Crítica|King Cobra

 

Vou confessar que quando soube das primeiras notícias sobre um filme “biográfico” do pornstar Brent Corrigan (também conhecido como Sean Paul Lockhart, também conhecido como Fox Ryder) torci o nariz. Afinal, seus primeiros trabalhos são de 2006 e Brent hoje está com apenas 30 anos de idade (pouca coisa pra uma biografia interessante, convenhamos). Porém, mais tarde ficamos sabendo que o filme seria baseado na história real do assassinato de Bryan Kocis, o fundador do site gay Cobra Video – um estúdio de pornografia gay – que trouxe fama ao jovem Brent Corrigan.

Apesar do título ser referência ao produtor do Cobra Video, o protagonista do filme é Sean (Garrett Clayton), um jovem que deseja estrelato e um dia estudar cinema. Sean conhece Stephen (Christian Slater), um homem de meia idade, que ganha a vida fazendo vídeos de jovens garotos masturbando-se para seu website Cobra Video.

Para ganhar dinheiro, Sean aceita fazer um vídeo para o rei Cobra com o alter ego de Brent Corrigan. Com o sucesso alcançado na web, Stephen convence Brent a fazer cenas de sexo com outros rapazes para seu site. Rapidamente, o nome Brent Corrigan se torna um sucesso, gerando muito dinheiro (não para todos os envolvidos) e fama para o jovem twink.

A fama de Brent como pornstar chama a atenção de Harlow (Keegan Allen) e seu companheiro Joe (James Franco). Joe também é um produtor de filmes pornôs gay, dono do site Viper Boyz. O site é mantido pelo sucesso do jovem Harlow. Sucesso que fica estremecido com o surgimento do twink, Brent.

Joe (Franco) é um cara mais velho e que possui uma carreira decadente, que ainda se mantem graças ao companheiro Harlow (Allen). Harlow era abusado quando criança pelo padrasto e foi expulso de casa quando se assumiu gay, e conhece Joe, um homem muito mais velho, impulsivo e paranóico, iniciando assim um namoro doentio e fervoroso. Na vida real, Harlow era muito mais novo do que aparenta no filme e Joe muito mais velho, ficando muito mais óbvia a grande diferença de idade entre os dois.

Brent decide seguir seus próprios passos, sem as rédeas do rei Cobra, mas descobre que seu nome artístico é propriedade do Cobra Video, fazendo com que este se mantenha preso a Stephen, e recorrendo ao casal do Viper Boyz. O casal de produtores, endividados, veem em Corrigan uma chance de pagar as dívidas e alavancar o site e farão o que for necessário para que isto dê aconteça.

O filme foi muito comentado antes mesmo de seu lançamento, graças aos trailers insinuando cenas quentes de sexo. Quem assistir este filme achando que é um pornô ou erótico, vai cair do cavalo. O filme poderia ser considerado mais um drama do que qualquer outra coisa, o que vai espantar (a maioria) aqueles que gostariam de ver um filme com muita pegação.

Apesar de toda a propaganda, uma ótima premissa e um elenco de alta qualidade, o filme não consegue entregar um resultado agradável. O pouco desenvolvimento dos personagens e suas histórias talvez seja o que transformou o filme em algo nada interessante. Com vários conflitos passionais (os 4 personagens principais), uma história de abandono (Sean), uma história de abuso (Harlow), pedofilia (Stephen) e tantos outros assuntos deixados de lado, o filme parece algo superficial e com a tentativa de não sofrer um processo expor nenhuma das pessoas retratadas.

A relação de poder entre Stephen x Sean e Joe x Harlow, se fosse o foco do filme talvez tornasse o filme algo mais valioso. Aliás, essa é um dos temas mais legais que podemos tirar como reflexão do filme (apesar de não ser abordado de forma explícita), a relação entre homens mais velhos e os mais jovens.

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O abandono familiar é algo comum quando um jovem se assume homossexual (ou quando não é mais possível esconder sua sexualidade), seja com a expulsão de casa ou com o total desinteresse da vida afetiva/sexual do (a) filho (a). Isso faz com que qualquer cuidado ou atenção fornecida por alguém de fora, seja sentido como um porto seguro, abrindo espaços para muitos homens mais velhos (abusadores ou não) se aproveitarem de jovens fragilizados emocionalmente. Assim temos vários homens se relacionando com jovens com metade de sua idade, mantendo-os refém através de chantagens financeiras e/ou emocionais.

