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Comportamento | Por que é tão difícil reconhecer nossos privilégios?

  • Heterofobia – Preconceito e discriminação sofridos pelos héteros pelos LGBTs;

  • Brancofobia – Racismo reverso sofrido por brancos. Onde negros oprimem e roubam os direitos de pessoas brancas;

  • Gayfobia – A invisibilidade que gays sofrem dentro da comunidade LGBT;

  • Magrofobia – Preconceito estrutural contra pessoas magras, imposto pela sociedade e por pessoas gordas;

 

Você achou alguma dessas palavras ou definições falsa ou desleal? Saiba que muitos gays (e nerds) não acham.

Por que será que é tão difícil reconhecermos os privilégios que possuímos em relação a alguns grupos ou pessoas?

Faço parte de alguns grupos minoritários (hoje menos, do que há 10 anos) e isso foi importante para uma autorreflexão sobre grupos aos quais eu não faço parte e que sofrem algum tipo de opressão estrutural. Assim, busquei compreender melhor o universo das pessoas trans e suas reivindicações, assim como as lutas das mulheres e outras questões, como a gordofobia.

Com a orientação de pessoas iluminadas em minha trajetória, aprendi que devemos ouvir os discursos daqueles que sofrem algum tipo de preconceito ou discriminação, e auxiliar – quando solicitado – nas lutas para que haja uma sociedade mais justa e igualitária.

Assim, pude compreender que enquanto todos não tiverem seus direitos assegurados, nenhum grupo terá. Ou seja, se eu sou gay e branco, e tolero o racismo contra gays negros (seja racismo em ambientes físicos como virtuais), estou colaborando para que outros tipos de preconceitos sejam tolerados na sociedade, como a homofobia, por exemplo.

E algo que muito me choca atualmente é o preconceito destilado exatamente por pessoas que fazem parte de outras minorias que também sofrem preconceito. Em vários grupos “gay nerds”, negros e gordos são hostilizados. “Gays Geeks” reforçando discursos de opressores contra imigrantes, por exemplo, não é raro.

Durante muito tempo entrei em discussões em grupos de redes sociais, onde gays (que sofrem com a homofobia), que se dizem nerds (que outrora já foi um grupo vítima de bullying), reproduzindo discursos que reforçam o machismo, a xenofobia e o racismo.

Esta semana, para exemplificar o nível em que estamos, uma nova série da Netflix e que expõe racismo sofrido há décadas por negros, recebeu várias negativações no Youtube e uma promessa de boicote, por várias pessoas que se sentiram ofendidas. ‘Dear White People’ promete várias discussões polêmicas e nos faz pensar porque falar sobre o racismo ainda “ofende” muita gente. Podemos pensar o mesmo sobre homofobia, machismo e etc.

Sempre que falamos sobre racismo, machismo, homofobia e transfobia muitas pessoas se sentem ofendidas, pois apontar privilégios é trazer para a luz de que muitas conquistas individuais vão além do próprio esforço e dedicação. Muitos brancos, por exemplo, não aceitam que o racismo ainda se faz presente, afinal admitir isso é também admitir que o emprego, a vaga na universidade, bens materiais e até mesmo relacionamentos conquistados também possuem um parcela dos frutos do racismo estrutural da sociedade.

“Se oriente! Elogio não anula preconceito” – Base Propaganda

Assim como vários homens (gays ou héteros) não aceitam e não se sentem responsáveis pelo machismo perpetuado, pois isso escancararia que muitas conquistas e direitos possuímos simplesmente por não fazermos parte do sexo feminino.

Percebo que essa necessidade de reforçar preconceitos e não reconhecer seus próprios privilégios passa pela questão de empatia e da solidariedade. Entender que o outro não é um rival ou competidor (apesar da nossa sociedade reforçar isso constantemente), mas um ser humano que também deve ter os mesmos direitos que você.

Por isso é preciso uma autorreflexão de nossos privilégios. Eu, como homem, gay, cis, preciso compreender o porque tenho segurança de sair na rua meia-noite e uma mulher não. Tenho que entender porque no meu local de trabalho não há pessoas negras, ou porque elas estão apenas retirando o lixo ou na portaria do prédio.

Por que um gay, branco, de classe média pode andar tranquilamente de mãos dadas na Avenida Paulista e um gay, preto, não pode fazer o mesmo na periferia?

Por que um programa que se propõe falar de amor e sexo, e quebrar tabus, mostra em sua maioria brancos, cis e com o IMC ideal?

São perguntas que devemos nos fazer, e ter a coragem de admitir as respostas que virão.

É possível que um branco sofra preconceito por ser gay, por exemplo. Assim como um hétero pode sofrer discriminação por negro. Porém, temos que expandir nosso olhar para o outro e entender que um caso de preconceito pontual, por exemplo, não se equipara a um preconceito estrutural e institucionalizado.

Além da autorreflexão é preciso desconstruir nossas ideias de que “todos são iguais e humanos”, discurso como muitos usam para justificar porque não se chocam ou se manifestam contra as discriminações aplicadas a outros grupos.

Ao mesmo tempo que é curioso, também beira o ridículo que seja necessário discutir a existência de machismo, racismo e LGBTfobia. Estes preconceitos estão enraizados em nossa sociedade e continuarão assim, enquanto não percebermos que nós mesmos reproduzimos comportamentos e discursos que reforçam este ou aquele preconceito.

É preciso entender que numa época onde o individualismo e o ódio são tão valorizados, é preciso empatia e muita, muita escuta. Ou chegamos todos juntos, ou ninguém terá chegado.

Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana.
Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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