Página Inicial / Diários de um Nerd / Diários de um Nerd | O Gay Afeminado Caricato Em “A Bela e a Fera”

Diários de um Nerd | O Gay Afeminado Caricato Em “A Bela e a Fera”

AQUELE TEXTÃO PROBLEMATIZANDO O LE FOU.

Antes de começar o texto, quero dizer duas coisas. A primeira é que não sei nada sobre o LeFou da animação clássica. Se assisti duas vezes na vida foi muito, então esse texto fala exclusivamente do personagem interpretado por Josh Gad na adaptação de 2017. A segunda é que fiz esse texto na quinta-feira, dia 16/03, um dia depois de ter assistido ao filme pela primeira vez. Decidi divulgar o texto somente agora porque quero falar de cenas específicas (ou seja, esse texto tem spoilers), então precisava dar um tempo para as pessoas assistirem.

 

 

 

 

 

 

Desde que Emma Watson foi anunciada como protagonista do longa, surgiram dúvidas em relação ao posicionamento feminista da atriz e a algumas passagens da animação de 1991. Toda a relação de síndrome de Estocolmo e submissão da Bela, que não eram tão discutidas nos anos 90, parecia entrar em conflito com os discursos recentes de Emma, que tem se tornado uma famosa militante feminista dos últimos anos.

Não demorou muito para que a atriz começasse a explicar, em entrevistas, como a Bela da adaptação de 2017 não era tão submissa e passiva. Notícias e mais notícias serviram de publicidade social para o filme ao gritar aos quatro cantos que “Emma Watson fez questão de não deixar o amor de Bela parecer Síndrome de Estocolmo” e como a atriz “recusou usar corpete” para ir contra padrões de beleza nocivos a mulheres.

Apesar da publicidade do filme ter usado esses fatos para vender uma imagem de adaptação (e empresa) progressista, a preocupação com a causa feminista foi real. Não sei se partiu exatamente (ou somente) de Emma, mas a Bela de 2017 é bem mais independente e empoderada do que a de 1991 (pelo pouco que me lembro e pelas análises que li na internet). E isso é ótimo! Meninas – e meninos – precisam de modelos femininos que mostrem como as mulheres podem ser fortes, inteligentes e decididas.

Por isso, fui ao cinema sabendo que o filme passou por adaptações a fim de refletir o contexto social dos dias atuais. Muito motivado pela questão feminista tão divulgada, claro, mas também por outra questão que também foi anunciada em toda parte para reforçar a imagem de ~progressista~ da Disney: haveria um personagem abertamente gay.

É óbvio que, ao fazer isso num filme comercial e mainstream como “A Bela e a Fera”, o personagem em questão não seria alguém tão importante para a narrativa. Não seria Lumiére ou qualquer outro móvel da casa. Ainda assim, haveria um personagem secundário: Le Fou, o amigo do vilão.

Ok, ok, não é o ideal, mas é melhor do que nada. O fato da Disney confirmar que o personagem de uma produção tão grande é gay já é um grande avanço. Lembra ano passado (se não me engano) que começou uma campanha na internet para que Elsa, de Frozen, ganhasse uma namorada nos próximos filmes? Muita gente apoiou, mas também vimos uma massa conservadora surtando com a ideia. Da mesma forma que ficaram fora de si quando o Disney Channel transmitiu vários beijos de pessoas do mesmo gênero na série animada “Star vs. As Forças do Mal”. Teve até pastor que lava dinheiro querendo boicotar a Disney.

Então, apesar de ser “só” um personagem secundário, já representava uma esperança. Considerando que a Disney criou sua primeira princesa negra em 2009 (apesar de já ter princesas não-brancas há mais tempo), um personagem abertamente LGBT+ numa produção grande em 2017 soava como uma conquista.
Mas não foi o que aconteceu.

Logo nas primeiras cenas de LeFou, vemos que o personagem é extremamente afeminado. Isso não representa um problema em si. Não há nada de errado em um homem ser afeminado. O problema é como a produção desenvolveu uma narrativa que usa essa feminilidade como alívio cômico. Sim, a Disney fez um personagem “bichinha” para as pessoas rirem de sua “bichisse”.

Seja nas cenas em que LeFou mostra seu interesse por Gaston ou num take que foca especialmente na forma “não masculina” da dança do personagem, o motivo do riso é claro. Não é porque ele diz coisas que seriam engraçadas em qualquer personagem. Não é porque ele dança de uma forma que seria engraçada para qualquer personagem. É porque é um homem fazendo aquelas poses e caras afeminadas.

Não demorou muito para que, ao longo do filme, eu ficasse apreensivo quando ele aparecia em cena. Eu ficava um pouco tenso, só esperando qual seria a próxima risada que o público do cinema daria quando ele falasse ou fizesse algo que não é aceito para os ideais masculinos criados pela sociedade. E, infelizmente, eu estava sempre certo. Era ele abrir a boca pra falar alguma coisa que a plateia ria do “veadinho” na tela.

