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[Comportamento] O Gay Discreto Fora-do-Meio (ou as consequências da homofobia internalizada)

Nos últimos meses tivemos diversas notícias e discussões que mostram que a homofobia internalizada ainda é algo pra se discutir.

Antes de falar sobre os “machos discretos fora-do-meio” gostaria que lessem o recorte abaixo que peguei de um jornal:

“Mas queiramos ou não evitar os julgamentos de valor, uma coisa é certa: a atitude predominante é a de uma estudada masculinidade. Nada de desmunhecadas ou requebros excessivos. A maneira de andar e de falar, o tom de voz, as roupas, a aparência em geral são corretíssimos: estamos em terra de machos. Estamos num lugar rigoroso, onde o indivíduo se destrói em ritual de humilhação sexual.

Na verdade, os jovens homossexuais parecem ter abjurado* o efeminamento com universal sucesso. Corpos musculosos laboriosamente cultivados durante todo o ano parecem ser o padrão;”

O trecho acima é do jornal Lampião da Esquina, de 1979, e nele o colunista discursa sobre como os gays (especialmente os mais jovens) dentro das boates LGBTT buscavam cada vez mais se mostrarem mais “machos”.

Mesmo 36 anos após esse texto temos o humorista Paulo Gustavo “casando”, mas sem dar beijo em seu marido na cerimônia. Além disso, ele já havia dado algumas declarações contra a Parada LGBTT e sobre como levantar bandeiras gera mais preconceito contra os gays. Paulo Gustavo beijar ou não em seu casamento é escolha dele, mas podemos refletir sobre o porque ele e muitos outros gays escolhem não “chocar” a sociedade hétero.

A razão para que o humorista do Vai Que Cola e muitos gays busquem se enquadrar aos modelos normativos é a famosa homofobia internalizada. A homofobia internalizada é a negação da própria homossexualidade, com ideias de inferioridade, depreciação e inadequação social.

Somos criados em uma sociedade heteronormativa, onde tudo relacionado a sexo, sexualidade e identidade de gênero deve se encaixar nos moldes da heterossexualidade, sendo esta a única orientação sexual considerada “normal”. Tudo que não se encaixa nesses moldes é “desviante”, “anormal” e “aversivo”.

Essa imposição, muitas vezes silenciosa, do que é certo e do que errado para os gêneros, para o sexo e as orientações sexuais acarreta no processo da homofobia internalizada aos homossexuais. Este processo não acontece de um dia para o outro, ele se dá ao longo dos anos e por isso cria raízes tão profundas. Anos lendo quadrinhos, jogando videogames, assistindo séries, novelas e filmes, e principalmente no próprio convívio da vida real, com heróis homens cisgêneros “machos” exaltando a heterossexualiadade e depreciando tudo aquilo que não está neste padrão.

Com esta não aceitação dos LGBTTs, muitos tentam de alguma forma se “adaptar” para “conquistar” um espaço dentro desta sociedade machista e homofóbica, e a forma mais conhecida é sendo o Gay Discreto Fora-do-Meio (aquele que escolhe não assumir sua sexualidade por medo da discriminação que sofrerá, seja em casa, na escola, no trabalho, na faculdade ou no shopping).

Alguns chegam até a manter relações com mulheres para manter o “personagem”. Casam, tem filhos, mas gozam sua verdadeira sexualidade ajoelhados no banheiro de algum shopping ou nos guetos escuros com outros homens.

Mas muitos esquecem que se hoje qualquer um pode baixar o Grindr, Hornet ou qualquer outro aplicativo em seu celular para usufruir dos prazeres do sexo gay é porque alguém lutou (e até morreu) para que isso fosse possível.

Sendo você um ginasta olímpico discreto, um sertanejo adorado pelas adolescentes, um Paulo Gustavo ou um youtuber cis (que gosta de disseminar a cultura do gay higienizado), podem usufruir sua sexualidade sem grandes problemas porque alguém deu a cara à tapa para que isso fosse possível.

Lembre-se que o direito de casar (que ainda não sei se é algo vantajoso), o direito de adoção ou o direito de poder andar de mãos dadas sem ser agredido na rua não foram conquistados pelo macho discreto fora-do-meio. Essas conquistas se devem as trans, as drags e as afeminadas bichérrimas que se manifestaram para que muitos pudessem hoje desfilar sua “superioridade” de macho.

Então o jeito é todos saírem do armário? A solução é todos adquirirem trejeitos femininos? O problema será resolvido com mais heróis gays nas HQs, mais beijos gays nas novelas, Paulo Gustavo beijando seu marido? Nada disso.

