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Crítica|Game of Thrones 6.04 – The Book of The Stranger

O que seria de Game of Thrones sem as suas mulheres?

E a resposta para a pergunta acima é: nada. Ou pelo menos uma série sem uma estrutura narrativa tão rica. Contudo é muito fácil também perceber que o tratamento desferido para essas personagens no passado não foi satisfatório. Uma das maiores ofensas para um homem é questionar sua masculinidade. É um senso comum para a maioria, até mesmo os gays e sua constante cruzada contra o feminino e o afeminado. Em se tratando de uma produção épica com forte conexão com a mitologia medieval, este traço é potencializado por conceitos de honra, masculinidade, direito ao trono e outros princípios conectados ao gênero masculino. Então quando a série precisa destruir a força de um de seus homens, ela mira diretamente na sua masculinidade, questionando a posição como melhor guerreiro, líder patriarcal, ou mirando diretamente na sexualidade, como foi com Renly, está sendo com Loras e aconteceu com Theon, hoje considerado quebrado, e não apenas pela lavagem cerebral realizada por Ramsay.

Com as mulheres da produção não poderia ser diferente. O que é ponto mais crítico para uma mulher em uma produção que entrega o poder diretamente para O primogênito, e não para o primeiro filho? O direito à liberdade do corpo. Sendo assim, ao invés de procurar novas maneiras de impor qualquer tipo de risco imediato para suas personagens, Game of Thrones optou por tirar o poder destas mulheres através do cerceamento da individualidade e do controle do bem mais precioso que elas possuem, o próprio corpo. Estupro passou a funcionar como a forma mais “marcante” para limitar a força de qualquer mulher. O risco imediato, a punição por um crime, o castigo pelo nascimento ou pelo poder adquirido, tudo sempre permeado pela violência sexual.

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Book of the Strange assume uma posição diferente dentro do que já foi feito na produção por, pela primeira vez, impor mudança na personalidade de suas mulheres, mas tratando-as como seus homens são tratados, na base da diversidade. Talvez pela crescente quantidade de críticas realizadas na temporada anterior, mostrando quão machista Game of Thrones é, ou progressão natural da narrativa, a verdade é que as histórias desenvolvidas demonstraram algo que dificilmente a série impõe com tanta confiança.

Um dos pontos que venho digerindo durante esta sexta temporada, mas que alguns não concordam, é com a sensação de que estamos caminhando para um fim derradeiro. E quem mais demonstra esse comportamento do roteiro é Daenerys. Em Vaes Dothrak sua participação finalmente recebeu uma conclusão. Um reflexo direto do passado da série, aquele segmento demonstrou um cuidado ao pontuar o caminho de uma personagem atingindo o máximo de uma conclusão para a trama que começou com sua primeira cena, em uma banheira e se preparando para conhecer o futuro marido, Khal Drogo. O final com um banho de fogo também a conecta diretamente ao lado místico da série, constantemente sendo expandido e novamente ligando o presente ao passado com a icônica cena da personagem saindo das cinzas com os seus três dragões. Em ambos os casos, um novo caminho foi apresentado. A diferença é que agora a mulher que sai das chamas não é uma menina buscando um motivo, mas já uma líder encontrando o seu chamado. O fogo é incontrolável e queima a todos que tentam prendê-lo. Esta é Daenerys Targaryen.

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Entretanto, mesmo com a possibilidade de um final cada vez mais próxima, ainda existem temas que a série simplesmente opta por não trabalhar, ou ocultar o máximo possível. Mindinho é exatamente um deles. O personagem sempre funcionou como um grande jogador. Imaginar que o ele ficou ausente por tanto tempo e que o máximo que teremos de seu retorno é um pouco de manipulação em cima de uma criança, é pedir muito do telespectador. Com certeza em algum momento a série optará por justificar suas viagens como mais maquinações. Entretanto uma coisa é ver, e outra é ficar sabendo, ou receber uma referência tardia. Seria interessante ter mais do personagem trabalhando.

Obviamente o seu retorno marca um novo caminho para Sansa e o destino do norte. É muito complicado compreender o que Mindinho realmente é, e de que lado ele está. Uma coisa, porém, é bem clara, ele pensa primeiro em si mesmo para depois pensar nos outros. Só que mesmo um homem tão egoísta e cheio de planos para o futuro compreende a necessidade de se ter amigos e aliados. Sansa é exatamente aquilo que ele precisa para ascender ao poder. Resta saber quem ele escolherá controlar após descobrir sobre a morte de Jon Snow, sua saída da patrulha da noite e a possibilidade de ter o bastardo como guardião do norte e não Sansa. E é aí que mora a beleza de um personagem tão misterioso. Tudo é possível.

