Página Inicial / Diários de um Nerd / Como em Caverna do Dragão, uma mensagem para quem está no campo florido

Como em Caverna do Dragão, uma mensagem para quem está no campo florido

Esse texto não é, exatamente, pra você que me acompanha.

Não é um texto que tenha, tão forte, a minha marca de leveza e humor. Não se trata de mais um texto refletindo com base em séries. Nem de um texto falando sobre a minha vida amorosa de forma reflexiva. Não há estudos semânticos, sociais, culturais etc. expostos de uma maneira funcional, aqui. Você vai entender pra quem é esse texto; a importância de que você continue lendo; e o quanto ele te atinge indiretamente.

Inspirando-me, num contexto diferente, em Harriet Tubman, citada por Viola Davis em seu discurso, no Emmy 2015, eu digo: “Imagine o que eu consigo enxergar: Eu olho para uma espécie de túnel e ao fundo dele eu vejo, do outro lado, lindas pessoas heterossexuais, que passeiam pelo parque com seus filhos. Consigo ver casais felizes fazendo piqui-nique, na zona arborizada do zoológico, aos domingos. Eu vejo famílias lindas se juntando à mesa a cada Natal, entre avós, filhos, pais, genros, noras etc. Mas, eu jamais poderei atravessar esse túnel e me sentar àquela mesa.” – Porque eu sou gay! Porque meus pais não aceitam essa condição. Porque mesmo em quatro anos de namoro, eles não conheceram meu ex-namorado. Eu nunca sentirei aquele positivo frio na barriga de atravessar esse túnel e me deparar com os cenários que me venderam como o normal. Essa não é uma culpa dos meus pais e eu não quero discutir de quem é a culpa. O que acontece, é que como em Caverna do Dragão, jamais voltarei para casa. Mas acredito, que quanto mais quebrarmos paradigmas sociais, as gerações vindouras, nossos sobrinhos, filhos, alunos, nossas crianças… terão um mundo menos hostil e poderão atravessar o túnel de cabeça erguida! Em Caverna do Dragão, a Uni sempre impedia o retorno das crianças. Nesse túnel, a normatividade e os paradigmas atuais é que nos mantém presos.

caverna-do-dragao2

Nós nascemos nesse atual império humano, em que normatizaram algumas coisas, dentre elas a heterossexualidade. Não sou psicólogo, mas acho que é fácil perceber que crescer condicionado dentro de papéis de gênero e sexualidade não é saudável. Nessa sociedade doente, criamos monstros inocentes e cegos, que lutam uns contra os outros: de um lado, heteros que vivem suas vidas livremente e não aceitam a ideia de LGBTs à sua mesa, pelo simples fato de crescerem condicionados a essa normatividade, não aceitam por acreditarem, que LGBTs são mancham sua família por ser diferentes, errados, sujos, fora do comum etc. Do outro lado, LGBTs que são, em alguma fase da vida, rejeitados pelos que mais amam. Que em algum momento da sua existência, são barrados, indiretamente, do convívio com quem deveria ser sua base. Ou seja, temos um grupo que adoece mentalmente ao ter de se dividir entre uma paixão/amor e sua família. Adoece, quando percebe que, independentemente, de onde vai abrir mão, vai sofrer sempre. Estamos diante de um grupo, em que o menino-tímido-e-nerd/loser-da-escola representa bem: quando entediado da janela da sala, esse menino vê no pátio o transbordar da alegria de seus colegas descolados, mas ele não desce, nesse intervalo, fica sozinho, porque não será aceito lá.

Um heterossexual nunca saberá quantos conflitos passam na cabeça de pessoas LGBTs, nunca entenderá que um simples passeio no zoológico, a depender da região e cultura, pode ser o inferno para o LGBT. Um heterossexual não pode mensurar, a exemplo, como apenas um abraço dele no namorado de seu filho, num almoço de domingo, mudaria e edificaria a vida do seu descendente. Um heterossexual jamais vai entender o que é ficar de um lado do túnel, enquanto todos o que você ama estão do outro lado. Mas, não são culpados por não entenderem. Você, heterossexual, quer seja pai, mãe, filha, tio, avós etc. mesmo que não consiga mensurar ou entender o que é ficar nesse lado do túnel, pense em mais oportunidades com o LGBT que você ama fraternalmente; estenda a mão e puxe-o para o seu lado do túnel. Nem tudo é pra ser entendido ou mensurado, apenas viva o amor, não exclua os que ama de suas mesas de jantar. Demonstrar respeito por quem está seguindo a jornada com esse LGBT que, fraternalmente, você ama, pode trazer muita saúde a vida dele, seja física, mental ou espiritual. Ajude-o a manter o equilíbrio…

Mcaverna-do-dragao-1uitas famílias aceitam parcialmente, outras aceitam completamente. Mas a realidade em massa, ainda é um enorme grupo de LGBTs olhando para o fim desse túnel e tendo a mesma certeza do que eu: a de nunca podê-lo atravessar. Esse texto, não é para os LGBTs, eles me entendem, em certa medida. Esse texto é para você, que está no campo florido, bem aí, desse lado do túnel em que pode juntar, na mesa do jantar, todas as pessoas que ama. E a você LGBT, que atravessou o túnel, leve essa mensagem pra eles…já que eu nunca vou pisar lá!

Sobre Hugo Dalmon

De 88. Nascido em Volta Redonda – RJ. Formado em Letras (2011). Autor do livro Babilônia Encantada (2012). E do premiado livro Quero me lembrar de você, Amy Winehouse (2014). Também, da série de contos Armani, agora, é o novo preto (2015). Assina para a revista online Obvious, na coluna Nerd Suave. E escreve seus sentimentos no – regionalmente – premiado blog Espaaço Zeero.

Veja Também

Pela primeira vez na história “The” Doctor de Doctor Who será uma mulher, mas a luta continua

16 de Julho de 2017 e em um vídeo a BBC revelou a identidade da …

  • Tieser Centeno

    é como olhar sempre para mundos e épocas diferentes com olhos também diferentes, mas pela mesma janela…!!

    • pois é… é como um anacronismo mesmo…