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[Crítica] Looking: O Filme

No último dia 23 de Julho, a HBO lançou o telefilme que encerra a série Looking , após duas temporadas de baixa audiência e uma enxurrada de críticas na internet.

A primeira temporada de Looking trouxe uma versão idealizada e higienizada do universo LGBT, que foi – corretamente – duramente criticada pelos telespectadores, onde o amor e o sexo comandavam a vida de nossos protagonistas Patrick (Jonathan Groff ), Agustín (Frankie J. Alvarez) e Dom (Murray Barlett). Porém, a série conseguiu trazer algumas questões mais complexas e profundas em sua segunda temporada, que infelizmente poucos acompanharam.

O filme lançado em final de semana do maior evento nerd do planeta, a San Diego Comic Con, tenta em um pouco mais de 1h30 “encerrar” a história do trio de amigos e dar um desfecho para a “busca” constante por um relacionamento feliz, porém a sensação de que falta algo é inegável.

Patrick está de volta à São Francisco após quase um ano, para o casamento de Agustín e Eddie (Daniel Franzese). Claro que Paddy irá também tentar resolver as questões que ficaram sem solução com Kevin (Russell Tovey) e Richie (Raul Castillo). O protagonista, designer de videogames, está mais maduro e com algumas questões emocionais que parecem melhores resolvidas, mas que ainda necessita virar a página para seguir em frente.

O filme traz praticamente todos os personagens das duas temporadas, como Doris (a cativante Lauren Weedman), Frank (O. T. Fagbenle) e Brady (Chris Perfetti), porém o filme possui um único intuito: definir a vida do protagonista, Patrick.

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Esse pode ser um dos grandes problemas do filme, afinal tivemos 18 episódios para o triangulo amoroso entre Patrick, Richie e Kevin, e o filme pouco foge desta temática. A sensação que fica é de que o personagem só será feliz, só se sentirá realizado, caso decida qual é o grande amor de sua vida. Praticamente como um final de novela da Globo. Outras questões, como a mudança de Agustín para algo que ele sempre criticou e Dom finalmente realizar seu sonho profissional, parecem mais genuínos e que talvez trouxessem mais emoção neste último suspiro de Looking. Porém, sabemos que é um filme de curta duração, onde muitas coisas não poderiam ser desenvolvidas e aprofundadas.

A conversa entre Agustín e Patrick sobre terem se tornado tudo aquilo que rechaçaram na juventude, mostra que a história poderia ter sido abordada por outros ângulos e talvez superado o clichê “com quem será que ele vai ficar no final?”.

Mesmo com uma atmosfera de despedida, o filme traz algumas questões contemporâneas e familiares a muitos de nós. Aliás, este é um crédito que não podemos tirar de Looking: produzir, ainda que de forma sutil, reflexões sobre alguns temas importantes para a comunidade LGBT, que escapam do clichê de produções voltadas para nós.

Se observarmos filmes como Free Fall , 4th Man Out , O Segredo de Brokeback Mountain e até mesmo a série Sense8 , ainda resumem o universo dos LGBTs a tão “temida” saída do armário. A vida de um LGBT vai muito mais além do que isso. Temos sonhos profissionais, dificuldades no relacionamento familiar, desejo sexual, dúvidas sobre o futuro, etc. Looking acaba indo um pouco mais além e mostrando um pouco desse universo.

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Looking também trouxe personagens palpáveis, como Patrick que é tão irritante quanto indeciso. Agustín, meu preferido, é outro personagem que se parece tanto com uma pessoa real, que nos incomoda. Personagens que cometem erros, caem em contradições, possuem dificuldade de manter um relacionamento e com futuros incertos, provocam em nós aquilo que tentamos negar veementemente. Será que isso gerou a aversão do público?

Outra marca que Looking deixou foi a de mostrar como muitos gays buscam se encaixar no padrão convencional da sociedade. Somos ensinados que precisamos encontrar o amor de nossas vidas, casar e viver um relacionamento monogâmico, para assim atingirmos a felicidade plena. No final, Looking mostra que muitos gays buscam isso, mesmo que a vida real prove que essa idealização não seja algo atingível.

