arte homoerótica de outros autores e que também guarda seus mais de 3 mil desenhos deixados pelo artista.

Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana.
Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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  • Alex Barg

    Tom sempre foi sensacional.

    Mesmo em termos contemporâneos o trabalho dele é excepcional. Por mais que tenhamos acesso hoje a inúmeros desenhos e pinturas homoeróticas, o trabalho dele se destaca não só pelo vanguardismo, mas pela delicadeza do traço, a composição e equilíbrios perfeitos.

    É um material de arte, sem dúvida.

    • Samael Mastema

      Cara, concordo com tudo o que disse, eu passei um bom tempo com um pequeno vicio em desenhos homoeroticos e os trabalhos dele sempre foram os meus favoritos. É delicado, intenso e cheio de detalhes.

  • Tieser Centeno

    nossa! quando comecei a desenhar eu cheguei a pensar que era o único que gostava de desenhar (SÓ) o corpo masculino, e em especial homens de sunga… kk 😛

    eu acho que foi assim que eu percebi a principio que sou gay…!! sda