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[Crítica] Orange is the New Black 4.12 – The Animals

Devastador.

Existem poucos episódios em séries que realmente mexem com o imaginário do telespectador como The Animals. O décimo segundo episódio de Orange is the New Black, o penúltimo da quarta temporada, mostrou exatamente o que é sofrimento e como realmente deve ser construído um momento devastador e emocionante, em proporções iguais. 

O que a série almejou construir foi todo o cenário necessário para que a morte da personagem fosse altamente revoltante, mas ao mesmo tempo justificável se pararmos para analisar seu caminho dentro do quarto ano. O romance com Soso, a falta de conflito, sua participação marcante, mas sem nenhum tipo de valor para a trama recorrente. Existiu uma maneira de dar a Poussey o máximo de tempo em tela possível, com um toque de irrelevância, o suficiente para nos fazer gostar e torcer. E também mais do que suficiente para deixar tudo tão doloroso. 

Foi um momento de dor muito grande, um momento em que ver Poussey lutando para respirar criou uma mistura de sensações que flutuaram da agonia para a raiva, finalizando com a extrema dor. Neste momento o mais comum é canalizar a raiva em cima do vilão, mas o roteiro de Lauren Morelli contou exatamente o tipo de história necessária para colocar Bayley como um rapaz inocente. A dor maior vem por não termos qualquer tipo de gancho para desenvolver ódio e por compreender como tudo não passou realmente de um acidente. O que a série fez, na verdade, foi utilizar uma história conhecida, adaptando-a em algo dramático o suficiente para nos fazer refletir sobre um período sombrio de nossa história recente. 

A direção de Matthew Weiner tratou exatamente de maneira adequada a sensação que o próprio guarda experimentou durante a imobilização de Poussey. Perdido e sem qualquer noção do ambiente ao seu redor, Bayley não teve qualquer controle sobre a força utilizada. Contudo ele errou e assim como tantas outras mulheres que erraram e atualmente estão cumprindo sua pena em Litchfield, ele também precisará pagar por seus crimes. Só que dificilmente um guarda em uma prisão, branco e de família média sofrerá da mesma maneira que um homem em igual situação, mas negro, latino ou árabe. E é neste ponto que a crítica feita pela série deverá nos levar mais uma vez para outro tipo de reflexão, aquela utilizada desde que a temporada começou. 

O impacto é grande, afinal Poussey nunca foi uma vilã, ou teve qualquer atitude antagonista classificada como nociva para o ambiente em que estava. Ao contrário, vimos sua honra e amizade florescer em meio a bagunça causada por Vee, sua superação da depressão e o namoro com Soso. Não existe simplicidade, apenas o luto. Samira Wiley interpretou sua personagem da maneira mais doce, carismática e calorosa possível. Traços que apenas deixam bem mais difícil aceitar a sua partida. Mesmo que estejamos discutindo uma série, é notável como o impacto emocional causado por Orange se assemelha aquele que vivemos aqui, no mundo real. Em uma produção que acompanha com altas doses de humor a vida de várias mulheres diferentes, conseguir se emocionar e sentir a dor da perda é algo memorável e digno de muitas premiações. 

Orange

Existem também outras maneiras de se ler o que aconteceu em The Animals, especialmente quando analisamos o movimento Black Lives Matter. O que a série fez foi criar um evento acidental para desestruturar o habitat de Litchfield, mas de uma maneira que não infere o principal tema tratado até aqui, o não reconhecimento da humanidade. 

E agora vamos entrar um pouco na história de Eric Garner, morto em 2014 por um policial em Nova York. Garner foi colocado em um estrangulamento similar ao que aconteceu na série, com a personagem de Wiley, por cerca de 15 – 19 segundos. Contudo, diferente do que foi mostrado na série, em uma cena certamente gerada por um evento acidental, Garner foi morto por causa de uma suspeita atrelada a cor de sua pele, por seu perfil. Acusado de estar vendendo cigarros e cansado de ser abordado, Eric respondeu para o policial, que deu voz de prisão e tentou imobilizá-lo. Após ficar inconsciente ele simplesmente foi virado e por sete minutos ficou no chão, sem que ninguém tentasse técnicas de massagem cardíaca e respiração boca-boca. O erro, a ignorância e o preconceito mataram Eric Garner. 

