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[Crítica] Preacher – Primeira Temporada

Preacher é boa? A resposta é simples: assista.

Vertigo é um símbolo inquestionável de qualidade. O selo adulto da DC Comics, responsável por trazer ao mundo obras épicas como Sandman, O Monstro do Pântano, Homem-Animal e Lúcifer, sempre trouxe histórias com um tom mais violento, (por que não?) filosófica e com uma imensa liberdade criativa.

Essa liberdade permitiu que Garth Ennis e Steve Dillon criassem a história do pastor Jesse Custer, que se tornaria o receptáculo de uma entidade divina/demoníaca dando-lhe o poder de quebrar a lei mais antiga da humanidade: o livre-arbítrio. A história é uma extensão de uma ideia que Ennis e Dillon tiveram muitos anos antes, quando trabalharam em um arco de Hellblazer (Constantine). A história, publicada em 1995, rendeu 66 edições, 1 minissérie e 5 capítulos independentes (666), e se tornou aclamada entre os fãs de histórias em quadrinhos.

Por indicação de um grande amigo, adquiri os primeiros encadernados de Preacher, publicados no Brasil pela Panini. A HQ possui uma história com trações realistas e diversas polêmicas: um descendente de Jesus que produz filmes pornográficos, zoofilia (e muitas outras parafilias), violência exagerada (muita, muita mesmo), escatologia, são alguns dos exemplos. Minha reação em relação a história não foi a das melhores.

Por este motivo, torci o nariz quando soube que a HQ seria adaptada para uma série de TV, desenvolvida por Evan Goldberg, Seth “Bear” Rogen (“Vizinhos”, “É o fim” e “A Entrevista”) e Sam Catlin (de “Breaking Bad”) para o canal à cabo AMC. Mas tive uma grata surpresa. A série se baseia nos quadrinhos, porém não traz tanta escatologia e violência.

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Preacher conta a história de Jesse (Dominic Cooper, da série “Agent Carter”), um pastor que é atingido por Gênese, uma entidade sobrenatural que lhe confere a capacidade de ser obedecido por todos, mas também o torna alvo de enviados do Céu. Em busca de respostas, Jesse se junta ao vampiro bêbado Cassidy (Joseph Gilgun, da série “Misfits”) e a sua ex-namorada pistoleira Tulipa (Ruth Negga, da série “Agents of Shield”, que está simplesmente sensacional em Preacher). Ao longo da primeira temporada, conhecemos outros personagens como Eugene/Arseface (o lindo Ian Colletti), Emily (Lucy Griffiths), os anjos Fiore (Tom Brooke) e DeBlanc (Anatol Yusef), Quinncannon (Jackie Earle Haley, o eterno Rorschach) e o xerife Root (William Earl Brown).

Preacher não possui tanta violência como nos quadrinhos, mas isso não quer dizer que não haja (muito) sangue, membros amputados e quase mortes. Há muita violência e ação, porém distribuídas de forma mais comedida, dando espaço para o desenvolvimento dos personagens e da trama. Algumas cenas de ação até lembram filmes de Quentin Tarantino e também de Sergio Leone, frenéticas e com pessoas que parecem bolsas de sangue ambulantes.

Apesar da série manter um ritmo um pouco mais lento em alguns episódios, possui outros momentos alucinantes, como na introdução de Tulipa no episódio piloto, assim como no episódio 6, em uma sequência de ação memorável (que lembra até Kingsman), com referências assumidas a Pulp Fiction e no episódio 9 ao conhecermos, literalmente, o inferno.

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A fotografia da série é belíssima, com cenas e sets que reproduzem várias cenas da HQ, para agradar os fãs da obra original. A trilha sonora é outro ponto alto de Preacher. Apesar de serem muito populares no Brasil, a música country aparece em quase todos os episódios, como Willie Nelson , Johnny Cash , Blood, Sweat & Tears , que completa a atmosfera “texana”, já transmitida também com cenas em tons pastéis para deixar tudo mais “árido”. Fora as canções que acompanham algumas cenas, como o cover de No Rain da season finale, que deixa a cena ainda mais tragicômica.

