Página Inicial / Comportamento / Comportamento|Temos que ser padrãozinho?

Comportamento|Temos que ser padrãozinho?

Quando eu era mais novo, eu estava no banco com a minha irmã e a minha mãe. Neste dia entrou um cara que na época parecia ser alto, mas hoje em dia eu acredito que ele deveria ter 1,73 de altura. Esse cara entrou vestindo roupa normal, mas andava rebolando e passava a mão na orelha, como se tivesse um fio de cabelo grande atrapalhando, mesmo tendo o cabelo curto. Ou seja, ele andava todo afeminado. Lembro que neste dia minha irmã me puxou no meio do banco,  apontou pra ele e falou:

– Tá vendo, quando digo pra você andar igual homem e pra você não ficar andando feio igual a esse cara.

Todo mundo do banco ficou olhando para nós, eu abaixei a cabeça de vergonha enquanto o sujeito nem ligou, virou pra trás e continuou esperando na fila.

Naquela época eu não tinha noção de ser afeminado ou não, eu nem ligava, afinal eu gostava do jeito que sentava e andava, mas depois desse dia comecei a reparar nos modos de sentar e agir do meu pai e comecei a imitá-lo até crescer, evitando todo tipo de traço afeminado no meu corpo.

Eu consigo conviver muito bem com caras afeminados e sou amigo deles, não ligo para seus jeitos e trejeitos, tenho orgulho daqueles que mesmo com o preconceito forte rondando continuam sendo o que querem.

Mas ultimamente vejo muita gente aceitando o gay tipo “padrãozinho”, aquele cara que tem comportamento masculino, voz grossa, frequenta academia, veste roupa de marca e frequenta boates e lugares caros porque tem dinheiro para gastar. Esse padrão exclui os gays afeminados, nerds, ursos, roqueiros e qualquer outra “estilo” que não se encaixe neste contesto.

Mas por que o “padrãozinho” é mais aceito?

Porque o padrão é o mais próximo do homem hétero idealizado. Ele não é afeminado, tem grana pra gastar, pode entrar em casa que ninguém vai questionar sua sexualidade, pode ser apresentado para o tio homofóbico ou pra tia crente que não haverá briga e principalmente, o gay padrão vai levar para as boates gays que são mais “legais que as boates héteros”.

Essa é a melhor resposta para a pergunta, afinal “podemos ser gay, mas nada de sair rebolando como mulher”. Porém esse comportamento não justifica nem a pergunta, afinal caráter e eficiência pessoal não pode ser julgada pelo estilo ou lugares que você frequenta. Um padrão nunca vai ser melhor que um afeminado e vice-versa, essa imposição que se coloca que pra ser gay tem que ter “no mínimo uma cueca da Calvin Klein no guarda roupa” é mais uma que a sociedade impõe para que o gay seja aceito por ela.

E essa imposição acaba ocorrendo dentro do meio LGBT, onde muitos gays se sentem superiores aos outros por ser “padrão”, ou por serem “afeminados”. Acaba ocorrendo então uma “guerrinha” de críticas, deboche e ofensas entre os adeptos dos dois “estilos”. Sem falar de memes que estão lotando as rede sociais. Uma total perda de tempo. A nossa verdadeira guerra não está naquele que sabe bater cabelo melhor, e nem naquele que paga mais caro por uma camisa de marca e sim para não sermos agredidos por lâmpadas no meio da rua, ou termos o direito de casar ou adotar um filho – Ou simplesmente um senhor de idade não morra em pleno natal por nós defender.

Eu acho que essa a nossa verdadeira guerra, é aquela que defende o direito de amarmos quem quisermos, sem precisar de estereótipos para sermos aceitos pela sociedade.

Sobre Thiago de Assumpção

Formado em Historia, mas arrisca sua vida nos palcos, na escrita e no League of Legends. Apaixonado por série e desenho e sonha em ser um super-herói.

Veja Também

Comportamento|Você não é o que você foi três (ou mais) anos atrás [Na maioria das vezes]

A última moda difundida na internet é a de pegar postagens de anos atrás e …