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Comportamento|Como pôde o nerd de ontem, se tornar o opressor de hoje?

Por que o nerd, outrora figura do excluído, hoje exclui mulheres e gays de seu meio?

É um pouco confuso e muito complexo analisar pessoas, nunca é fácil e mesmo que você passe sua vida estudando e se preparando, o ser humano sempre será capaz de surpreender, quer seja para o bem, ou para o mal. Por isso, é extremamente complicado entender como o nerd, a figura que no passado foi tão excluída, hoje sente prazer em retirar do seu nicho os gays e mulheres.

Não se assuste se hoje você encontrar algum tópico abarrotado de “insultos” ao jogador casual com as palavras “gay, baitola, viadinho” e outras mais. Do mesmo jeito que também não é muito difícil identificar discursos vorazes visando excluir as mulheres do ambiente que, na mente dessas pessoas, deveria ser reservado ao homem heterossexual. Até mesmo os próprios gays nerds às vezes são capazes de serem excludentes em seus discursos, mas isso já é assunto para outra postagem.

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Feministas como Anita Sarkeesian são tachadas de ‘feminazi’, “reclamonas” e em alguns portais até mesmo como representantes da missão de destruir o mundo gamer. Isso quando a proposta para que elas (as mulheres que se opõe), não é um homem que as silencie, ou falta de “macho”. Tudo isso por querer apenas uma maior participação feminina em games e sem que exista o foco no apelo sexual, ou a construção de fragilidade e interesse amoroso. Misturando ao seu apelo um tratamento melhor para a mulher nas próprias empresas de desenvolvimento de jogos.

Ainda precisamos nos contentar com poucos personagens homens e gays nos quadrinhos, televisão e cinema, ou com comentários odiosos quando um deles é revelado gay. Mulheres ainda são objetificadas e tratadas como interesse amoroso, ou coadjuvante indefesa. A própria campanha de marketing exclui do destaque personagens como: Feiticeira Escarlate e Viúva Negra. E ai de nós se ousarmos reclamar. A resposta para nossas dúvidas quanto a indústria do entretenimento sempre é o “pare com seu mimimi”.

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Jogos ainda são lançados com temáticas questionáveis, como o indie ‘Kill the fagots/Mate as bichas’ sendo publicados na área indie da Steam. Ou jogos sobre o estrupo ganhando espaço na Amazon.

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Personagens como Mobius de Final Fantasy, que sofreu o efeito contrário do chamado raio boticarizador e passou de um homem sexy (do jeito errado para a população masculina preconceituosa) para apenas mais um. Ao passo que milhares de personagens femininas da franquia continuam portando peitos e bundas praticamente à mostra, um exemplo bem claro de que mesmo do jeito errado, o gay ainda é proibido de ser representado. E mostrando que a mulher permanece na margem da preocupação dos desenvolvedores.

O pior de tudo é que tais modificações são feitas para apaziguar a turba de nerds descontrolados que negam aos gays e mulheres o espaço mais do que merecido na construção desses mundos. Nosso dinheiro é bom, apenas quando não exigimos espaço e representatividade.

O que está acontecendo com os nerds que se esqueceram da história recente, em que eram os caras que:

  • Não conseguiam a mulher bonita;
  • Eram representados de maneira vulnerável, sempre de óculos, franzinos e cabisbaixos;
  • Apanhavam na escola por se interessarem pela leitura, não pelo esporte.

A verdade é que hoje o cenário mudou, o nerd de ontem é o objeto de desejo de hoje, com atores sarados interpretando super-heróis e a popularização do modelo geek de se vestir, portar e viver. Estamos mais abertos ao que outrora era tão desprezado, o que torna a exclusão de gays e mulheres mais incompreensível ainda.

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O protecionismo de um espaço julgado como reservado aos nerds de “origem” trata de desmerecer qualquer discurso de inclusão e aceitação. Capas como a de Milo Manara para a Spider Woman ainda são produzidas, meninas continuam não podendo comprar o copo da Feiticeira Escarlate, ou da Viúva Negra no combo do Cinemark. Garotos gays ainda não conhecem nenhum herói homossexual, ou bissexual nos blockbusters da Marvel, ou da DC. Onde está a diversidade de um mundo tão heterogêneo (o deles e não o nosso)?

E é exatamente tal comportamento que deixa a discussão mais válida do que nunca. Defender as minorias, pedir pela representatividade é nossa missão. Eu poderia falar sobre os X-Men, que foram criados no auge da discussão dos direitos dos negros, que levantaram por muito tempo a bandeira dos excluídos e que foram, por incontáveis números, desprezados por serem diferentes, por terem nascido com um gene que o restante da população não tinha. Mas vou deixar apenas essa menção, o que importa para nós é compreender que ainda levará pelo menos dez anos para que a Marvel Studios inclua em seus filmes um herói gay, no momento nem mesmo existimos por lá, nem como herói, vilão ou transeunte. E não é pela falta de material nos quadrinhos, temos poucos, mas temos personagens. Rictor, Shatterstar, Wiccano, Miss America, Victoria Hand (que não teve a sexualidade revelada em Agents of S.H.I.E.L.D.) entre outros.

O gay merece existir, o hétero (em sua maioria), pode não concordar, ou achar desnecessário, mas se não existir a discussão, se não formos lá colocar a boca no trombone, permaneceremos esquecidos. Ser invisível dói, um sentimento que só quem está incluso nesse cadinho pode sentir, os outros, apenas se compadecer, ou nos piores casos, espezinhar.

E qual a missão da cultura pop? Nos ajudar. Ajudar a gays e mulheres a terem espaço. E a nossa? Não deixar eles se esquecerem de que o nosso dinheiro vale, no mercado, o mesmo tanto. Já temos uma Miss Marvel muçulmana, Meia Noite na DC comics, mas precisamos de mais. Precisamos romper as barreiras do preconceito e mostrar que dá sim para ter diversidade, mas que gays não têm que ficar restritos as “séries de gays” e as mulheres não precisam ter destaque apenas em “filmes de mulher”. Existimos em todos os lugares, no mercado, nos cargos de chefia, só falta nos deixarem existir e viver no mundo nerd. E para todos aqueles nerds que se esqueceram do passado não muito distante, saibam que um dia vocês estavam no lado dos excluídos, proteger esse espaço e gritar para todo mundo que você veio antes e por isso pode barrar a entrada de outros, é reforçar o preconceito e a exclusão.

A resposta permanece incompleta, ainda não conhecemos os motivos que fazem com que os nerds tentem, de toda forma, excluir mulheres e gays, mas mais importante do que tentar descobrir, precisamos fazê-los entender. Educação e conhecimento ainda são as gemas do infinito nesta guerra.

Sobre Diego Antunes

Fundador do site, também colabora com postagens para o Série Maníacos com reviews de séries. Nutre um amor incondicional pela Marvel e é leitor ferrenho dos quadrinhos da casa das idéias desde os 12 anos de idade.

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  • Samael Mastema

    Sempre quando leio algo assim, de um oprimido virando o opressor, me vem essa musica na cabeça. ♪ Prototipo imperfeito, Tão cheio de rancor é facil dar defeito é só lhe dar poder ♪.
    Obvio mas real, quer conhecer alguém, deixe-o por cima, lhe de poder e evidencia. #BauBau.