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Crítica|Riverdale 1.03 – Chapter Three: Body Double

Riverdale aborda o terrível ‘slut shaming’ em um episódio que entrega toda força para suas personagens femininas.

Uma série adolescente sempre pode, e deve, abordar assuntos relevantes para o seu público alvo. Usualmente algumas temáticas são deixadas de lado em prol da serialização da trama da temporada. Com Riverdale tratando de um misterioso assassinato e após o final do episódio anterior, com Cheryl confessando ser culpada de algo – e como pontuado na crítica anterior, não relacionado a morte do irmão – o roteiro do terceiro capítulo da série tinha tudo para tratar unicamente das reverberações da confissão, mas não foi bem assim.

Centralizada em expor o lado negro da cidade de Riverdale, Body Double desenvolve seus personagens através de uma ótima pouco otimista. Desde que Jason morreu a cidade pacata se transformou em uma maré de assuntos obscuros, podridão e escândalos. Contudo o que o roteiro de Yolonda Lawrence faz foi mostrar que o lado sombrio sempre esteve presente, desde o começo, o rio apenas trouxe para a superfície com o corpo de Jason Blossom. O livro dos jogadores existe como uma tradição antiga da escola, assim como o xarope de maple. O mundo bondoso e caloroso não mudou por causa da morte de um adolescente, ele já estava apodrecendo desde muito antes. 

E utilizando a premissa do ‘mal existente’ por trás de cada pessoa, Body Double mergulhou em um assunto extremamente pertinente, quer seja para uma série de adolescentes, ou para adolescentes e adultos que acompanham a produção. Slut shaming, nome utilizado para a prática de humilhar garotas consideradas ‘putas’ é um dos “esportes” mais praticados nas redes sociais e em círculos de amizade, especialmente aqueles compostos unicamente por homens héteros cis. Não é algo reservado ao fantasioso, ao contrário, posso citar aqui diversas mulheres que tiveram suas identidades reveladas e julgadas de formas que homem nenhum jamais precisou se preocupar – não é novo. 

“Não, Kevin—é um slut shaming. Eu não sou nem uma vadia, ou vou aceitar ser humilhada por alguém chamado – com licença – Chuck Clayton.”

Trazer para a discussão o assunto é algo muito válido, de uma maneira que poucas séries com abordagem adolescente já conseguiram fazer ao tratar de uma temática tão forte. Diariamente meninas/mulheres são humilhadas por grupos que as consideram menos puras que o obrigatório. A garota que tem mais de um namorado por ano não é bem vista pela sociedade, masculina e feminina (principalmente). Aquela que conhece o próprio corpo e não tem medo de mostrá-lo também é isolada. Vídeos são feitos, mulheres são taxadas de vadias e os homens de garanhões.

Este tipo de assunto é um prato cheio para uma série que tem em seu núcleo principal três mulheres tão fortes e complementares e Riverdale excedeu as expectativas ao utilizar uma temática importante para impor um desenvolvimento forte para suas mulheres. Tudo o que aconteceu, da união das meninas, as falas no ponto, adicionaram camadas relevantes para compreender como cada uma daquelas mulheres funciona e opera no mundo de Riverdale. Verônica tenta levar o assunto como sua versão “má” faria em Nova York, agressivamente. Betty opta por tentar trazer a luz da informação, bancando novamente o lado menos agressivo e Cheryl, conhecedora do mundo machista, mas escolhendo não inserir o irmão neste meio, aparenta não se importar.

A grande mudança palpável, porém, vem da Betty e sua persona morena fatal, com a série novamente brincando com o esteriótipo da loira dócil e da morena volátil, o resumo de Betty e Verônica por muito tempo na cultura pop. A série já havia introduzido anteriormente que Betty não é uma moça baunilha. Para cada personagem de Riverdale existe um mistério a ser guardado, um segredo a ser protegido e por ser atualmente a mais vulnerável da série, Betty está mostrando com cada vez mais força as rachaduras em sua fachada. É muito interessante vê-la assim, porque oferece um tipo de dinâmica ótima para ela e os personagens que estão a sua volta. Neste episódio sua dupla com Jughead foi muito boa e espero que a trama do jornal não termine no ostracismo, já que funcionou muito bem para ambos. 

Do outro lado também tivemos lições válidas, com Josie e suas Gatinhas mostrando para Archie o que é privilégio e como um homem, branco, hétero, recebe mais da metade das oportunidades apenas por ser homem, branco e hétero. É uma dinâmica muito boa e compete um avanço lento, mas progressivo para Josie, que até então estava flutuando entre o inconsistente e o pouco desenvolvido. A carreira musical de Archie pode não oferecer uma trama interessante o suficiente, mas o papel de levantar discussões e remanejar o roteiro em favor do seu protagonista masculino é muito bom de ver. 

Body Double fecha uma trinca de três ótimos episódios para Riverdale, garantindo para seu time de jovens atores as doses certas de destaque e não deixando que seu time de protagonistas femininas caia em clichês usualmente utilizados no gênero teen. Betty, Veronica, Ethel, Cheryl, Josie e as Gatinhas, Riverdale está lotada de ótimas mulheres e seria um desperdício não tê-las com histórias importantes e bom tempo em tela, afinal, aqui elas são a maioria e merecem um tratamento a altura. 

Observações

– #justiceforEthel é o alerta meta de Riverdale da semana, uma ótima conexão com o #justiceforBarb, de Stranger Things

– Riverdale também tem os piores adultos, com a mãe da Betty liderando a corrida. Pelo menos ela levou uma merecida bofetada.

– Escoteiros que ensinam a atirar. Quando o apocalipse zumbi chegar, eles irão proteger a cidade. É…

– Nos quadrinhos Ethel Muggs é conhecida por perseguir Jughead, quase que de forma obcecada. Sua primeira aparição foi em Jughead #84, de 1962. 

– Alerta corpinho com óleo de bebê Johnson’s. 

Riverdale aborda o terrível 'slut shaming' em um episódio que entrega toda força para suas personagens femininas. Uma série adolescente sempre pode, e deve, abordar assuntos relevantes para o seu público alvo. Usualmente algumas temáticas são deixadas de lado em prol da serialização da trama da temporada. Com Riverdale tratando de um misterioso assassinato e após o final do episódio anterior, com Cheryl confessando ser culpada de algo - e como pontuado na crítica anterior, não relacionado a morte do irmão - o roteiro do terceiro capítulo da série tinha tudo para tratar unicamente das reverberações da confissão, mas não foi…

Riverdale

Chapter Three: Body Double

Nota

Um episódio inteiro para esmiuçar o que é privilégio, machismo e slut shaming.

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Sobre Diego Antunes

Fundador do site, também colabora com postagens para o Série Maníacos com reviews de séries. Nutre um amor incondicional pela Marvel e é leitor ferrenho dos quadrinhos da casa das idéias desde os 12 anos de idade.

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