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[Comportamento] Vamos falar sobre sexo?

Por que falamos tão pouco sobre sexo?

Em uma época onde a novela “Verdades Secretas” atingiu um nível considerável de ibope, músicas (nacionais e internacionais) falando sobre “anacondas” e “proibidões”, e cada vez mais a exposição de corpos nus em aplicativos e na imensa web, parece estranho dizer que falamos pouco sobre sexo, não é? Mas falamos muito pouco.

O sexo é um tabu em nossa sociedade, isso todo mundo sabe, e ainda é visto como algo proibido, banal e individual. E há uma explicação histórica para isso, que é a nossa herança de uma sociedade ocidental católica, especialmente a brasileira.

O catolicismo, desde sua origem impôs que tudo relacionado ao sexo era pecado. O sexo deveria ser uma prática com a única finalidade de reprodução. Todo o resto era considerado uma perdição para o corpo e a alma. Obviamente que todo o tipo de sexo continuou existindo, mas “escondido aos olhos de Deus”. A homossexualidade, a bissexualidade, a poligamia e tantos outros comportamentos sempre existiram, no entanto para que não fossem punidos, eram mantidos em segredos, no armário.

Ilustração da página Manifesto dos Quadrinhos

Mulheres deveriam se manter puras, intocada e virgens, a fim de se aproximar da imagem de Maria e as outras virgens que esta religião mantém. Os homens também (nem tanto assim) deveriam se guardar (teoricamente) para o casamento. Ou seja, ser virgem era não se contaminar com os desejos terrenos do sexo e assim se aproximar de Deus.

Com a expansão do pensamento empírico, a religião deixou de ser a principal fonte de explicações dos fenômenos da sociedade, e assim o sexo também começou a ser visto como algo fisiológico e fundamental para a saúde. Mesmo depois de séculos, os resquícios do pensamento religioso ainda norteiam nossa sociedade. Por exemplo, a grande maioria ainda deseja casar na Igreja, com todos os adereços que o ritual permite.

E até mesmo entre nós gays, ainda há aqueles que querem além do casamento no civil, realizar um ritual semelhante ao do matrimônio da igreja católica. Mas voltemos ao sexo.

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Mesmo com a evolução da internet, onde basta apenas alguns cliques para descobrir novas práticas, novas posições e novos termos, ainda são poucas as discussões e a reflexões sobre a sexualidade em si, ou seja, os comportamentos sexuais da nossa sociedade. Se o sexo heterossexual é algo ainda reprimido, já imaginou o sexo gay?

Fiz uma rápida busca no Google com as palavras GAY e SEXO, e as 5 primeiras páginas tinham como resultado apenas sites com filmes pornográficos. Apenas na 6ª página apareceu um site respondendo algumas dúvidas sobre o sexo entre gays. Parece contraditório, mas isso é preocupante.

Se você é gay, já parou pra pensar como foi que aprendeu a fazer sexo oral? E a higiene intima, a nossa famosa chuca? Foi abordada nas suas “aulas” de biologia ou nas palestras de sexualidade na escola sobre as posições mais confortáveis para o sexo anal?

Percebeu como nossa saúde sexual é aprendida ainda nos dias de hoje através dos filmes pornôs ou (muito mais atualmente) nas conversas informais com os amigos?

Conhecemos diversos termos – ativo, passivo, versátil, DP, GP, darkroom, fisting, bareback, etc – que utilizamos quase que rotineiramente, mas como aprendemos este vocabulário? Qual a fonte de conhecimento das nossas práticas sexuais? Será apenas a indústria pornográfica?

E aquele amigo que te deu as dicas de como ser penetrado sem sentir muita dor? Lembra? Apesar destas conversas informais ajudarem muito de vez em quando, geralmente estão baseadas na experiência individual de cada um. Ou seja, nem sempre aquilo que foi gostoso para o meu amigo será gostoso para mim.

