Página Inicial / Comportamento / [Comportamento] Super-Heróis e o corpo masculino

[Comportamento] Super-Heróis e o corpo masculino

Você consegue dizer o nome de um super-herói gordo?

Como já comentei aqui anteriormente, acompanho as HQs americanas há mais de 20 anos. Durante muito tempo admirei os traços e as representações dos grandes super-heróis que gosto como Batman, o Homem-Aranha, os X-Men, etc. Porém, após minha formação universitária comecei a observar as coisas com outros olhos, especialmente aquilo que estava mais próximo em meu cotidiano.

Comecei a ter um olhar um pouco mais crítico do universo nerd, que precede minha vida acadêmica, sobre diversos temas: representatividade LGBT nos quadrinhos, os relacionamentos gays, o universo dos “excluídos” e mais recentemente aos padrões transmitidos pelos produtos Nerds da cultura pop. E uma das coisas que decidi falar neste texto é sobre o culto do corpo masculino nas HQs americanas.

Você conseguiria citar o nome de algum herói (protagonista ou coadjuvante, mas precisa ser herói) gordo? E um super-herói magro (quando digo magro, digo abaixo do peso considerado “normal”, e não simplesmente “menos musculoso”)?

Pois é, não existem.

Desde as décadas de 30 e 40, quando surgiram os primeiros e antecessores de vários dos super-heróis que conhecemos até os dias atuais, os heróis são quase que em grande maioria homens. E não são quaisquer tipos de homens. São homens, brancos, heterossexuais e musculosos. Nos últimos anos, as 3 primeiras características citadas têm sido alteradas a favor da representatividade dos leitores, mas a última ainda é algo pouco questionada. Ou melhor, negligenciada.

O corpo musculoso e sarado se tornou o referencial de corporeidade masculina, pois ele remete a força e virilidade, enquanto que corpos que desviam deste padrão são comumente satirizados. Estar acima ou abaixo do “peso ideal” indica ausência de saúde e/ou fragilidade, por isso são comumente excluídos das mídias e, obviamente, nas histórias em quadrinhos não é diferente.

Muitos podem achar que isso não é relevante (aquela história de que “nós gostamos de problematizar tudo”), mas se pensarmos que tais publicações também servem à manutenção de padrões e normas de conduta da sociedade, então podemos entender porque tantas pessoas se sintam infelizes com seus corpos.

Todos os indivíduos constroem comportamentos, hábitos, crenças e valores a partir da imitação, em cada contexto cultural, e nossos corpos também fazem parte desta construção. Ou seja, o mundo ao nosso redor opera no sentido de forçar e reforçar o conjunto de significados e práticas associados ao nosso corpo. O resultado disso tudo faz com que o indivíduo internalize profundamente a disciplina e a normatização do próprio corpo. Logo, o corpo passa a significar uma prisão que teria como objetivo pressionar sua adequação aos padrões dos grupos sociais aos quais pertence.

É possível notar isso claramente nas imposições ao corpo feminino, com modelos e cantoras magras ou dentro dos padrões esperados de um corpo “belo”. Apesar de uma evolução considerável em relação a beleza do corpo feminino real, ainda há muito para desconstruir. Ou você conhece alguma “diva” (amada especialmente por mulheres, homens héteros e gays) que seja gorda? Talvez a única exceção seja Adele, mas isso é discussão para outro texto.

Enquanto essa imposição já está bem mais clara e discutida em relação aos corpos femininos, entre os corpos masculinos é praticamente ignorada. Enquanto as meninas são ensinadas desde pequena que o corpo bonito é o da princesa, branca e magra, nós meninos (ou quem se identifique com o gênero masculino) somos educados que o corpo belo é do Superman (mesmo que ele ter músculo seja inexplicável, dentro das leis da biologia), do Batman, do Wolverine, do Homem-aranha, etc.

Parece algo difícil de entender, afinal somos nerds e (pelo menos eu) fãs de super-heróis. Mas acredite é complicado mesmo. Somos o que consumimos e o que consumimos tem papel fundamental na construção de nossas identidades. Muitos de nossos valores e significados são interiorizados através de signos culturais. Se crescemos lendo histórias onde heróis são homens, másculos, dotados de virtudes como justiça, honra, lealdade, quais são as associações que fazemos aos corpos que desviam deste padrão? Se força física e bondade são associadas à heróis com corpos desproporcionalmente musculosos, quais valores restam para aqueles que são gordos, muito magros ou não representem o homem másculo?