Por isso, é sempre bom lembrar que amor tem idade, sim. E que a homofobia dentro de casa é a principal causa de abusos fora dela.

Voltando ao filme, Christian Slater (Mr. Robot) é uma das melhores coisas do filme, interpretando de forma excepcional um homem “discreto fora-do-meio”, com uma imagem tranquila e socialmente aceita, mas às escondidas um produtor de vídeos pornográficos de jovens meninos. Algo muito comum em nossa sociedade.

Keegan Allen (Pretty Little Liars) também está ótimo como um jovem traumatizado e submisso, além de possuir uma ótima química (!) com Franco. Dos quatro atores principais, Allen foi o que mais me impressionou, saindo de um programa adolescente que exigia pouco de atuação para um filme que mostrou outras faces (e partes) do ator.

Garrett Clayton (que já fez uma participação em The Real O’Neals, apesar de protagonista, não é nenhuma surpresa, sendo escolhido simplesmente pela sua beleza e semelhança com o Brent da vida real. O ator não é totalmente culpado por não se sobressair no filme, uma vez que o roteiro não colabora para  deixar claro as intenções de Brent e aprofundar sua história de vida.

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É interessante notar os rumos que a carreira de James Franco tomou nos últimos anos, participando de filmes que abordam o universo LGBT, como o premiado Milk, o mediano Interior. Leather Bar., o polêmico I am Michael e agora King Cobra. Todos os filmes independentes que apresentam o nome de Franco na produção já são sinalizados como polêmicos e, para alguns, como cult. Apesar de um pouco exageradas suas atuações, legal ver um homem hétero (pelo menos é assim que ele se assumiu até agora) participar de tantas produções voltadas para o público LGBT.

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O Brent Corrigan da vida real declarou em suas redes sociais que a história contada no filme não é verídica e que é uma história inventada pelos produtores. Brent foi convidado para interpretar a si mesmo em King Cobra, porém recusou o papel. O ex-ator pornô (adoro esse “título”) informou que irá escrever um livro para ganhar dinheiro contar como realmente tudo aconteceu.

King Cobra não atingiu todo o potencial que poderia ter alcançado com uma boa premissa nas mãos, além de trazer mais um filme com homens, brancos, cis, dentro do padrão heteronormativo. Mas é uma produção independente e fora do mainstream, que pode suscitar alguns questionamentos (mesmo que sem querer) e por isso, não é uma total perda de tempo.

  Vou confessar que quando soube das primeiras notícias sobre um filme “biográfico” do pornstar Brent Corrigan (também conhecido como Sean Paul Lockhart, também conhecido como Fox Ryder) torci o nariz. Afinal, seus primeiros trabalhos são de 2006 e Brent hoje está com apenas 30 anos de idade (pouca coisa pra uma biografia interessante, convenhamos). Porém, mais tarde ficamos sabendo que o filme seria baseado na história real do assassinato de Bryan Kocis, o fundador do site gay Cobra Video – um estúdio de pornografia gay – que trouxe fama ao jovem Brent Corrigan. Apesar do título ser referência ao…

King Cobra

Filme

Nota

King Cobra não atingiu todo o potencial que poderia ter alcançado com uma boa premissa nas mãos, além de trazer mais um filme com homens, brancos, cis, dentro do padrão heteronormativo. Mas é uma produção independente e fora do mainstream, que pode suscitar alguns questionamentos (mesmo que sem querer) e por isso, não é uma total perda de tempo.

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Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana. Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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  • Hugo Murilo

    Ex-ator pornô? Acabei de ver a cena mais recente dele, lançada a umas duas semanas ;P

    • Michel Furquim

      Por isso disse que acho engraçado esse título que ele usa de “ex-ator pornô”. Ele se diz agora diretor e produtor apenas, mas… rsrsrs

  • Márnei Consul

    Seja bondoso, o filme é legal: mostra a indústria pornô e ainda desenterra a “Patricinha”, fazendo papel de mãe.

    • Eduardo

      E Molly Ringwald, a eterna “Garota de Rosa Shocking”, como a irmã de Bryan “Stephen” Kocis.
      Curiosamente, achei Keegan Allen o mais natural de todos, convincente nos poucos momentos dramáticos.
      James Franco fazendo “franquices”, mas (in)felizmente, se não é a sua iniciativa e apoio à causa LGBT, filmes como este nunca sairiam do papel.

      Agora, quem iria imaginar Christian Slater como um p… sugar daddy, meu Deus!!! =D