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Por falar em Sansa, o encontro entre ela e Jon foi um dos pontos mais altos para quem começou acompanhando e torcendo pelos Starks lá na primeira temporada da série. Com certeza a personagem cresceu muito e toda promessa de uma mulher mais forte, conforme vimos em seu momento no Ninho da Águia, finalmente parece ter chegado. Obviamente que seus discursos de guerra, vingança e direito soam bem mais interessantes do que suas constantes lamúrias. Mas é necessário entender que após ter sido tão calejada, violentada e desprezada pelo roteiro, este comportamento é inteiramente compreensível, mesmo que tenha chegado tardiamente.

O fato é que Jon e Sansa encontraram uma missão, algo que estava faltando para ambos. Após sua ressurreição, e como pontuado anteriormente, a série expôs a sensação de um homem à deriva. E o mesmo vale para Sansa, que nunca teve uma tarefa a cumprir, sempre trabalhando para manter-se viva e intocada o máximo de tempo possível. Com um inimigo em comum, o irmão para resgatar, agora desprotegido após o assassinato de Osha, a trajetória dos Starks de Westeros com certeza receberá a mesma sensação de conclusão que a de Daenerys, do outro lado do mundo.

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E então terminamos tudo com Tyrion e o plot menos interessante da temporada, Meereen. É notável quão desinteressante tudo é, quando o anão não está correndo perigo de vida, ou interagindo com pessoas odiosas, como Cersei, ou seu pai. Vê-lo trabalhando politicamente é ótimo, afinal, toda a construção do personagem em cinco anos avançou incessantemente para demonstrar que a inteligencia é muito mais importante do que a força. Mas a recompensa não é tão boa quando sabemos que o futuro da série não está em Essos e sim em Westeros. É válido ter o personagem agindo para corrigir o grande erro de Daenerys, que funcionou como uma conquistadora, principalmente. Contudo soa apenas como uma maneira de não deixar Peter Dinklage fora da produção, encontrando alguma função para sua relação com os escravocratas e gerindo algum tipo de confronto entre ele, Verme Cinzento e Missandei, que convenhamos, ninguém dá a mínima. 

Através do foco em suas mulheres Game of Thrones entregou mais um ótimo episódio, para a já excelente sexta temporada da série. Compreender que o texto está fazendo o possível para corrigir seus erros é extremamente válido, principalmente após tantas reclamações levantadas no ano anterior. Claro que o foco continua sendo desviado, além de termos algumas histórias novas que não receberam ainda a luz necessária para se encaixar a todo o resto. Tyrion, Cersei e Porto Real figuram como as tramas menos conectadas a tudo o que está acontecendo nos outros núcleos, mantendo o interesse unicamente pelos personagens envolvidos e não a trama. O melhor agora seria focar exclusivamente em quem já tem anos de história, mas obviamente a série ainda precisará encontrar algum destino para Pyke e a insossa Dorne. Que os sete nos protejam. 

Observações

– A fé militante deveria funcionar como “mocinha”, agindo em defesa do povo e contra o domínio de pessoas como Cersei, mas só recebe retoques de vilania a cada cena apresentada. É uma pena, realmente. Mas mostra que estamos caminhando para uma Porto Real totalmente desestruturada. Parece que a conquista de Daenerys ficará mais fácil. 

– Loras já está quase quebrado e eu imagino que ele irá representar a queda de Margaery.

– Brienne e Tormund. Finalmente o núcleo da muralha está interessante. 

– Pensei que Brienne fosse entregar a morte de Shireen, mas ela só confessou ter matado Stannis. Outro ponto que se fecha. 

O que seria de Game of Thrones sem as suas mulheres? E a resposta para a pergunta acima é: nada. Ou pelo menos uma série sem uma estrutura narrativa tão rica. Contudo é muito fácil também perceber que o tratamento desferido para essas personagens no passado não foi satisfatório. Uma das maiores ofensas para um homem é questionar sua masculinidade. É um senso comum para a maioria, até mesmo os gays e sua constante cruzada contra o feminino e o afeminado. Em se tratando de uma produção épica com forte conexão com a mitologia medieval, este traço é potencializado por…

Game of Thrones

The Book of The Stranger

Nota

Um episódio que foca em suas mulheres, utiliza nudez de maneira inteligente e começa, com cada vez mais intento, a fechar ciclos e se preparar para o que propôs lá na primeira temporada.

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Sobre Diego Antunes

Fundador do site, também colabora com postagens para o Série Maníacos com reviews de séries. Nutre um amor incondicional pela Marvel e é leitor ferrenho dos quadrinhos da casa das idéias desde os 12 anos de idade.

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