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[Crítica] Looking – Primeira e Segunda Temporada

A HBO continua na liderança das produções que abordam a diversidade sexual. Desde Queer As Folk até Girls, passando por The Out List e The Normal Heart. Uma das últimas e que mais me agradou foi a série Looking.

Na história, ambientada em São Francisco, Patrick (Jonathan Groff) é um designer de videogames de 29 anos que está voltando a sair com outros caras após o fim de um namoro. Agustín (Frankie J. Alvarez) é um aspirante a artista de 31 anos que começa a questionar a monogamia em sua relação. Dom (Murray Bartlett), o mais velho deles, é um garçom de 39 anos que está profissionalmente estagnado e que, com a proximidade do aniversário de 40 anos, se depara com a realidade: não está realizado nem no amor, nem na carreira.

Desde o início, Looking sofreu com as comparações com outras séries, obviamente com Queer As Folk (também produzida pela HBO e que já foi comentada AQUI) e como sendo uma “versão gay” do seriado Girls.

Achei as comparações injustas. Looking, apesar de tratar sobre dramas nos relacionamentos afetivos, possui uma proposta diferente destes outros seriados.

Lembro-me de assistir Queer As Folk e achá-la revolucionária na época. E realmente foi. Eu era um gay recém-descoberto e ver Michael, Brian, Emmet e Justin vivendo a homossexualidade abertamente me deram muitas esperanças para viver no mundo heteronormativo. QasF foi importante para mim naquele momento de descobertas e os primeiros contatos com o “universo” gay.

Mais de 10 anos depois, Looking chega em um mundo onde muitos armários já foram abertos, muitos tabus já foram (e continuam) a ser questionados e a atual geração dos gays começa a ter contato com questões pouco familiares aos homossexuais. A comunidade LGBTT da década de 80 e 90 não “tiveram muito tempo” para discutir sobre relacionamento aberto, homofobia internalizada, envelhecer dos homossexuais, casamento civil, etc. Eles estavam bastante “ocupados” tentando sobreviver à epidemia da AIDS, as violências físicas constantes e ao cerceamento dos direitos básicos dxs trans, dos gays e todos que não se encaixavam nos padrões “normais”.

Looking retrata os herdeiros dos direitos conquistados por estas gerações dos LGBTTs. Aqueles que já não “gastam” tanto tempo engajando-se na política para assegurar direitos ou em manifestações que forcem as autoridades a se posicionar perante as necessidades da comunidade LGBTT. Mas por algum motivo a série foi rejeitada pela maioria do público, talvez por estes esperarem uma “nova” QasF.

Enquanto QasF abordava questões como a saída do armário, a primeira vez de um menino gay, a epidemia do HIV e estereótipos da comunidade gay, Looking se passa em um momento onde muitos destes temas já foram discutidos largamente na sociedade.

Então, o que fazer quando já estamos fora do armário?

Não podemos dizer que já estamos em uma sociedade igualitária, onde a diversidade é totalmente respeitada, porém muita coisa já foi conquistada. E a série mostra exatamente este período em que estamos, onde alguns direitos já foram adquiridos (mais para nós gays do que as outras letras da comunidade LGBTT), mas ainda estamos aprendendo a conviver entre nós mesmos.

Deparamo-nos com o protagonista Patrick, um cara inseguro, indeciso, desesperado por um relacionamento e capaz de cometer grandes burradas, que retrata exatamente muitos de nós gays (pelo menos a maioria que eu conheço).

Patrick apesar de ser uma pessoa correta, se mostra imaturo em muitas situações. Sua busca quase que obsessiva por um relacionamento é algo clichê entre os gays atualmente. Não é a busca de uma pessoa especial e sim do status que o relacionamento proporciona. Isso fica claro quando Patrick, na primeira temporada, conhece Richie (Raul Castillo).

Richie é o namorado perfeito. Bonito, romântico, compreensivo, sensível, porém é barbeiro e não tem uma vida financeira de que possa se orgulhar. Apesar de apaixonado por Patrick e demonstrar com todas as letras isso, acaba sendo a segunda opção de nosso protagonista.

A primeira opção fica sendo o chefe de Patrick, Kevin (Russell Tovey), comprometido e com todas as características que nós gays buscamos (inconscientemente ou não) como o “belo”: ele é sarado, branco e bem-sucedido.

Logo, se torna a escolha óbvia de Patrick, mesmo com todos os obstáculos e mentiras que este relacionamento proporciona.

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Além disso, vemos como a velhice é encarada dentro da comunidade gay através do personagem Dom. Frustrado na profissão e no amor, Dom percebe que a “velhice” está batendo a porta e por isso decide colocar tudo aquilo que protelou em prática. Uma característica interessante em Dom e que é comum nos gays “mais velhos” que conheço é o desinteresse por pessoas da mesma idade ou acima.

