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Falando um pouco do Yaoi

Quando tudo ainda era mato e não haviam personagens LGBTs em HQs, séries e filmes, e muito menos internet, conheci o Boys’ Love (BL), no Brasil popularmente conhecido como Yaoi.

Há 20 anos, não tínhamos acesso a mangás e animes como nos dias atuais, conhecendo algumas (as mais famosas) produções através das reuniões feitas pelos fansubs (quem está lendo isso aqui nem sabe o que era isso, Lum’s Club e BaC, por exemplo). E numa dessas reuniões tive contato com um anime onde mostrava uma relação entre dois homens!

Algo novo na época para mim, que nem fazia ideia do que era hétero, homo, trans e etc. Mas fiquei curioso a partir daí e comecei a consumir BL. Assim, conheci também as famosas salas Yaoi/Yuri dos eventos otakus (não nerds, na época) e assim virei um fudanshi.

Se no Oriente, mangás com romance entre pessoas do mesmo sexo eram algo comum, no Brasil não era (é). Isso pode dar a falsa ideia de que no Oriente o preconceito contra os LGBTs é menor, mas não é. Acontece que no Japão, estas histórias geralmente eram produzidas por e para mulheres (isso também explica por que os protagonistas de yaoi são mais “femininos”).

E ainda assim, as meninas que liam este tipo de histórias eram chamadas por lá de Fujoshi, que numa tradução literal seria menina pervertida. Hoje em dia o termo não é mais visto como ofensivo, mas já mostra que mesmo por lá quem se interessava por este tipo de história não era “bem vista”. No Japão, poucos meninos assumem que gostam de yaoi, mas os que fazem são chamados de Fudanshi.

O yaoi é um descendente do gênero Shoujo (Shojo), ou seja, com foco em um relacionamento romântico entre um personagem feminino mais frágil e recatado, e um personagem masculino mais forte e sexualizado. Apesar da estrutura dos personagens ser basicamente a mesma, algumas características podem variar, dependendo do gênero da história e da temática.

No Yaoi, os personagens são “encaixados” em dois tipos de estereótipos, de Seme (masculino, ativo e forte) ou de Uke (afeminado, passivo e frágil). E em algumas histórias mais recentes já aparecem até personagens considerados como Seke, uma mistura de Uke e Seme (se é que me entende). E estes personagens são mostrados como um casal de forma clara, além das entrelinhas.

Muita gente gosta desta divisão que existe dentro do yaoi (eu também gostava), mas com o tempo pude perceber que estes estereótipos nada mais são do que uma reprodução do sistema binário heterossexual, onde há SEMPRE um masculino e um feminino (eu mesma, Problematizadora Mello).

Além disso, as histórias quase sempre mostram relacionamentos abusivos, onde o uke (passivo e afeminado) é objeto (no sentido literal) afetivo-sexual do seme (ativo e masculinizado). A reflexão destes pontos me afastou de animes e mangás yaoi e me fizeram buscar outros gêneros de animes e mangás.

Estes estereótipos e até mesmo o abuso se dá principalmente devido a história ser escrita por e para mulheres. Na cultura oriental tradicional, as mulheres deviam ser frágeis, comportadas e submissas, e as histórias criadas por estas mangakás retratavam como a mulher se sentia nos relacionamentos amoroso (Shoujo). Posteriormente elas começaram a desenhar histórias com dois homens (Yaoi), pois elas acreditavam que em uma relação onde nenhum dos dois era submisso, haveria um amor mais estável e verdadeiro (ledo engano). As histórias com romances homoafetivos foram ganhando cada vez mais características de um relacionamento heteroafetivo, e assim surgiu as características que conhecemos hoje de Seme e Uke.

Ou seja, o Yaoi não é uma produção que tem a intenção de mostrar questões sociais dos gays, como homofobia ou discriminação, nem o objetivo de ampliar a representatividade LGBT na cultura do mangá e do anime. No Brasil, este material pode ter colaborado com a comunidade LGBT, favorecendo o encontro de otakus LGBTs ou unindo os fãs do Yaoi em eventos, porém isso tudo foi uma consequência e não devido ao conteúdo das histórias.

