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14 anos depois, Buffy a Caça Vampiros decide falar sobre o dia em que sua protagonista quase foi estuprada

14 anos após o famigerado episódio do quase estupro de Buffy, a série decidiu abrir o jogo e tocar no assunto… Nos quadrinhos.

Lá na sexta temporada de Buffy a Caça Vampiros, aquela temporada que vinha com a promessa de transformar a vida adulta em vilã, Buffy quase foi violentada sexualmente, no banheiro de casa, o único lugar na cidade da boca do inferno em que ela se sentia protegida e segura, pelo homem que ela nutria sentimentos e já havia se relacionado sexualmente antes.

Não foi uma decisão fácil, mas aquela não havia sido uma temporada simples de ser trabalhada. Não era a primeira vez naquele ano que a série tocava no assunto estupro e com um leque de personagens femininas fortes, era apenas uma questão de tempo até que voltassem a utilizá-lo.

Com Warren, Andrew e Jonathan, a série desconstruiu o discurso fetichista e machista de muitos garotos. O que você faria se tivesse o poder de se tornar invisível? Entraria no vestiário feminino? E se você tivesse o poder de convencer qualquer mulher a sair com você, você o faria? Não seria isso estupro? E com um toque sutil este lado do imaginário nerd foi trabalhado.

Violência feminina, abuso sexual, machismo, quando a produção não podia lidar com um demônio, ou monstro para dar um vilão para sua mocinha, ela escolhia exatamente aquilo que era (e permanece) responsável por transformar a vida de muitas mulheres reais em um inferno.

Buffy 1
Não é um flashback, mas sim o desenrolar de uma história que não foi tocada em 14 anos.

Bom, os meses passaram, Buffy superou o ocorrido (era o que pensávamos), Spike conquistou sua alma e com isso sua consciência, explicando assim que aquele crime jamais poderia ser atribuído a ele. Com a sétima temporada da série Buffy e Spike até voltaram a ter contato físico novamente. Mas tirando um flash no primeiro episódio do último ano live action da série, algumas frases e muito silêncio constrangedor, ninguém chegou a falar abertamente sobre.

Eis que a série virou história em quadrinhos e já está, atualmente, em seu décimo ano – Tudo bem que por algum motivo ela perdeu o status de cânone e passou a ser acompanhada por um “Joss Whedon’s season”, mas isso já é história para outra postagem. O que importa aqui é que finalmente, em seu número 20, ela voltou a tocar no tema estupro e violência sexual.

Após o surgimento de um incubus, demônio que se alimenta da energia sexual de mulheres e que, para conseguir o que precisa as “convence” com seus poderes a se renderem a seu charme, que entramos novamente na discussão que havia sido colocada em pausa.

Buffy 3

Só que Buffy, outrora uma série inteligente, sagaz e cheia de charme, acabou se transformando em apenas mais um número em quadrinhos. Ela é responsável pelas melhores vendas da Dark Horse, no momento, mas perdeu muito do seu brilho, especialmente quando comparamos as discussões que a série propôs, com muita diversão e tato, quando era guiada por atores de carne e osso.

A missão agora, nesta décima temporada, é mostrar que esse lado não está esquecido. A magia acabou, voltou, existem novas regras para os vampiros, Giles morreu, foi trazido de volta a vida e é uma criança, mas o ponto mais válido até o momento foi que Buffy finalmente decidiu assumir seu amor por Spike e desenvolver um romance com o vampiro loiro.

É então que surge a necessidade de tocar no assunto que havia sido abandonado lá no passado. A maneira, porém, foi um pouco falha, mas a justificativa compensou.

O grande problema foi Buffy já ter se relacionado sexualmente com Spike antes, neste mesmo ano, sem que o assunto tenha sido colocado em pauta. Foi preciso surgir um vilão que opera através do estupro para que a série se lembrasse do que Buffy já passou e como a imagem de seu algoz, também era a mesma do homem que dividia sua cama.

Buffy sabe que o Spike de antes não é o mesmo de hoje, não é apenas uma promessa feita dentro de uma relação abusiva, mas sim a realidade daquele mundo. Antes um vampiro sem alma tentando ser um homem normal, hoje um homem normal que é vampiro. Por isso ela compreende que não existe culpa para ser atribuída, a criatura culpada morreu, mas o rosto permanece o mesmo. Mas e a culpa que ela atribuiu para si mesma e que tantas outras mulheres também atribuem, terminando por silenciar-se?

De mais válido pode ser retirada a conversa entre Buffy e a mulher que sofreu a violência, que trabalha todos os dias aconselhando e ajudando mulheres que são vítimas de abusos domésticos, já foram violentadas sexualmente e que, assim como muitas outras mulheres, precisa conviver diariamente com o rosto de quem a agrediu.

Não é um tema fácil de ser abordado, mas a mensagem foi sim extremamente válida e necessária. O principal é que, por vezes, a vítima se sente tão culpada, que acaba trabalhando dobrado para conviver com suas cicatrizes, muitas das vezes se portando de verdade como alguém que errou. Pedir desculpas, fazer as outras pessoas se sentirem confortáveis por uma violência que você sofreu, não é o caminho. Buffy ilustra bem através de um diálogo que serve para muitas meninas e mulheres que um dia já foram vítimas de tal violência.

Buffy 2
Uma conversa franca, com uma vítima de estupro, interrompida pelo próprio demônio.

Demorou muito para a série trazer o assunto para o holofote, teria sido bem melhor se tudo tivesse sido trabalhado enquanto a série ainda estava em exibição, mas como o próprio número vinte desta temporada deixou bem claro, todo momento é adequado para se discutir. A vítima não é culpada, e a dor, existirá sempre, guardada, quem não deve existir é a culpa, pois ela é inteiramente do autor da violência. No caso de Buffy, ele foi decepado, mas o recado, esse deve permanecer na mente das leitoras de um produto que já foi, outrora, responsável pelo crescimento de muitos meninos e meninas. E olha, faz muita falta.

Sobre Diego Antunes

Fundador do site, também colabora com postagens para o Série Maníacos com reviews de séries. Nutre um amor incondicional pela Marvel e é leitor ferrenho dos quadrinhos da casa das idéias desde os 12 anos de idade.

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  • Tieser Centeno

    isso é o que sempre digo aos meus amigos e amigas, alem de tentar deixar claro que a mulher não é responsável em NENHUM MOMENTO pelo abuso sexual ou estupro (visto que um beijinho quando a pessoa não quer também é abuso sexual, e pode ser ate classificado por estupro na delegacia na hora do BO) à minha mãe e quero desenvolver isso com a minha irmã pequena e quando eu tiver filhos!!