Além da feminilidade criada especialmente para ser ridicularizada, também tem a questão do personagem ser extremamente submisso ao homem-hétero-branco-cis-padrão-de-beleza. Sim, eu sei que essa submissão está presente na animação clássica (pelas poucas cenas que me lembro), mas esse posicionamento do personagem ganha outra leitura quando você o coloca como um gay extremamente caricata.

Essa relação dos dois reforça mais um estereótipo: o de que homens gays são perdidamente apaixonados por homens héteros (sic) e que, por isso, está “tudo bem” tratá-los mal porque, afinal, eles “gostam”. É claro que, no filme, LeFou passa a não aprovar certas atitudes de Gaston. Mas isso só acontece quando o vilão tenta assassinar o pai de Bela. Antes disso, quando o vilão está esbanjando sua visão machista por todo o vilarejo, LeFou é só amores por ele.

Ainda uma questão problemática nessa representação do personagem é o fato de ele ser gordo. Não bastasse a feminilidade exageradamente caricata, a Disney também faz um ótimo trabalho a serviço da ridicularização de pessoas gordas. Que me lembro, agora, são poucas cenas, mas, mesmo assim, estão ali. O momento em que ele tem dificuldade para subir na mesa ou Gaston mostrando como é forte porque “consegue levantar até o gordinho” são doídos de ver e são a cereja do bolo do show de horrores que a Disney apresentou ao criar o personagem desta forma.

Com certeza, fãs da animação clássica vão dizer que “o LeFou sempre foi gay”, “O LeFou sempre foi alívio cômico” e mais um monte de desculpas para justificar seus preconceitos. Como disse, não sei muito a respeito do personagem na animação de 1991 e não fui atrás de saber mais justamente porque não importa. Isso mesmo. Não importa como ele era, foi ou deixou de ser. Da mesma maneira que adaptaram certas características da Bela para que ela ganhasse o título de “empoderada pela Emma Watson”, poderiam ter feito mudanças positivas em LeFou para que ele não reproduzisse estereótipos que contribuem para uma cultura de aversão ao feminino.

Especialmente se esse “feminino” está num homem.

Não vou começar a explicar como essa aversão ao feminino pode parecer uma simples piada num filme, mas que é base para uma aversão muito maior que faz o Brasil, por exemplo, ser o país que mais mata transexuais no mundo. Afinal, é comum que pessoas transfóbicas entendam mulheres trans como “homens afeminados demais”. Não vou explicar isso porque a internet está cheia de conteúdo sobre o assunto, criado por pessoas que podem falar isso muito melhor que eu. Quem se interessar pelo tema não vai ter dificuldade em encontrar vídeos, textos, documentários e qualquer outra forma de comunicação sobre os problemas da desvalorização da feminilidade.

Não só o filme ridiculariza a feminilidade em homens com LeFou, mas também com outro momento que gostaria de destacar aqui: a cena em que o guarda-roupas joga tecidos nos capangas de Gaston. Quando aquilo aconteceu, aquela tensão que eu sentia ao ver o LeFou na tela veio à tona. Eu sabia o que ia acontecer. Dito e feito. Como se não bastassem os três homens aparecerem com roupas femininas – causando gargalhadas da platéia – um deles ainda sorri, indicando que gostou daquilo, o que faz o público rir ainda mais. Afinal, “como é ridículo um homem que se sente confortável em roupas femininas”, não é mesmo? Os assassinos de Dandara dos Santos que o digam (estou me referindo ao pensamento transfóbico de que “mulheres trans são homens com roupas femininas”, não que mulheres trans realmente sejam isso).

O objetivo desse texto é justamente refletir sobre como uma empresa que quis vender a imagem de “progressista” fez um excelente trabalho com o feminismo*, mas jogou merda no ventilador quando o assunto foi o ~primeiro personagem abertamente gay~. O desserviço foi tão grande que, quando chegou a cena final em que LeFou começa a dançar com um homem, ela nem teve a força que devia. Apesar de ser o ÚNICO momento em que um gay é representado no filme como um ser humano comum e não como um bobo da corte, a cena se perde em meio a todas as outras que deixaram bem claro que LeFou estava ali para ser o gay-motivo-de-risada-da-turma.

Um filme de 2017 reproduzindo estereótipos tão arcaicos e conservadores até surpreende. Principalmente depois da excelente representação que os figurantes homossexuais tiveram na série Star vs. As Forças do Mal (veja só, essa representação foi excelente porque eles foram tratados como pessoas comuns, não como palhaços).
Chega até a ser estranho como a empresa se focou tanto no feminismo, contratando uma atriz que construiu seu marketing pessoal em cima disso e fazendo alterações positivas na protagonista, mas se esqueceu de todo o resto. Não, Disney, não adianta fazer um filme que empodere mulheres e achar que só isso basta. É importante, sim, atualizar suas histórias em relação à representação feminina, mas ela não é a única que foi mal desenvolvida nas representações midiáticas do passado.

