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Crítica | Filme – Stonewall: Onde o orgulho começou [2015]

Podemos tirar lições de vida e aprendizado de tudo que nos rodeia. Mesmo que seja uma situação ou um filme ruim. Tudo pode te ensinar algo na vida. Essa é a máxima em minha vida, que me faz encarar algumas obras e tentar tirar algum ponto positivo de tudo que me é apresentado.

Com Stonewall: Onde o orgulho começou (2015) não foi diferente. Desde que foram divulgadas as primeiras imagens da produção, torci o nariz e já imaginava o processo de higienização que um dos maiores marcos da comunidade LGBT sofreria. Mas isso não me impediria de assistir o filme e tentar achar algo positivo naquilo tudo.

Antes de falar um pouco do filme é importante falar da Revolta (ou Rebelião) de Stonewall, para quem nunca ouviu falar ou pra quem estava sem internet há… tipo, uns 20 anos.

Nos anos 50 e 60, os “cidadãos de bem” do mundo todo eram ainda mais racistas, transfóbicos, homofóbicos e machistas do que são hoje, pois possuíam (e em certa parte ainda possuem) o apoio da Lei e da polícia para cometer barbáries contra qualquer pessoa que não se encaixasse no modelo branco, heteronormativo, binário, tradicional.

Essa repressão, que podemos sentir seus ecos até hoje, era de forma tão arbitrária e violenta, que muitos LGBTs começaram a se aglomerar em centros urbanos, onde a violência era menor que em pequenas cidades. Assim, São Francisco e Nova York se tornaram lar para aqueles que foram expulsos ou fugiram, em uma época em que ser diferente poderia ser uma sentença de morte.

Stonewall Inn era um bar, localizado em Nova York, point para os LGBTs que não tinham o “privilégio” da nossa atual tecnologia e precisavam sair às ruas para conhecer pessoas semelhantes e/ou para fazer pegação. Se muitos LGBTs e seus simpatizantes juntos em uma mesma região proporcionavam uma sensação de maior segurança, também facilitava a ação do Estado na forma de repressão através da polícia.

E aqui que o filme Stonewall entra. Conhecemos Danny Winters (Jeremy Irvine), um jovem de uma cidade pequena que aprende na escola e com seu pai treinador que existem pessoas no mundo por aí, doentes: os gays. Danny mantém um caso com o colega de time “discreto e fora-do-meio”, até serem flagrados por alguns colegas. Assim Danny, vai embora da casa dos pais e chega a NY.

Um mundo novo onde gays se beijam no meio da rua e travestis circulam livremente pelas calçadas. E aqui que Danny conhece a melhor coisa do filme, Ray ou Ramona (Jonny Beauchamp). Ray é quem “recepciona” Danny em seu novo lar e ensina muitas coisas sobre a vida das pessoas que viviam à margem da sociedade.

A atuação de Beauchamp é fantástica e me trouxe a dúvida de por que ele não recebeu nenhuma indicação por este trabalho em lugar nenhum. Ray/Ramona também o personagem mais cativante de todo o filme, roubando a cena sempre que aparece e deixando o protagonista como um mero acessório. E aqui é a grande questão do filme.

A Revolta de Stonewall contra a repressão policial, na vida real foi protagonizada por travestis, drags e gays que fugiam de todos os padrões (como os afeminados), como Ray/Ramona, e não por homens, gays, cis, como Danny. Então por que Ray/Ramona é um personagem coadjuvante? Este é o grande tropeço de Stonewall e que o fez se tornar um desastre entre o público. Criar e transformar em protagonista um modelo de personagem que não condiz com a realidade do movimento que ocorreu em 1969. Se a história fosse mais fiel a realidade e a história de Ray/Ramona fosse melhor explorada, sobre toda a dificuldade de uma pessoa não-binária ou trans sobreviver naquela época, talvez tivéssemos um filme memorável.

Além de Ray/Ramona, também conhecemos outros personagens como Marsha P. Johnson (Otoja Abit), uma mulher, negra, trans e drag queen, que existiu na vida real e que esteve no início do movimento de Stonewall e posteriormente fundou a STAR (não do Resident Evil, mas uma associação de proteção a travestis e pessoas trans que viviam em situação de vulnerabilidade). Outro personagem real é Bob Kohler (Patrick Garrow), que também fundou uma organização na luta pelos direitos dos LGBTs e de jovens moradores de rua.

Também conhecemos Conga (Vladimir Alexis) e outros companheiros de Ray, que dividem um apartamento minúsculo, pago por pequenos furtos ou programas que o bando é obrigado a fazer para sobreviver.

O filme tenta mostrar o drama do garoto interiorano em ser rejeitado pela família por ser gay, ao mesmo tempo em que ignora ou minimiza a violência sofrida pelos outros personagens, passando a nítida sensação de higienização. Stonewall traz aquela mesma fórmula que já vimos em várias outras produções LGBTs, como Queer As Folk, Looking, King Cobra, 4Th Man Out: o homem, gay, cis, padrão sofrendo por não conseguir viver sua sexualidade.

