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Diários de um Nerd|Leiga, o Rei Karla

 

Cavaleiros do Zodíaco (Saint Seiya, no original) foi uma das grandes febres mundiais dos animes e consequentemente gerou vários “sucessores”, que pegaram carona no sucesso de jovens guerreiros vestindo armaduras e lutando contra o mal.

Assim tivemos alguns MUITO parecidos, como Samurai Troopers (no Brasil traduzido como Samurai Warriors) e Shurato (no Brasil ficou como S – H – U – R – A – T – Ó, Shuratô!), e outros que foram um pouco mais além, como Beast Warriors Gulkeeva e Guerreiras Mágicas de Rayearth.

Dentre estes citados, o mais parecido com CDZ sem dúvida é Shurato. As semelhanças são gritantes e isso garantiu ao Rei Shura e seus amigos uma grande popularidade, principalmente aqui no Brasil, entre o público que assistia anime na finada TV Manchete, além de uma abertura inesquecível.

Shurato contava a história de dois amigos de infância, Shurato Hidaka e Gai Kuroki, que são TRANSmigrados para o Mundo Celestial, um mundo paralelo baseado nas mitologias budista e hinduísta, mantido pela deusa Vishnu. Shurato e Gai foram trazidos para este novo mundo para assumirem seus lugares entre os Oito Guardiões Divinos do Povo de Deva, que são protegidos por seus shaktis (armaduras) representados por seres mitológicos. Porém, Gai sofre uma lavagem cerebral ao chegar neste novo mundo, e Shurato precisa enfrentar seu velho amigo e provar sua inocência numa conspiração armada contra a deusa Vishnu.

Como já comentei antes, ao falar sobre o Shun, os heróis que conhecíamos nesta época eram sempre “machos” e deixavam claro sua masculinidade na forma de violência. Porém, o Cavaleiro de Andrômeda era diferente: frágil, com uma aparência andrógena, uma armadura cor-de-rosa e avesso à violência. Vale lembrar também que era a época pré internet, onde a TV era o principal meio de comunicação e, consequentemente, a principal “formadora de opinião”.

E Shurato teve o seu equivalente ao cavaleiro das correntes de Andrômeda, Leiga. Reiga, o Rei Garuda, no Brasil ganhou o nome de Leiga, o Rei Karla (talvez para facilitar a pronuncia). Ele é um dos personagens principais e um dos Oito Guardiões Divinos, e está em praticamente todos os episódios do anime, inclusive salvando o protagonista Shurato logo no primeiro episódio.

A aparência de Leiga não era nada discreta e era algo bem diferente para os fãs brasileiros da época. Apesar de sempre ser comparado ao Shun devido ambos estarem longe do estereótipo do “herói macho”, Leiga é um personagem muito mais forte e até mais “fora do armário” do que o Cavaleiro de Andrômeda.

Leiga usava uma espécie de collant azul escuro, coberto com uma toga rosa, uma sapatilha, além de estar sempre com sua maquiagem impecável (uma sombra azul/lilás e cílios delineados, dignos de uma Runway de RuPaul’s Drag Race). Sua arma de luta são dois anéis dourados e seu shakit possui a forma de uma ave, Garuda (ave mitológica do hinduísmo que lembra a ave Fênix), e por isso seus ataques e poderes sempre tem penas e plumas relacionados.

Leiga é vaidoso e muito brincalhão, sempre soltando um SHADE quando necessário. Ele também é um dos mais inteligentes entre os heróis, tanto que investiga por conta própria toda a história de traição a qual Shurato e seus amigos são acusados, e é capaz de decidir sozinho qual o caminho certo a seguir ao descobrir toda a verdade.

Além disso, o Rei Karla, diferentemente do Shun de CDZ, não é nem um pouco indefeso ou pede ajuda do irmão mais velho em momentos difíceis. Ele é um dos mais poderosos entre os Guardiões da deusa Vishnu (e sabe muito bem disso), derrotando vários inimigos sozinho e salvando a trupe diversas vezes.

O loirinho também adora passar uma cantada, tanto em homens como em mulheres, flertando com Shurato algumas vezes, deixando-o desconcertado, e também com Rakesha, só para enciumar o protagonista. Na época da exibição de Shurato na TV Manchete (1996), a censura não cortou estas cenas e a equipe de dublagem (Dublavídeo) também não alterou estas falas, algo muito legal para a época. A voz de Leiga no Brasil ficou a cargo do talentoso Hermes Barolli, responsável pela voz do Seiya em Cavaleiros do Zodíaco.

Leiga foi o segundo personagem que tive contato que quebrava com os estereótipos que tínhamos sobre heróis e o machismo. Se o Shun trouxe uma ótima reflexão sobre fragilidade e “o que é ser macho”, Leiga proporcionou algo ainda mais profundo: é possível vestir-se de forma “feminina” (como se roupa ou maquiagem tivesse gênero) e ainda assim ser um dos mais fortes dentro de um grupo.

Parece algo banal nos dias de hoje, onde empoderamento e reflexões sobre gênero e sexualidade são amplamente divulgadas, mas há 20 anos foi algo emancipador. Sentir-se representado por um personagem que não se encaixava no binarismo de gênero, não obedecia normas, fazia o bem aos seus amigos e ainda assim era um dos mais poderosos, foi algo inspirador.

A sexualidade de Leiga nunca foi definida ao público e nem foi preciso. O guerreiro das plumas também não teve nenhum interesse amoroso (pelo menos não de forma clara), o que foi algo natural também durante toda a história, afinal Leiga tinha o objetivo de salvar o seu mundo e não achar o amor da sua vida.

Em uma época onde ainda falava-se e estudava-se pouco sobre gênero e sexualidade, e representatividade zero dos LGBTs na televisão, Leiga foi um sopro de quietação para aqueles que se sentiam diferentes dos irmãos, amigos e da sociedade em geral.

Abertura Brasileira: 

Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana. Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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