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Nenhum programa de saúde fala sobre como estimular a próstata através do sexo anal para que o gay tenho um orgasmo mais satisfatório. Vejo muitos gays levantando bandeiras por um beijo gay na novela das 9, mas e as bandeiras para falarmos de sexo anal gay no programa Bem Estar, por exemplo?

Isso também é uma tentativa de desassociar a imagem do homem gay do universo sexual. Falamos e fazemos sexo “entre nós”, mas para a sociedade apenas o beijo e o casamento gay nos interessam.

Em alguns programas bem-intencionados para a comunidade gay, não conseguem falar sobre sexo gay sem limitar-se a prevenção de doenças. Não só programas de TV, mas se você já teve a oportunidade de passar em alguma consulta de saúde onde sua homossexualidade foi abordada, com certeza o profissional deve ter lhe perguntado se usava camisinha, apenas.

Mas e o resto? Tive algum problema de ereção na minha última relação? Tive prazer na última vez que fiz sexo? Isso não interessa. Isso não existe para o resto da sociedade, e a maioria das formações, na área da saúde, a homossexualidade não é abordada, muito menos o sexo entre homens.

E na minha vida acadêmica para me tornar um sexólogo permitiu observar que a segregação gay ainda existe, mas atualmente de uma outra forma. Nosso sexo não existe. Aliás, ele existe, mas nos lugares determinados: no quarto entre quatro paredes, na sauna, no cinemão ou qualquer outro lugar distante dos olhos da sociedade.

E nós mesmos vestimos e reproduzimos o discurso, como diria Michel Foucault, normatizado da sociedade e rechaçamos aqueles gays que tentam falar de sexo. Nosso histórico do google e nossos arquivos do celular muitas vezes não condizem com nossos discursos.

Mas convido todos a fazerem algo para que o sexo comece a ser discutido através de novos olhares. Leia mais livros sobre sexualidade. Podem ser contos, livros técnicos, livros filosóficos, qualquer um que tenha alguma relevância para seu conhecimento.

Fale mais sobre sexo, mas não apenas a parte mecânica (quem comeu quem), mas também da parte social da coisa. Questione-se por que você se permite a algumas práticas. Por que prefere ser ativo ou passivo? Será que é apenas gosto, ou teria algum fator social para isso?

Pergunte na aula da faculdade, pergunte para seu médico, tire suas dúvidas. Acredito que assim podemos tirar maior proveito e vivenciar de forma plena e saudável nossa sexualidade.

Cartoon da fantástica página Rubros Versos

Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana. Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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  • Paulo Vitor

    ótimo texto. Adorei! Realmente a mídia limita-se apenas a mandar usar camisinha ao falar de sexo homo.
    Não tinha reparado nisso até ler esse texto.

    • Tieser Centeno

      na verdade, em mais de um aspecto e forma, eles (a mídia e as televisões) nem sequer falam em sexo entre duas do mesmo sexo…!! e nem sequer mencionam identidade de gênero ou só em gênero (o que sim, tem diferenças)…! e tem lá sua importância na hora em que o ato acontece e não lembro de ninguém, doutorado, especialista ou profissional do meio psico-analista sexual!

    • Tieser Centeno

      na verdade, em mais de um aspecto e forma, eles (a mídia e as televisões) nem sequer falam em sexo entre duas do mesmo sexo…!! e nem sequer mencionam identidade de gênero ou só em gênero (o que sim, tem diferenças)…! e tem lá sua importância na hora em que o ato acontece e não lembro de ninguém, doutorado, especialista ou profissional do meio psico-analista sexual falar sobre publicamente; e quando essa conversa acontece, é sempre barrado pela censura! por ser um tabu ainda…

    • Michel Furquim

      Obrigado, Paulo.
      Realmente nós gays ainda temos muito o que aprender e falar sobre o nosso sexo.

  • Yan Ton

    Poxa, que texto bom.

    Gostei bastante!

    • Michel Furquim

      Obrigado, Yan! 😉