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Crítica|Jessica Jones – 1ª Temporada

Uma série poderosa e o melhor trabalho do universo compartilhado da Marvel

Ter uma mulher como protagonista de uma série centralizada no mundo das adaptações de quadrinhos não é uma missão fácil. O grande problema com praticamente todas as heroínas, indo de X-Men para Vingadores, é que no final elas terminam por adotar um aspecto mais conectado ao lado romântico. É fácil entender que para o fã clássico das histórias em quadrinhos, a imagem da mulher não é das melhores. Inicialmente e por muitos e muitos anos, as personagens femininas eram escritas, criadas e desenhadas por homens. Eis a explicação para o excesso de fantasias nada práticas e fetichistas. Não existiam mulheres à frente das revistas, raramente elas apareciam e nunca com uma posição de destaque, algo bem próximo do que vivemos hoje em dia. E eu amei Jessica Jones por poder perceber todo o trabalho colocado no roteiro, no elenco – Um beijo Krysten Ritter. Gostei absolutamente de tudo, indo do clima noir para a abertura da série. Foi amor a primeira maratona de 13 horas.

Aos poucos as coisas começam a mudar. Já temos hoje uma equipe criativa composta por mulheres e cuidando de números como Capitã Marvel, com a excelente Kelly Sue DeConnick. Por isso, poder acompanhar Jessica Jones, personagem criada por um homem (Brian M. Bendis), mas adaptada por uma mulher, Melissa Rosenberg, foi um extremo prazer. A compreensão de um feminismo sutil, mas poderoso, se torna essencial depois de treze episódios. Existe um lado humano muito forte, que se sobrepõe a qualquer clichê pré-estabelecido a respeito de super-heróis e heroínas. Na verdade, você quase não nota a questão super-herói. Se não fosse pela excelente participação de Rosario Dawson, reprisando seu papel de Claire Temple em Demolidor, você não perceberia que existe uma conexão direta com o universo compartilhado da Marvel. E para ser sincero, nem precisa. Ninguém deixa de viver a vida por causa de um homem bilionário em uma armadura de ferro, não é? Mas o abuso, esse já consegue privar qualquer pessoa da felicidade.

Jessica desenvolve e apresenta, logo de cara, vários sintomas de um estresse pós-traumático. Ela revê seus momentos de tensão, tem problemas para dormir e só consegue depois de bêbada, desconfia de todas as pessoas, não gosta de ser tocada. É um trabalho espetacular, que não força nada para o telespectador com explicações didáticas, mas que também não é nenhuma roupa nova do imperador, que só os inteligentes conseguem ver. Não, Jessica Jones consegue passar para o telespectador todo o clima para que exista um envolvimento maior do que apenas seguir um entretenimento fácil e de simples compreensão. O mesmo vale para as cenas de sexo da série, a primeira vez que a Marvel realmente deu uma sexualidade mais definida para um personagem seu. O fato de ser uma mulher e não um homem a mostrar que o sexo faz parte da vida adulta e precisa ser retratado com mais liberdade, demonstra a importância e o peso de JJ para o MCU.

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O vilão, Kilgrave, é de longe o melhor já desenvolvido pela Marvel, mais interessante e com maior profundidade do que Loki, o carro chefe da Marvel em sua primeira e segunda fase. Assim como em Demolidor, a série desprende um tempo considerável para tratar não apenas seu mocinho, mas também o seu antagonista. Não chega a ser uma história desenvolvida com tanto peso quanto o de Wilson Fisk, mas até mesmo a tentativa de humanizar Kevin Kilgrave existiu. De uma maneira bem sucinta a série tentou nos fazer simpatizar com o nosso algoz, novamente, mostrando o quão poderosa e frágil a mente humana é. Afinal, libertar-se de Kilgrave se tornaria bem difícil se em determinado momento Jessica decidisse perdoá-lo e compreendê-lo, como várias vítimas acabam fazendo e que pode ser explicado pela síndrome de Estocolmo, por exemplo. E o cara é um verdadeiro FDP! Antes mesmo de descobrirmos que ele não consegue mais usar seus poderes em Jessica, já conseguimos ver quão ruim ele é. Um cara que não se desprende da necessidade de controlar e manipular nunca. E mesmo querendo sua presença por mais tempo (no futuro), eu já sabia que o seu fim seria a morte, especialmente depois do sacrifício da Hope. Um “mal” necessário para a libertação final da Jessica e seus amigos.

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Já o lado romântico também é carregado de seriedade. A relação entre Luke e Jessica é extremamente marcante. O momento em que ela saí do banheiro e pede desculpas para Luke, estamos acompanhando sua retratação por ter matado Reva, não por estar indo embora. A série empenhou-se em mostrar não o relacionamento amoroso entre duas pessoas com poderes, mas os traumas de dois adultos que precisam, mais do que tudo, de alguém. Jessica quer ser perdoada a todo momento, é o que a motiva a continuar lutando e a fazer o bem. Ela é o tipo de heroína em constante estado de expiação. Felizmente, apesar de todo o sofrimento, Jessica não se coloca como vítima, mas como sobrevivente.