Se pudesse eleger a cena mais importante de Looking: O Filme escolheria a conversa entre Patrick e Kevin. Algumas coisas neste diálogo são tudo aquilo que gostaríamos de dizer ao protagonista, mas que muitos de nós também deveríamos ouvir alguma vez na vida. Jonathan Groff entrega um de seus melhore momentos na pele de Patrick.

A série foi muito criticada pelos espectadores e LGBTs (não necessariamente as mesmas pessoas, muitos criticaram sem acompanhar a série) por retratar a comunidade de forma higienizada (leia-se, Homem-Gay-Cis-Branco-Sarado), excluindo a diversidade que tentava representar. Estas críticas são válidas e importantes, afinal representatividade LGBT não se resume somente ao mundo de homens gays cis, porém o fim da série por este motivo levanta outras questões.

Queer As Folk, Sense8, Will & Grace, The New Normal e tantas outras séries com personagens gays  também reproduzem estereótipos que não representam a comunidade LGBT em sua totalidade. Nenhuma produção conseguirá cumprir este papel. Afinal, são produções fictícias e produzidas por pessoas que possuem sua própria experiência de vida. Porém, o excesso de críticas a Looking me faz pensar se há tantas coisas erradas assim nesta série.

Uma série que suscitou tantos questionamentos e críticas poderia ter recebido mais espaço para ampliar a representação tão escassa do universo LGBT. Afinal, uma série que mostra uma parcela do universo LGBT é melhor do que série nenhuma. Caso Looking continuasse no ar, haveria muito espaço para que os produtores executivos da série, David Marshall Grant, Sarah Condon e Andrew Haigh (responsável pelo ótimo Weekend), trabalhassem em cima das críticas, como fizeram em uma cena do filme onde Brady diz a Patrick que ele é tudo que existe de pior na comunidade gay.

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Aparentemente, Looking ouviu as críticas de seus espectadores e trouxeram-nas para a série e o filme, talvez tardiamente, mas conseguiram mostrar um personagem que vive com HIV (e saudável e sem um fim trágico), um personagem latino (e a convivência da comunidade latina com a homossexualidade), o “temido” relacionamento aberto e a velhice no “meio” gay.

 Apesar de tocar em temas polêmicos de forma inteligente, fez isso de uma forma mais moderada e por isso foi apelidada por alguns espectadores como Boring. Looking: O Filme não foge desta mesma fórmula, questionando a idealização romântica do personagem principal, mas sem causar nenhuma surpresa ou chocar os fãs no final.

O fim de Looking é uma perda para nós, fãs, e nos mostra que precisamos aprender a questionar e criticar as produções que se propõem a representar a comunidade LGBT (e a própria comunidade), mas também precisamos entender que criticar não é o mesmo que apoiar o fim destas produções. Já existe muita gente que que torce pelo o fim da representatividade LGBT em séries e filmes (leia-se: homofóbicos, religiosos, etc), talvez não precisássemos ampliar este coro. Uma série a menos para nós.

No último dia 23 de Julho, a HBO lançou o telefilme que encerra a série Looking , após duas temporadas de baixa audiência e uma enxurrada de críticas na internet. A primeira temporada de Looking trouxe uma versão idealizada e higienizada do universo LGBT, que foi – corretamente – duramente criticada pelos telespectadores, onde o amor e o sexo comandavam a vida de nossos protagonistas Patrick (Jonathan Groff ), Agustín (Frankie J. Alvarez) e Dom (Murray Barlett). Porém, a série conseguiu trazer algumas questões mais complexas e profundas em sua segunda temporada, que infelizmente poucos acompanharam. O filme lançado em…

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Nota

O fim de Looking é uma perda para nós, fãs, e nos mostra que precisamos aprender a questionar e criticar as produções que se propõem a representar a comunidade LGBT (e a própria comunidade), mas também precisamos entender que criticar não é o mesmo que apoiar o fim destas produções.

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Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana. Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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