Sair do armário é difícil? Claro que é. Ser LGBT numa sociedade heteronormativa é difícil? Lógico que sim. Porém, Stonewall é muito mais do que contar uma história fictícia de um menino gay que foge de casa. A história de Danny poderia ser contada sem o pano de fundo de Stonewall e ficaria tudo bem. Tantas drag queens, lésbicas e pessoas trans fizeram parte desse movimento que deu início aos movimentos pelos direitos dos LGBTs, e contar isso deixando-as como coadjuvantes é uma heresia. 

Como ponto positivo do filme, podemos citar a menção de Frank Kameny (interpretado aqui por Frank Bolden), que pregava por uma luta pacífica pelos direitos dos Gays (apenas dos gays) através do grupo “SER GAY É BOM”. Reforçavam a ideia de que os gays precisavam portar-se com educação e vestir-se adequadamente, a fim de conseguir o respeito do resto da sociedade.

Essa foi e é a estratégia de muitos gays, que buscam incomodar o mínimo possível a ordem da sociedade atual e assim conquistar seus direitos encaixando-se nos padrões heteronormativos e binários. Isso é importante para percebermos que a luta de uma mesma comunidade não é encarada da mesma forma, apesar de objetivos em comum.

A transfobia é abordada de forma plausível no filme, seja na violência física sofrida por Ray/Ramona em certo momento da história, mas também podemos citar na repulsa que Danny tem em dançar ou manter algum relacionamento com elx. É algo comum na nossa comunidade LGBT, apesar de muitos negarem. Pessoas trans muitas vezes não são vistas como interesse afetivo e amoroso, sendo muitas vezes objeto apenas sexual ou da nojenta curiosidade de qual é órgão sexual que a pessoa tem entre as pernas.

Outra reflexão que o filme proporciona é com o personagem Ed Murphy, o dono do bar Stonewall. Ed não é gay e não dá a mínima para os direitos dos LGBTs, mas enxerga nesse público uma forma de lucrar. Algo não muito diferente de hoje, onde a maioria dos donos de bares e boates gays, são héteros atrás apenas do pink money.

O filme possui um ótimo elenco como o irreconhecível Caleb Landry Jones, de X-Men – Primeira Classe, no papel de Annie, Jonathan Rhys-Meyers(The Tudors), Joey King (Invocação do mal) e Ron “HellBoy” Perlman, porém a trama superficial e a tentativa de colocar Danny como um representante do movimento de Stonewall transforma o filme num imenso conto de fadas, salvo em alguns momentos por Ray/Ramona e outros personagens.

Mas um ponto precisa ficar bem claro aqui: Stonewall não foi feito para nós, LGBTs, “desconstruidoras” e “problematizadoras”. É um filme feito para o circuito comercial, para a sociedade em geral, com objetivo de não chocar aqueles que não conhecem a verdadeira história de Stonewall. É justificável? Nem um pouco, mas como falei no início, temos que tirar sempre os pontos positivos de tudo que nos é apresentado (mesmo que sejam poucos). E se um filme como este ajudar uma pessoa conservadora e preconceituosa a buscar mais informações sobre o que foi Stonewall, então já será válido.

TRAILER

Podemos tirar lições de vida e aprendizado de tudo que nos rodeia. Mesmo que seja uma situação ou um filme ruim. Tudo pode te ensinar algo na vida. Essa é a máxima em minha vida, que me faz encarar algumas obras e tentar tirar algum ponto positivo de tudo que me é apresentado. Com Stonewall: Onde o orgulho começou (2015) não foi diferente. Desde que foram divulgadas as primeiras imagens da produção, torci o nariz e já imaginava o processo de higienização que um dos maiores marcos da comunidade LGBT sofreria. Mas isso não me impediria de assistir o filme…

Stonewall: Onde o Orgulho Começou

Filme

Nota

Um pano de fundo rico e com muita coisa que poderia ser aproveitado, porém se perde na tentativa de não chocar, higienizar fatos e manter o estereótipo de protagonista gay, cis, branco, padrão.

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Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana.
Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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  • Eduardo

    Pelo que sei, é a segunda tentativa de levar o evento de Stonewall para as telas (a primeira é um filme de 1995, Stonewall – o lugar dos meus sonhos), e com um enredo parecido. E tb não fez muito sucesso.
    Talvez um seriado para a tv fosse melhor. Mas com o flop de When We Rise, infelizmente acho que não investem em obras “militantes” tão cedo.

  • Juliana Beatriz

    indicações de filmes sobre stonewall, aleem do de 1995?

    • Michel Furquim

      Oi Juliana. O filme MILK também retrata uma parte das manifestações em Stonewall.