Se de um lado Jessica Jones foi extremamente competente, com seus protagonistas exuberantes e exalando competência, o dos coadjuvantes não se mostrou digno de tantos elogios assim. Malcolm, a trama do círculo de apoio para sobreviventes de Kilgrave, os irmãos Lannister do apartamento de cima, foi algo que não chegou a incomodar tanto quanto a trama da Senhora Cardeñas, Foggy e Karen em Demolidor, mas quebrou um pouco o ritmo de alguns episódios. Mas compreendo a existência deles naquele universo, eles são o lado humano ignorante necessário. Não digo ignorante de uma forma ruim, mas de uma maneira que precisa ser ensinada a entender a complexidade de homens com pele impenetrável e vilões que te controlam através de um vírus. Quem mais perguntaria coisas que os protagonistas não precisariam explicar caso eles não estivessem lá? E mesmo soando um pouco imaturo, confesso que gostei do desfecho de Hogarth e sua quase morte por mil cortes. E enquanto estou falando da advogada manipuladora, brilhantemente interpretada por Carrie Anne Moss, a primeira personagem assumidamente gay do MCU e com um relacionamento demonstrado e não apenas mencionado, porque não traçar um paralelo entre ela e o Kilgrave? Duas pessoas que precisam sempre controlar e viver acima de qualquer julgamento, por não serem eles a executar o ato, pelo menos não diretamente.

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De mais valioso para a série eu tiro o próprio relacionamento entre Jessica e Trish, é mais do que uma amizade é amor de verdade. São pessoas diferentes, que elevam lados opostos e complementares de uma mesma luta, mas que não precisam competir por nada, são irmãs. Jessica entrou em uma espiral de bebida e trabalho, Trish fez o que muitas mulheres já fizeram, montou uma fortaleza. Adorei os flashbacks em que as duas crescem juntas, aprendendo desde muito novas a conviver com o abuso de adultos despreparados. A série também fez questão de deixar no ar uma trama para a segunda temporada, se essa existir, com o lance da empresa responsável pelos poderes de Jessica. Mas nada disso chega a ser assim tão importante dentro de todas as tramas apresentadas, o essencial mesmo teve início, meio e fim.

Algumas pessoas chegaram a reclamar da luta final entre Jessica e Kilgrave, algo que eu até entendo, mas não concordo. O momento derradeiro é muito mais uma última prova psicológica do que de força, já que sabemos que no quesito braço, Jessica é muito mais poderosa do que Kevin ‘Kilgrave’. Não faria sentido uma série rítmica e compassada ficar louca em seu último episódio, sendo que a maior libertação que Jessica poderia ter, é a da mente. O “eu te amo” proferido para Trish, o sinal de que ela não estava sendo controlada, mesmo com o nosso Homem Púrpura já mergulhado em suas trevas e bem mais poderosos, fecharam com chave de ouro a primeira excelente temporada da série.

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Muitos não conseguirão enxergar o que significa a primeira temporada de Marvel’s Jessica Jones, sua relevância quanto discurso social e empoderamento feminino. Empoderamento de uma mulher que quer, principalmente, vencer o abuso sofrido pelas mãos de um homem. Tenho certeza de que em algum momento você chegou a conhecer alguma amiga, colega de trabalho, talvez sua irmã, ou mãe, que tiveram um Kilgrave na vida. Existem muitos Kilgraves espalhados por aí, nos mais diversos formatos e fachadas. O vilão que exerce poder e domínio sobre a vítima não precisa vir torcendo o bigodinho e rindo malignamente em um beco escuro, ele pode ser qualquer um, namorado, amigo, familiar. Kilgrave pode estar em qualquer lugar. Contudo, o poder para lutar precisa vir de um lugar apenas, de dentro. Assim como a Jessica, que se deparou com um cavalo branco sem príncipe nenhum para resgatá-la, o que importa é a luta.

 

Uma série poderosa e o melhor trabalho do universo compartilhado da Marvel Ter uma mulher como protagonista de uma série centralizada no mundo das adaptações de quadrinhos não é uma missão fácil. O grande problema com praticamente todas as heroínas, indo de X-Men para Vingadores, é que no final elas terminam por adotar um aspecto mais conectado ao lado romântico. É fácil entender que para o fã clássico das histórias em quadrinhos, a imagem da mulher não é das melhores. Inicialmente e por muitos e muitos anos, as personagens femininas eram escritas, criadas e desenhadas por homens. Eis a explicação…

Jessica Jones

Primeira Temporada

Nota

Uma série importante para o MCU e com uma mensagem extremamente relacionável. Atuações fortes e elenco bem escalado.

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Sobre Diego Antunes

Fundador do site, também colabora com postagens para o Série Maníacos com reviews de séries. Nutre um amor incondicional pela Marvel e é leitor ferrenho dos quadrinhos da casa das idéias desde os 12 anos de idade.

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