Como já disse aqui, o ritmo em alguns episódios é um dos pontos negativos do seriado, que foi bastante criticado desde o episódio piloto, fazendo com que muitos espectadores desistissem de acompanhar a história. O fato é que com 10 episódios, muitos plots foram introduzidos para “segurar” a história até seu final (leia-se, encher linguiça), porém isso pesou contra a trama principal de Preacher.

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Um dos pontos altos da série, herdada da história quadrinho, é a crítica à religião e a fé abraçadas pela sociedade para esconder falsas moralidades e discurso hipócritas.  Preacher mostra como muitos seguem religiões ou líderes religiosos não por fé, mas por medo da punição. Através dos protagonistas também é feita a reflexão sobre o passado e como ele pode ou não definir quem você se tornará. Preacher também mostra que a humanidade se mantem civilizada, apenas pela pequena possibilidade de estar sendo observada por algum ser maior e que cobrará seus atos algum dia. Mas e se soubéssemos que nossos atos jamais serão julgados, nossa moralidade e a humanidade ainda estariam de pé?

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A série é do Pastor Jesse, mas quem carrega mantém a série mais interessante é Cassidy e Tulipa. O vampiro é a parte cômica da trama, ao mesmo tempo em que traz um personagem com mais bom senso e estabilidade que todos os outros. As centenas de anos que fizeram isso? Ruth Negga é uma grande surpresa na série. Uma Tulipa passional, mas ao mesmo tempo destemida e (muito) violenta, capaz de tornar qualquer cena muito mais divertida com um simples revirar de olhos ou seu sotaque “caipira”. Praticamente nenhum personagem sai ileso de um encontro com Tulipa, fisicamente ou emocionalmente.

A primeira temporada de Preacher encarou a difícil tarefa de competir com a audiência de domingo a noite, batendo de frente com a poderosa Game Of Thrones, mesmo assim conseguiu se manter e conquistar a aprovação para uma segunda temporada. Podemos dizer que a série consegue ampliar o universo de Preacher, sem desagradar aqueles que já são fãs da obra da Vertigo. Vamos torcer que a segunda temporada venha com ainda mais força e não deixe nosso Pastor cair no purgatório das séries.

Preacher é boa? A resposta é simples: assista. Vertigo é um símbolo inquestionável de qualidade. O selo adulto da DC Comics, responsável por trazer ao mundo obras épicas como Sandman, O Monstro do Pântano, Homem-Animal e Lúcifer, sempre trouxe histórias com um tom mais violento, (por que não?) filosófica e com uma imensa liberdade criativa. Essa liberdade permitiu que Garth Ennis e Steve Dillon criassem a história do pastor Jesse Custer, que se tornaria o receptáculo de uma entidade divina/demoníaca dando-lhe o poder de quebrar a lei mais antiga da humanidade: o livre-arbítrio. A história é uma extensão de uma…

Preacher

Primeira Temporada

Nota

Podemos dizer que a série consegue ampliar o universo de Preacher, sem desagradar aqueles que já são fãs da obra da Vertigo.

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Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana. Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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  • Vou ser honesto, não gostei de como a série começou. Um dos meus maiores problemas com Preacher foi a maneira genérica que ela firmou sua identidade até, mais ou menos, o episódio em que o serafim aparece e o banho de sangue no hotel começa. Foi nesse momento que a série parou de tentar ser uma mistura pé no chão de um clássico cult para se transformar em algo único. Tanto é que, a frase que mais me pegou foi entre a conversa dos “anjos”: “Mas e as minhas revistas em quadrinhos?”, e a resposta “Você vai ter que deixar elas para trás”. Foi uma mensagem bem clara da série, passando finalmente que ela não seria como a HQ e isso é ótimo. Até então para mim Preacher não passava de uma produção tentando se encontrar, algo que toda série passa, mas que pela quantidade reduzida de episódios, não compreendi – assim como a audiência. Hoje e graças aos dois últimos capítulos, já posso dizer que volto para a segunda temporada. E se continuar como El Valero, Finish the Song e Call and Response, vamos poder dividir figurinhas e elogiar muito essa belezinha.

    Parabéns pela crítica, Michel. E que venha a segunda temporada.