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Diários de um Nerd|LGBTfobia em eventos nerds

Há muito tempo atrás, em uma galáxia muito, muito distante, ser nerd era considerado um insulto. Aquele que não conseguia se encaixar nos grupos ditos “populares” era excluído, ou considerado perdedor. O tempo passou e o conceito do termo se dissolveu.

Com a popularização das obras consumidas por este grupo, hoje ser nerd é fazer parte da cultura POP. Ser nerd é ser cool. Porém, todos nós estamos inseridos em uma sociedade sexista, LGBTfóbica e viriarcal, por isso até mesmo os nerds não escapam de serem preconceituosos com outros grupos.

É possível perceber estes preconceitos quando algum personagem das histórias em quadrinhos é reformulado “ganhando” uma etnia, gênero ou sexualidade diferente, e seus “fãs” surtam nas redes sociais; quando vemos ataques e assédios contra meninas que participam de jogos online; críticas e repulsa contra personagens em filmes e séries que não se enquadram em padrões normativos de “beleza”; e assédio e preconceito em “eventos nerds”.

Eventos para o público nerd são espaços que, teoricamente, reúnem pessoas que possuem interesses em comum e por este motivo deveria ser um local onde todos se sentissem acolhidos e pertencentes, afinal você está com a “sua tribo”. Mas na prática é um pouco diferente.

Eventos voltados para os nerds, geeks e otakus possuem um público preponderantemente masculino e heterossexual. Mulheres e LGBTs ainda não são a maioria nestes espaços, porém estão participando e se mostrando cada vez mais nestes eventos, e é aqui que as coisas começam a mudar. Já há campanhas em páginas de redes sociais para coibir ao assédio a meninas cosplayers, e isso é fantástico. Porém, o público LGBT frequentador destes eventos ainda é “invisível” perante os organizadores.

Desde que comecei a participar destes tipos de eventos, – 2001, na finada AnimeCon, em São Paulo – sempre senti um misto de pertencimento e exclusão. Me sentia bem por estar em um espaço e encontrar pessoas que possuíam os mesmos interesses que os meus, mas ao mesmo tempo me sentia sozinho por estar rodeado de pessoas machistas e preconceituosas.

Nesta época, estes eventos possuíam Salas Yaoi/Yuri, uma sala temática frequentada em sua grande maioria por nerds e otakus LGBTs. Era um espaço a parte em eventos, onde era possível conhecer pessoas e produções que não eram voltadas para o público “macho”. Claro que entrar em uma sala dessa era ter a certeza de ser hostilizado pelos frequentadores homofóbicos do evento, sem nenhuma preocupação da empresa organizadora. As salas Yaoi/Yuri (Shonen-Ai/Shoujo-Ai) ainda existem, mas não são tão “visadas” e atacadas como antigamente.

O mundo evoluiu um pouco, porém o preconceito no meio nerd/otaku/geek ainda vive. Pude presenciar uma prova disso na Anime Friends 2016, onde alguns casais gays lindamente andaram de mãos dadas durante o evento – algo inimaginável há 10 anos atrás – tornando-os alvos de risos e piadinhas por parte de outros participantes do evento. No estande do jogo Just Dance, por exemplo, meninos que dançavam músicas de cantoras pop também eram alvos de olhares maliciosos, piadas e termos lgbtfóbicos.

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Na CCXP de 2015, comportamentos semelhantes foram percebidos como cosplayers gender-benders sendo alvo de chacotas, casais assumidamente gays recebendo olhares nítidos de reprovação e piadas LGBTfóbicas, como em qualquer outro lugar da nossa sociedade.

Não só observei como também fui alvo destes tipos de preconceitos. Se há 15 anos atrás meu receio de informar seguranças e organizadores me impediram de coibir tais comportamentos, nos eventos atuais minhas reações são diferentes. Não tenho problemas em andar de mãos dadas com meu namorado nestes espaços e informar a organização do evento caso sofra quaisquer tipos de “piadas” e insultos.

Até o momento não tive conhecimento de nenhum caso de violência física contra pessoas LGBTs nestes eventos, – o que não significa que não possa ter acontecido – porém o preconceito e a LGBTfobia não estão apenas em violências físicas, mas também em insultos, piadas, representações caricaturais que ridicularizam e tratam aqueles que não são heterossexuais, ou que transgridem as normas de gênero, como objetos de escárnio.

Estas atitudes ocorrem mediante a condição de atribuir uma posição marginal e silenciosa aos LGBTs, ou seja, tornando a presença destes algo inaceitável e suas representações como algo ameaçador. Este tipo de preconceito não é exercido por todos, mas é algo consensual e banal, uma vez que aqueles que não o cometem também não se chocam. Por isso, quando comentamos sobre este tema com pessoas heterossexuais que participam dos eventos, muitas acreditam que isto seja apenas mais um “mimimi” ou que nunca presenciaram tais atitudes.

Eventos nerds continua crescendo no Brasil e se tonando cada vez mais lucrativos. Estes espaços estão sendo tomados cada vez mais por tribos diversas e a cada ano podemos perceber o aumento da participação do público feminino e de LGBTs assumidos, porém ainda faltam uma maior atenção dos organizadores para estes tipos de comportamentos que ferem e afastam pessoas.

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O intuito de abordar este tema não é fazer com que pessoas LGBTs desconsiderem participar de eventos nerds. Pelo contrário. Temer jamais. O objetivo é para que LGBTs que participam destes eventos não tenham medo de denunciar tais atitudes, não tenham medo de cobrar dos organizadores destes eventos uma atitude caso se sinta assediado, constrangido ou discriminado, não tenham medo de ocupar estes espaços. Não tenham medo de andar de mãos dadas com seus parceirxs ou fazer cosplays de qualquer personagem que seja, por medo de discriminações.

Somos nerds, gays, otakus, lésbicas, trans, geeks e exigimos respeito não apenas no momento da compra do ingresso.

Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana. Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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  • George França

    Perfeito texto.

  • Excelente texto e trás uma boa discussão sobre a importância do respeito ao próximo. Apesar de saber que nesses eventos sempre existem públicos bem variados eu não consigo estar a vontade com meu namorado, por justamente evitar quaisquer tipos de agressões, sejam elas verbais ou mais inadmissível ainda as agressões físicas. E ver qualquer tipo de preconceito dentro da própria comunidade que já sofre com preconceito é muito triste.