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[Crítica] Lúcifer – Primeira Temporada

A Estrela da Manhã está entre nós e apesar de tudo, está valendo a pena.

Para falar sobre está série, tive que fazer algo muito difícil: deixar minha chatice de lado e me despir de vários preconceitos que tive desde o começo com esta adaptação.

Quem leu Sandman e Lúcifer, da Vertigo, concordará comigo que estes quadrinhos são inadaptáveis. Tendo isto em vista desde o começo, é preciso assistir a série Lúcifer como se fosse algo totalmente novo, sem nenhuma ligação com a criação de Neil Gaiman.

Lembram que falei AQUI sobre a proposta da série, quando liberaram o primeiro trailer? A série manteve exatamente aquilo que nós esperávamos: um protagonista charmoso, estilo bon vivant e engraçado.

Pra quem ainda não conhece a história, a trama gira em torno do rei do inferno, Lúcifer (interpretado por Tom Ellis) que se cansa de cuidar do submundo e das almas dos pecadores. O anjo caído abdica do trono no inferno e decide vir para o mundo dos mortais, onde abre a boate/bar Lux (amei o nome) e tenta descobrir por que Deus escolheu os humanos ao invés dele. Lúcifer tem o poder de extrair dos seres humanos seus desejos mais podres e primitivos. 

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Os questionamentos de Lúcifer sobre o plano de Deus é uma das poucas coisas que nos remete ao personagem dos quadrinhos e, consequentemente, uma das coisas mais bacana da série. O Estrela da Manhã busca respostas sobre sua posição como Imperador do Inferno, que nada mais é do que um empregado de Deus, responsável por recepcionar e punir os pecadores.

Tom Ellis se sai muito bem como Lúcifer. O sotaque britânico, as falas irônicas e as facetas sarcásticas fazem com que o ator roube a cena em quase todos os episódios. Ao mesmo tempo em que é engraçado ver Lúcifer zombando de nós, tolos mortais, algumas vezes o excessivo tom caricato tornam algumas cenas cansativas e repetitivas.

A série, mesmo utilizando bastante do humor ácido (mais humor do que ácido), traz várias pontuações interessantes sobre pecado, a representação do Diabo e as fantasias religiosas enraizadas em nossas mentes. Vários símbolos relacionados ao anjo caído são satirizados de forma inteligente, como a associação de Lúcifer a imagem de um bode, nomes inventados para designar o rei do inferno, etc.

Por exemplo, Lúcifer deixa claro que ele não foi enviado para o Inferno por ser um pecador. Nós humanos somos pecadores. Ele foi enviado para o Inferno para cumprir um papel que Deus não tem a mínima vontade de realizar, e que poderia ser substituído por qualquer outro anjo.

Aliás, por este motivo, conhecemos o anjo Amenadiel, irmão de Lúcifer. Amenadiel tem a função de convencer Lúcifer a voltar para o Inferno e assim impedir que outro anjo seja eleito para o seu lugar. Mesmo sendo um anjo enviado de Deus, o irmão do capiroto se mostra muitas vezes com uma moral tão questionável quanto a de Lúcifer. O anjo será capaz de qualquer coisa para que o irmão retorne ao submundo, fazendo com que o telespectador torça menos ainda para o Reino dos Céus. O ator que interpreta Amenadiel é David Bryan Woodside, que tem seu primeiro papel importante nesta série. Por curiosidade, o ator é negro, o que deu alguns pontos a mais ao seriado, afinal você já viu alguma imagem de anjinhos negros?

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Lúcifer é acompanhado de um demônio, Maze (interpretada por Lesley-Ann Brandt), uma das personagens que tem um bom desenvolvimento dentro da trama, tendo um papel importante nos episódios finais da temporada.

Logo no primeiro episódio somos apresentados a Chloe (Lauren German), uma detetive da divisão de homicídios. Alguns mistérios rondam a personagem que fazem com que os poderes de Lúcifer não funcionem na moça, se torne vulnerável perto dela e, consequentemente, acabe se sentindo atraído pela moça. E aqui, com certeza, está o grande problema da série.