A juventude é supervalorizada, pelo menos na questão sexual (aquela mesma balela de sempre, “questão de gosto”). Com o desenrolar da série, Dom conhece Lynn (Scott Bakula), um gay bem mais velho que lhe oferece ajuda financeira, aproximando os dois. A maturidade e o apoio incondicional de Lynn faz Dom despir-se deste preconceito em relação à idade, percebendo que um relacionamento é muito mais do que idade e aparência.

E por último e meu favorito, temos Agustín. Aspirante a artista, começa a primeira temporada iniciando a vida sob o mesmo teto com seu namorado Frank. Porém, Agustín é uma locomotiva sem direção, emocionalmente e profissionalmente, ultrapassando alguns limites e questionando (de forma pouco saudável) muitas coisas. Agustín questiona a monogamia em seu relacionamento, o que causa (obviamente) o fim do relacionamento.

Em qualquer grupo de conversa gay, esse sempre será um assunto polêmico. Somos contra algumas normas sociais para que nossa homossexualidade seja respeitada, mas algumas normas sociais, como a monogamia, condenamos veementemente (obviamente com o mesmo discurso “questão de gosto” ou “Nada contra, mas…”).

Na segunda temporada, Agustín se relaciona com um dos personagens mais bacanas que já conheci, Eddie. Um urso (urso de verdade, não as versões higienizadas “muscle bear”), soropositivo e voluntário em um abrigo para jovens trans. Eddie poderia ser considerado pela grande maioria dos gays como “aquele deve ser evitado a todo custo”, afinal é gordo e ainda por cima tem HIV. Mas quebrando preconceitos, Eddie se mostra um dos caras mais sensatos e bondosos de toda a série.

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Analisando superficialmente os personagens principais, já dá pra perceber que não são muito agradáveis. É difícil admitir que nos identificamos com algum deles, afinal possuem tantos defeitos, parecem tão… humanos. E acho que aí está o motivo de muita gente ter achado a série “ruim”: ela suscita (como diria Jung) nossa sombra, aquele lado nosso que não é tão bonito e que insistimos em negar.

Looking mostra que temos muitas coisas de que não nos orgulhamos e assim, segundo a Psicanálise, projetamos no outro, seja nosso parceiro, seja nossos amigos ou aquele personagem que odiamos.

A série Looking jamais estará entre as preferidas do grande público e também não traz tramas complexas ou reviravoltas bombásticas de tirar o fôlego, ela nos mostra simplesmente um recorte de nossas vidas em busca daquilo que nos falta. Aquilo que nos convencemos de que irá nos completar. Looking retrata nossa vida por trás das máscaras e sem as máscaras nossa vida é bem chata.

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Curiosidades:

Ainda neste semestre temos a promessa de um telefilme que encerrará a história dos amigos Patrick, Agustín e Dom. A série teve apenas duas temporadas e devido à baixa audiência foi cancelada.

Jonathan Groff além de ator, também é cantor e compositor. O ator é gay assumido e já participou de outra produção da HBO, The Normal Hearth, que mostra a luta da comunidade LGBTT na época da epidemia da AIDS. Também participou do seriado Glee, como Jesse, par romântico de Rachel (Lea Michele).

Murray Bartlett é australiano e ficou conhecido após atuar na novela “Home and Away”. Nesta mesma novela saíram nomes como Heath Ledger, Chris Hemsworth, Guy Pearce e Naomi Watts (!). Ele também atuou em um filme, August (Verão em L.A.?).

Enquanto a série estava no ar, o ator Russell Tovey deu uma declaração infeliz, agradecendo ao seu pai por não ter deixado seguir o caminho de “ser afeminado” (oi?). Após muitos protestos sobre a declaração, o ator se desculpou àqueles que ele ofendeu. Mais ou menos assim: “Não tenho nada contra afeminados, é apenas questão de gosto, gente” – Brincadeiras à parte, o ator perdeu uma boa oportunidade de ficar calado.

O ator que interpreta Eddie, Daniel Franzese, é o Damian de Mean Girls (Meninas Malvadas)!

A HBO continua na liderança das produções que abordam a diversidade sexual. Desde Queer As Folk até Girls, passando por The Out List e The Normal Heart. Uma das últimas e que mais me agradou foi a série Looking. Na história, ambientada em São Francisco, Patrick (Jonathan Groff) é um designer de videogames de 29 anos que está voltando a sair com outros caras após o fim de um namoro. Agustín (Frankie J. Alvarez) é um aspirante a artista de 31 anos que começa a questionar a monogamia em sua relação. Dom (Murray Bartlett), o mais velho deles, é um…

Looking

Primeira e segunda temporada

Nota

A série Looking jamais estará entre as preferidas do grande público e também não traz tramas complexas ou reviravoltas bombásticas de tirar o fôlego, ela nos mostra simplesmente um recorte de nossas vidas em busca daquilo que nos falta.

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Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana.
Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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  • Marcos Paulo Jeremias

    Série muito boa, pena não ter atingido audiência necessária para continuar 🙁

    • Michel Furquim

      Também achei uma pena. Vamos torcer que apareçam outras que abordem estes temas.