Não podemos ignorar que assim como sair do armário para quem mora, por exemplo, na capital de São Paulo e tem condições financeiras para levar sua vida de forma independente, muitos não possuem o mesmo privilégio e precisam se manter no armário até mesmo para se manterem vivos. Mas escolher o adjetivo discreto, que na verdade significa enrustido simplesmente por assim ser “menos gay” é um problema sério de personalidade.

Um beijo do humorista citado ou um beijo pudico no último episódio de uma novela não fará diferença no processo de desconstrução do preconceito, da discriminação e do estigma que os LGBTTs carregam. A homofobia é um processo muito mais complexo e que levará muito tempo para ser assimilada pela humanidade, mas estamos no começo. A representatividade e, especialmente, a educação das novas gerações sobre o respeito à diversidade.

O importante agora é refletir e se apropriar destes temas, tanto os enrustidos quanto os assumidos – exato manas, você que saiu do armário e se acha super resolvida, mas ainda aplaude certos tipos de “ídolos” e moldes impostos pela sociedade também precisa rever seus conceitos.

Tentar perceber o subjacente em alguns discursos que tentam por na roda alguns “temas gays”, mas apenas para o entretenimento hétero. O “humor” que insiste em colocar o gay como a piada certeira.

 A apropriação de “gostos” que na verdade são construções sociais buscando disseminar a intolerância e a higienização dos gays, excluindo afeminados, negros, gordos, muito magros, etc. Enfim, leia mais sobre estes temas e, por que não, escrever a respeito também. Somos chamados de comunidade gay, mas precisamos focar mais no termo comunidade.

Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana. Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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  • Telmo

    Estas questões poderão ser melhor enfrentadas quando houver prevenção da homofobia como vemos na proposta abaixo:
    http://saudepublicada.sul21.com.br/2015/09/14/homofobia-na-alemanha-querem-prevenir-no-brasil-quem-nao-quer/

  • Tieser Centeno

    VERDADE!! mas há mais que isso, e alem disso… pois o racismo surgiu pouco depois do inicio da idade média, muitos sofreram e mais outros ainda sofrem com isso mesmo havendo leis e o cuidado de se ensinar que a diversidade de etnias, cor e origens É tão importante quanto existente!!

    mas o que eu quero dizer é, sofremos muitas vezes e não por sermos gays, por sermos diferente da maioria ou por sermos (em alguns casos como o meu) fora da casinha…! e sim por ainda hoje existir gays “discretos” (ou enrustidos, como vcs falaram) e bissexuais que se acham privilegiados por serem “mais aceitáveis” à sociedade que o restante da “comunidade”… o que é outra coisa que eu A-DO-RA-RIA discutir!! mas vamos deixar isso pra outro dia…!

  • Tieser Centeno

    e apenas uma coisinha que pecou nesse lindo texto: a sociedade é para todos nós! gays, pansexuais, bissexuais, héteros alem de travestis, trans (homens e mulheres), pessoas transgêneros e transexuais em geral!! pois vivemos, constituímos e (principalmente) ESTAMOS nela!! não nego que vivemos num mundo onde o “ser diferente” é discriminado, humilhado, inferiorizado quando não morto (principalmente os gays que sofrem preconceitos de quase todos os lados e lugares)…! mas enquanto pensarmos nele como um lugar APENAS para os “aceitáveis” (bissexuais, gays discretos e a favor da homofobia, héteros, trans operados e que não parecem ser transexuais), será só isso mesmo que a sociedade será…!! visto que, se a sociedade é para os héteros, acabamos por criar o nosso próprio mundo, a nossa própria sociedade: a comunidade gay!!

    • Michel Furquim

      Perfeito Tieser. Não estamos apenas, mas somos parte da sociedade. E seria ótimo discutir sobre os “aceitáveis” dentro da comunidade LGBTT. Afinal, “aceitáveis” por quem? E pra quem?
      Abraço.

  • Randy

    Eu sou do jeito que eu quiser…
    EU AJO DO JEITO QUE QUISER…
    EU ME ATRAIO POR QUEM EU QUISER!
    SE EU NÃO CURTO AFEMINADOS, DIREITO MEU…
    SÓ ME TOCA QUEM EU QUERO…
    MEU CORPO, MINHAS REGRAS…

    EU JÁ FUI XINGADO, ESPANCADO E APEDREJADO…
    MINHA SEXUALIDADE NÃO EXISTE PARA SATISFAZER OS OUTROS…

    NINGUÉM MORREU PARA QUE EU PUDESSE TER A MINHA SEXUALIDADE…

    EU CONQUISTEI A MINHA PRÓPRIA SEXUALIDADE A BASE DE SANGUE, VIOLÊNCIA E MUITA LUTA CONTRA O PRECONCEITO… PRECONCEITO, INCLUSIVE DE MUITOS GAYS, COMO O DESSE CARA QUE ESCREVEU ESSE TEXTO!