A relação entre Lúcifer e Chloe é a coisa mais chata da série. Infelizmente, como em qualquer seriado o protagonista precisa ter um interesse amoroso e mesmo o rei do Inferno acaba arrastando uma asa (!) para a detetive. O interesse de Lúcifer em Chloe se torna desproporcional, afinal temos de um lado um anjo caído, de milhares de anos, com uma batalha divina em seus planos e do outro uma detetive, humana e que não consegue solucionar nenhum caso sozinha.

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O que torna o ritmo do seriado muitas vezes maçante é o modelo já conhecido e criticado de “caso da semana” pra ser solucionado. Apesar de chato, este modelo é justificável em séries com “heróis” como Arrow, The Flash, Supergirl, etc. Mas um seriado com o próprio diabo? Lúcifer ajudando a solucionar casos da polícia dos mortais? Além disso, temos a situação absurda – na tentativa de ser hilária – do Estrela da Manhã fazendo sessões de terapia, seja pra falar de Chloe ou sobre sua relação problemática com o Pai.

Já o ponto alto do seriado, que não é novidade para os fãs de Lúcifer de Gaiman, é o questionamento de dogmas religiosos, da imagem criada pelo cristianismo do Diabo e da responsabilidade que nós, humanos, temos em relação a escolha entre o bem e o mal.

Lúcifer não quer a alma de um humano. Não é possível fazer nada com ela. E ele não incita ninguém a cometer pecados. Nós somos falhos o bastante para fazer estas escolhas ruins por nós mesmos. Afinal, nós ganhamos o dom do livre arbítrio, mas projetamos nos outros (humanos ou demônios) os motivos de nossos atos perversos.

A série é uma produção do canal Fox e nos EUA teve uma audiência surpreendente no episódio piloto, e mesmo com uma queda considerável, manteve audiência razoável, equivalente a série com orçamentos muito maiores como The Flash. Falando em orçamento, percebemos que é um ponto a ser melhorado na segunda temporada (já confirmada pelo canal).

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Afinal, nesta primeira temporada não vimos o Inferno, nem o Céu, nem uma batalha decente entre anjos e demônios. Se a Fox realmente investir neste quesito, poderá libertar a série de plots dramáticos e elevá-la a um patamar mais digno de sua fonte.

Ela não veio para agradar os pouquíssimos fãs do personagem dos quadrinhos e sim para agradar o telespectador casual, mas que gosta de uma trama mais sobrenatural.

A série, como o próprio nome já diz, fala de Lúcifer, o anjo caído retratado na Bíblia do cristianismo como o Diabo. Então, se você segue os princípios da igreja católica é melhor passar longe, pois a história é exatamente para questionar algumas ideias dessa religião.

A produção foi alvo de protestos por grupos “cristãos” antes mesmo de seu lançamento, que pediram o cancelamento da série por “zombar da Bíblia, desrespeitar o cristianismo e glorificar Satã como uma pessoa carinhosa e amável de carne e osso”. Bom, se incomodou a “família tradicional cristã”, fica a dica!

Mas se você gostou da série, fica aqui a oportunidade de ler os quadrinhos de Sandman e os arcos Lúcifer, que são sempre boas pedidas.

A Estrela da Manhã está entre nós e apesar de tudo, está valendo a pena. Para falar sobre está série, tive que fazer algo muito difícil: deixar minha chatice de lado e me despir de vários preconceitos que tive desde o começo com esta adaptação. Quem leu Sandman e Lúcifer, da Vertigo, concordará comigo que estes quadrinhos são inadaptáveis. Tendo isto em vista desde o começo, é preciso assistir a série Lúcifer como se fosse algo totalmente novo, sem nenhuma ligação com a criação de Neil Gaiman. Lembram que falei AQUI sobre a proposta da série, quando liberaram o primeiro trailer?…

Lúcifer

Primeira Temporada

Nota

Ela não veio para agradar os pouquíssimos fãs do personagem dos quadrinhos e sim para agradar o telespectador casual, mas que gosta de uma trama mais sobrenatural.

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Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana. Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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