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Indicação Nerd|HQ – The Wicked + The Divine

“A cada noventa anos, doze deuses reencarnam como jovens humanos.

Eles são amados. Eles são odiados. E em dois anos, todos eles morrem.”

A HQ desta vez é The Wicked + The Divine da dupla Kieron Gillen e Jamie McKelvie, ambos britânicos e com uma bagagem de peso no universo do quadrinhos. O título está sendo publicado desde junho de 2014 pela editora Image Comics nos EUA, e desde então já recebeu ótimas críticas e até o prêmio de melhor HQ pela British Comic Awards em 2014.

The Wicked + The Divine (TW+TD) acaba de chegar ao Brasil pela editora Geektopia, num encadernado com as 5 primeiras edições da saga. A edição é de ótima qualidade e com um preço ótimo (basta procurar nos lugares certos).

A história se passa em 2014, onde Deuses caminham entre os mortais, porém como ícones pop do nosso tempo. O Panteão (lugar destes deuses) é formado por Amaterasu (que lembra muito Florence Welch, não por acaso), Lúcifer (uma versão rebelde de David Bowie), Baal (bissexual e inspirado em Kanye West), Ananke (a mais velha e a responsável por encontrar e “acordar” os deuses), Inanna (queer, bi e andrógino, inspirado em Prince), Minerva (criança inspirada em Beatles), Sakhmet (uma felina inspirada em Rihanna), Tara (aquela cantora que todos amam odiar), Morrigan, Baphomet (inspirado no cantor Morissey), Perséfone, Urd, Woden (claramente, dos irmãos Daft Punk) e Dionísio. Alguns já estão claros e definidos desde o início da história, outros só são descobertos com o desenrolar dos acontecimentos.

Apesar de a trama girar em torno dos Deuses, a protagonista da história é Laura. Uma grande fã de Amaterasu e os outros deuses. Com o decorrer das história, percebemos que Laura não é só fã, ela quer tudo aquilo que os deuses tem e representam. Os traços e características de Laura, uma mulher preta, são maravilhosos, transformando-a num dos melhores protagonistas negros que já vi nas HQs.

Além da representatividade negra, com Laura e Baal, The Wicked + The Divine mostra muitos personagens LGBTQIA. A maioria dos personagens não possui uma sexualidade definida, com vários deles flertando com todos aqueles que passam pelo seu caminho. Temos personagens andróginos, bissexuais, lésbicas e trans, sendo apresentados com seus gêneros e sexualidades abertamente, sem eufemismos.

Temos um personagem trans na história, por exemplo, em que sua transição de gênero não é o principal acontecimento na sua vida. Seu gênero também não é deixado claro, e nem por isso sua importância e complexidade deixam a desejar.

Aliás, a complexidade emocional dos personagens deixa TWTD como uma obra que vai além de simples diversão e uma trama previsível. Cada personagem é único e com suas ambições, frustrações e dificuldades, mesmo os deuses cheios de poderes se mostram tão falhos e fracos como a maioria de nós.

A história é recheada de mistério, ação e conspiração, mantendo o leitor preso a cada nova reviravolta (se você achou as mortes de Game Of Thrones difíceis de superar, é porque ainda não leu TW+TD).

Os traços destas primeiras edições são de Jamie McKelvie, familiar para os leitores da HQ dos Jovens Vingadores  de 2013, onde a dupla McKelvie e Gillen trabalhou junta nessa fase de Wiccano e seus amigos.

Uma coisa bacana dessa história em quadrinhos foi o cuidado de Kieron Gillen em representar cada um dos personagens. Gillen é um homem, cis, branco, mas para desenhar os traços dos personagens com diversos gêneros e sexualidades, pediu ajuda de seu círculo de amigos, verificando com eles para se certificar se estes sentiam-se representados e não ofendidos com as imagens e o andamento da trama.

Algo curioso e excelente de ver é o protagonismo feminino. Não vemos amazonas com minissaias ou heroínas com decotes surreais. Vemos aqui mulheres vistas por outros ângulos, donas de suas trajetórias e independentes, e com histórias que não giram em torno de um ideal amoroso. Ufa!

Além da representatividade, Gillen é fã da cultura pop e as referências vão agradar em cheio os apaixonados por músicas e suas divas. O autor aproveita para explorar a idolatria por ídolos pop (assim como o oposto, o ódio dos haters) e como a massa é facilmente conduzida pelo teatro do espetáculo.

Nos EUA, TheWicTheDiv está na 25ª edição e sem previsão de chegar ao fim. Vamos torcer para que todas estas edições sejam trazidas para o Brasil, e com a mesma qualidade.

The Wicked + The Divine é uma obra de arte contemporânea em meio a tantas HQs de baixa qualidade que vemos por aí, trazendo uma trama inteligente, muita representatividade e, milagrosamente, traduzida no Brasil.

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Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana.
Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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