Diferente da morte trágica do homem real, a de Poussey foi carregada por uma característica menos revoltante. Foi um acidente. É uma leitura problematizadora em cima de uma série sem nenhuma mulher negra em seu grupo de roteiristas. É mais problemático quando nos lembramos que durante doze episódios o texto tratou por trabalhar o perfilamento de mulheres negras e latinas, além da maneira desumana que cada uma foi tratada, com batidas, machismo e muita misoginia. 

Compreendo que a série tenha escolhido Poussey e Bayley como uma maneira de deixar tudo mais sentimental e inaceitável. A vida na prisão muda você, mas ela não mudou Poussey ou Bayley, foi um acidente. E este acidente frente a tudo o que vimos diminuiu um pouco a relevância do Black Lives Matter que fomos guiados durante tanto tempo e construção de personagens. É algo que poderá mudar no último episódio, claro, mas o que vimos aqui não conseguiu transparecer esta preocupação. O que é uma pena. Talvez você não veja da mesma forma que eu, mas não consigo deixar de lado este aspecto tão marcante em uma série que buscou elevar a discussão em cima destes pontos citados anteriormente. Ninguém teve culpa, e isso é como colocar sal na ferida. 

Ver as detentas se levantando contra a administração do presídio e o abuso dos guardas foi um momento muito aguardado e extremamente satisfatório. O resultado não foi bom, mas com certeza agora os ânimos estão dentro do limite requisitado para o último episódio do ano. A panela de pressão está no fogo, e prestes a explodir. 

Observações

– Outros temas foram desenvolvidos durante o episódio, mas em menor escala de importância. Entre eles a confirmação de que Morello tem algum tipo de desvio de personalidade.

– Alex e Piper fizeram as pazes. Falaram de coisa nenhuma, mas tivemos algo muito bom vindo da Piper. Mesmo sendo um homem gay, e achando sua frase extremamente homofóbica, não consegui não ficar feliz por ver Piscatella sendo confrontado diretamente.

– Healy na ala psiquiátrica é um tipo de justiça. E eu aceito de bom grado.

Tragam a Fig de volta. A única personagem com ar de vilã, mas sensata ao ponto de colocar Caputo dentro do eixo. 

Eu chorei. Eu chorei muito. 

Devastador. Existem poucos episódios em séries que realmente mexem com o imaginário do telespectador como The Animals. O décimo segundo episódio de Orange is the New Black, o penúltimo da quarta temporada, mostrou exatamente o que é sofrimento e como realmente deve ser construído um momento devastador e emocionante, em proporções iguais.  O que a série almejou construir foi todo o cenário necessário para que a morte da personagem fosse altamente revoltante, mas ao mesmo tempo justificável se pararmos para analisar seu caminho dentro do quarto ano. O romance com Soso, a falta de conflito, sua participação marcante, mas sem nenhum tipo de…

Orange is the New Black

The Animals

Nota

Devastador. Enfurecedor. Um episódio sem culpados, mas mesmo assim cheio de culpados pelo ambiente hostil que Litchfield se tornou.

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Sobre Diego Antunes

Fundador do site, também colabora com postagens para o Série Maníacos com reviews de séries. Nutre um amor incondicional pela Marvel e é leitor ferrenho dos quadrinhos da casa das idéias desde os 12 anos de idade.

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  • Michel Furquim

    O mais “legal” desta temporada são cutucões que a série deu em todos nós: uma pessoa “boa” pode cometer um crime, um homem Gay pode ser tão machista quanto um hétero, na tentativa de acabar com gangues gerar mais gangues, etc.
    Acho que foi a melhor temporada de OITNB até agora com tantas críticas e reflexões.
    Não chorei pela Poussey, mas senti e revivi a impotência diante da violência de quem deveria nos proteger.
    Ótima crítica.