Não estou dizendo que a Disney é uma péssima empresa e que merecer ser boicotada como alguns querem fazer (risos), até porque, dentro das informações que tenho, ela é uma das empresas mais preocupadas com toda a questão de representatividade. Não só com Emma Watson fazendo a Bela desconstruída, mas também com outras ações como procurar atores chineses para o filme live action da Mulan, atores do oriente médio para o live action de Aladdin e músicos da Polinésia para Moana. Se isso é realmente uma preocupação com os públicos mal representados no audiovisual ou se é puro marketing, já é outro debate, para outro texto. Mas, justamente por ser uma empresa tão atenta às demandas de movimentos sociais é que me surpreendi – negativamente – com a falta de cuidado ao retratar um personagem gay no filme.

Sei que esse texto não é o único sobre a péssima representação do LeFou e sei que a Disney vai estar atenta a todas essas pessoas ao redor do mundo que vão estar apontando os problemas desse personagem. Afinal, a procura de artistas chineses para o filme da Mulan, por exemplo, só foi anunciada depois de muita gente exigir por isso na internet. Se foi realmente por isso, nunca vamos saber, mas dificilmente essa ideia partiu exclusivamente dos diretores brancos, héteros, cis e ricos da empresa.

Sei que a Disney vai melhorar cada vez mais sua atenção em relação a esses estereótipos e fico feliz que as crianças de 2017 tenham uma versão de “A Bela e a Fera” que mostre uma protagonista mais independente e forte. Mas espero que o erro que fizeram com LeFou não se repita em futuras produções, seja com personagens LGBT+ ou com qualquer outro tipo de minoria.

*Lembrando que sou um homem, então talvez o feminismo apresentado no filme não seja avaliado como “excelente” por mulheres, que são quem realmente podem falar com propriedade sobre o assunto.

Sobre Gregory Damaso

Estudante de Comunicação que adora todo tipo de arte. Fã declarado de cultura pop maisntream, é do tipo que não para de falar do filme ou série depois que termina de ver.

Veja Também

Pela primeira vez na história “The” Doctor de Doctor Who será uma mulher, mas a luta continua

16 de Julho de 2017 e em um vídeo a BBC revelou a identidade da …

  • Tieser Centeno

    com relação a representação do personagem LeFou, na minha primeira impressão acreditei que fosse por causa daquele velho pensamento pré-conquistas lgbt+: “tudo bem um homem ser gay, mas bicha?! desnecessário, né, ele ‘QUERER’ ser efeminado…!” que não deixa também de ser uma ideia misogena, alem de transfóbica(como vc mesmo disse), porque idem dentro de uma frase que vc falou: “é desvalorização ao feminino”…!

    então, penso poder dizer que ouve sim um (GRANDE!) avanço [talvez] por parte da representação da personagem de Emma Watson, mas também um retrocesso feminista por colocar um personagem não-feminino feminilizado sendo ridicularizado por causa de sua feminilidade e o filme colocando isso como sendo (no mínimo!) “aceitável”…

  • Tieser Centeno

    com relação a representação do personagem LeFou, na minha primeira impressão acreditei que fosse por causa daquele velho pensamento pré-conquistas lgbt+: “tudo bem um homem ser gay, mas bicha?! desnecessário, né, ele ‘QUERER’ ser efeminado…!” que não deixa também de ser uma ideia misogena, alem de transfóbica(como vc mesmo disse), porque idem dentro de uma frase que vc falou: “é desvalorização ao feminino”…!

    então, penso poder dizer que ouve sim um (GRANDE!) avanço [talvez] empoderadora por parte da representação da personagem de Emma Watson, mas também um retrocesso na parte feminista do elenco por colocar um personagem não-feminino feminilizado sendo ridicularizado por causa de sua feminilidade e o filme colocando isso como sendo (no mínimo!) “aceitável”…

  • Tieser Centeno

    com relação a representação do personagem LeFou, na minha primeira impressão acreditei que fosse por causa daquele velho pensamento pré-conquistas lgbt+: “tudo bem um homem ser gay, mas bicha?! desnecessário, né, ele ‘QUERER’ ser efeminado…!” que não deixa também de ser uma ideia misogena, alem de transfóbica(como vc mesmo disse), porque idem dentro de uma frase que vc falou: “é desvalorização ao feminino”…!

    então, penso poder dizer que ouve sim um (GRANDE!) avanço [talvez] empoderadora por parte da representação da personagem de Emma Watson, mas também um retrocesso na parte feminista do elenco por colocar um personagem não-feminino feminilizado sendo ridicularizado por causa de sua feminilidade e o filme colocar isso como sendo (no mínimo!) “risível”…