Os fãs (Fujoshi ou Fudanshi) inclusive não só se contentam com as histórias produzidas, que desenvolveram suas próprias histórias para dar o destino a seus personagens e assim surgiram os fanfics/fanarts, com os casais “shippados” de animes que muitas vezes não tinham seu amor definido ou . Assim podemos achar pela internet versões mais calientes ou mais românticas de Touya e Yukito, Shinji e Kaworu, Kurama e Hiei, etc.

 

 

 

 

 

 

 

Assim como nos outros gêneros de anime e mangá, o Yaoi também possui seus subgêneros. Vou citar os mais famosos:

 

Shonen-Ai

Histórias em que o romance entre os personagens não é explícito, ou seja, fica subentendido, não é considerado yaoi, e sim Shonen-Ai. Em Sakura Card Captor, por exemplo, onde Touya e Yukito demonstram muito carinho um pelo outro, mas não há nenhuma declaração de que eles são um casal, consideramos como um Shounen-Ai (Shonen-Ai).

Amor (Ai) entre garotos (Shonen). Como disse mais acima, são histórias em que dois homens possuem um afeto muito grande, porém o amor não é explícito ou consumado, ficando apenas nas entrelinhas. Como exemplos, temos vários animes e mangás do grupo CLAMP (Sakura Card Captors, Guerreiras Mágicas de Rayearth, X-1999, Tokyo Babylon), onde os romances estão ali, mas nunca de forma explicita.

Lemon

Como já foi dito acima, BL ou Yaoi não se trata de uma história com cunho sexual e sim afetivo/romântico. Mas há histórias que vão mais além e exibem as relações sexuais entre os personagens de forma explícita. Essa categoria é chamada Yaoi Lemon ou só Lemon. Ou seja, nem todo Yaoi é Lemon, mas todo Lemon é Yaoi. Geralmente produzido por homens, onde o objetivo da história é a consumação sexual entre os personagens. Também citado como Slash por alguns grupos. A contraparte feminina do Lemon (sexo explícito entre mulheres) é o Orange is The New Black.

Bara

Geralmente produzido por homens, consequentemente tem como foco o sexo. O Bara é uma versão mais GGGG do Yaoi, tendo sempre homens musculosos, masculinizados e fazendo sexo. É um gênero que não possui representantes que tenham importância, e os personagens sempre possuem uma única meta: sexo.

Shota

Shotacon (a contraparte masculina de Lolicon) é uma das mais polêmicas e que no Brasil ainda é considerada como material de abuso sexual infantil. Shota é categoria onde um homem adulto se relaciona (quase sempre sexualmente) com um menino mais novo, com aparência infantil. Citamos este gênero aqui só para conhecimento, pois a posse e a divulgação desse tipo de material é considerado crime aqui no nosso país (esteja avisado).

Dorama

Apesar do Yaoi ser um subgênero apenas de anime e mangá, muitos fãs consideram as novelas orientais que mostram um relacionamento entre dois homens como uma vertente do Yaoi. Dorama são séries de televisão oriental, mas que mostram quase sempre histórias românticas e/ou dramáticas. Algumas histórias tratam de relacionamentos homoafetivos, e assim ganharam o título de Dorama Yaoi. Alguns são japoneses, mas é possível encontrar alguns Doramas Yaoi da China e da Coreia do Sul.

 


Apesar de possuir muitos estereótipos que reforçam algum tipo de violência ou de heteronormatividade, o Yaoi e o Shonen-Ai são umas das poucas produções onde podemos  acompanhar histórias de romance entre dois homens e (algumas vezes) onde os sentimentos são abordados de forma mais profunda.

E você? Gosta de Yaoi? Deixe nos comentários uma sugestão de mangá ou anime Yaoi ou Shonen-Ai para nós.

Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana. Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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  • Higor Gonçalves Galvan

    Amei o texto, hoje em dia não animes com temática yaoi com grande frequencia, só de vez em quando (que é quase nunca).
    Como recomendação de anime yaoi escolho Love Stage!! Um anime super divertido e fofo.

    • Michel Furquim

      Love Stage, Gravitation (Mangá) e Jou Jou Romantica (1ª temporada) são super fofos e engraçados.

      • Higor Gonçalves Galvan

        Gravitation não conheço, vou conferir

    • Rafael Falcao

      Love Stage é amorzinhu