Fazendo uma pesquisa superficial podemos perceber que os personagens gordos são sempre vilões ou sinal de piada.

VILOES

Quando não, temos o exemplo de Doutor Druida, que fazia parte dos Guerreiros Secretos da Marvel, mas que teve que “entrar em forma” para se adequar ao time.

DRUIDA

Aliás, muitos personagens precisam “se adequar”, especialmente quando falamos de adaptações. Como o Coruja II, de Watchmen, que ganhou um corpo sarado para a adaptação cinematográfica. E o mais recente, Oswald Cobblepot, da péssima série Gotham, que ganhou um corpo bem diferente a dos quadrinhos. Mesmo quando o personagem não está assim tão fora do padrão, como foi o caso de Christian Bale no papel de Batman na trilogia de Nolan, é considerado “fraco” perto de outro mais próximo do padrão “másculo” desejável, como é o caso do Batman de Ben Affleck. Ou seja, uma busca incessante.

BATMAN

Além disso, a masculinidade é outra característica que internalizamos através das imagens dos super-heróis conhecidos, estabelecendo um estigma que desqualifica corpos que não representem o másculo, pois o associa ao não-homem, a quem transgride os papéis heteronormativos. O corpo masculino se define por sua força e capacidade de realizar tarefas que o beneficiam na competição pela liderança e supremacia.

Esses valores chegam até a nossa sexualidade, onde características da força como dominação, especialmente através da penetração e da vergonha de ser penetrado, e da competição, manifestadas pelas inúmeras conquistas e sua exibição. Viagem, né? Talvez.

Isso porque nem citei a questão da representatividade dos deficientes físicos nas HQs. A única que conheci e que gostava bastante, a Oráculo (Bárbara Gordon paraplégica, após ser baleada pelo Coringa), “saiu” da cadeira de rodas para voltar a ser a Batgirl. Afinal, alguém na cadeira de rodas não poderá ajudar muito no universo do super-heróis, né?

BATGIRL

Mas nos últimos tempos vejo muitas discussões, especialmente nas redes sociais, sobre o preconceito que homens gays gordos, muito magros, passivos e “afeminados” sofrem dentro do próprio meio gay. Se desde pequenos queremos ser heróis (e até hoje quem não quer?), então talvez os valores internalizados por estes heróis que nos foram apresentados precisam ser descontruídos. O culto ao corpo não se resume a gays ou a heterossexuais, mas parece fazer parte da própria vida contemporânea.

Já falei anteriormente sobre a importância que o personagem Shun de Andômeda, dos Cavaleiros do Zodíaco, teve em minha formação como pessoa. E os animes e produções japonesas mostram que é possível criarmos heróis nos distanciando do padrão heteronormativo e de corpos artificialmente construídos. Vide Yukito (Sakura Card Captor), Kurama (Yu Yu Hakushô), Lelouch (Code Geass), Tenchi (Tenchi Muyô), etc.

ANIME

Então, devemos parar de ler HQs americanas? Vamos boicotar filmes baseados em histórias em quadrinhos? Cancelo minha matrícula na Smart Fit?

Não é preciso tudo isso, jovem. Basta um olhar crítico sobre as coisas que nos são apresentadas, mesmo aquelas coisas que amamos muito (falo por experiência própria, não foi fácil perceber que muitos dos quadrinhos que coleciono são misóginos e heteronormativos). Além disso, uma autoanálise sobre os discursos que emitimos é algo fundamental para que estas questões sejam desconstruídas.

Não existe “questão de gosto” (já falamos sobre isso também aqui no blog), existe apenas construção social. Internalizações de normas que podemos ou não aceitar. Então toda vez que você estiver no seu app procurando o próximo boy, lembre-se quando for digitar “Não curto ___________ (digite aqui qualquer minoria ou característica que você rechaça por falta de autoanálise) por questão de gosto”. Lembre-se que “gostar” apenas de corpos sarados ou heteronormativos, é simplesmente porque você aceitou algumas imposições sociais, talvez porque nunca parou para refletir a respeito.

Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana. Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

Veja Também

Comportamento | “Cadê meu player 2?”

Na minha profissão, ouvir sobre relacionamentos e todas as suas complexidades é algo rotineiro, mas …

  • Tieser Centeno

    verdade!! deveríamos rever os nossos conceitos!!

  • Tieser Centeno

    verdade!! deveríamos rever os nossos conceitos!

    • Michel Furquim

      Sim, Tieser! Rever nossas certezas! 😉