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Indicação Nerd | Minissérie – When We Rise

Uma das formas mais conhecidas de controle de um povo é apagando sua história. Isso sempre foi comum durante as guerras. O “vencedor” destruía tudo referente a história e a cultura do “derrotado”, e assim suas memórias, vitórias e derrotas se perderiam com o tempo. Por este motivo sabemos muito pouco sobre o passado dos negros, o passado dos indígenas e também do nosso, LGBTs.

Durante muito tempo a história de travestis, lésbicas, trans, gays e bissexuais foram deixadas de lado (ou apagadas) nos livros de histórias. A sociedade heteronormativa fez com que as apenas doenças e tragédias fossem associadas as histórias dos LGBTs, por isso poucos conhecem os feitos de Bayard Rustin, Montgomery Clift e Harvey Milk. Este último já foi retratado no filme MILK, porém de uma forma mais individual.

When We Rise mostra o mesmo período em que Harvey Milk viveu porém, abordando de forma mais ampla os movimentos pelos direitos dos LGBTs e das mulheres na década de 70 nos Estados Unidos.

A história é baseada no livro de Cleve Jones (interpretado por Guy Pearce, adulto, e Austin P. McKenzie, jovem) onde ele conta suas memórias desde que se assumiu sua homossexualidade, passando pelas lutas que participou nos grupos LGBTs e de mulheres. Ao completar 18 anos, Cleve se assume gay para o pai, um médico psiquiatra, que sugere um tratamento para “solucionar o problema” do filho. Cleve então deixa o Arizona e se muda para São Francisco, em busca de um lugar onde possa ser ele mesmo, inspirado principalmente pelas notícias do que aconteceu em Stonewall.

Somos apresentados também Roma Pauline Guy (interpretada pela cantora e atriz Emily Skeggs) é uma jovem que estava em missão de paz no Togo, com sua companheira Diane (Fiona Dourif), mas que retorna aos EUA por fazer parte do movimento sufragistas. Roma ainda não entende sua sexualidade e é adepta de manifestações pacíficas, mas tudo isso irá mudar com as coisas que ela encontra em São Francisco.

Ken Jones (Jonathan Majors) é um membro da marinha americana, que esteve na guerra do Vietnã, e mantém um relacionamento com um colega de tripulação, Michael. Devido a uma fatalidade, Ken é transferido para São Francisco e lá tenta encontrar um sentido para sua vida, primeiramente na sua religião. Ele conhece um bar onde dragqueens e gays frequentam, e se sente livre. Lá conhece Mama Rose que abre seus horizontes sobre sua busca e seus medos.

Ken, Cleve e Roma se conhecem nesse bar e as histórias destes três personagens serão ligadas, pouco a pouco, cada um buscando coisas diferentes, mas com um objetivo em comum.

A minissérie traz imagens reais de pessoas que lutaram contra e a favor dos direitos das mulheres e dos LGBTs. Os acontecimentos apresentados são todos verídicos e facilita a compreensão de como foram as lutas pelos direitos que muitos hoje acham tão banais. When We Rise mostra como a política e a polícia cumprem um papel vital na manutenção dos preconceitos e da discriminação, através do medo e da desinformação.

Outra coisa interessante de se observar em When We Rise são as relações de poder entre os grupos. Movimentos de minorias, apesar de possuírem objetivos em comum, muitas vezes não conseguem desestruturar a rede de poder que reproduz a opressão devido à falta de empatia entre elas. Mulheres feministas que não aceitam lutar ao lado de homens, homens gays que não querem se envolver me manifestações de mulheres, homens gays brancos que discriminam gays negros, etc.

O poder, como diria o filósofo Michel Foucault, deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado em um único grupo ou pessoa, nunca está em mãos de alguns. O poder funciona e se exerce em rede, e nós somos parte disso tudo. Fortalecemos o sistema de opressão quando não reconhecemos nossos privilégios e os outros grupos que sofrem outros tipos de discriminação e preconceito.

A minissérie é a primeira (se não for, me avisem nos comentários) a retratar um personagem gay negro que existiu na vida real e os preconceitos que este sofreu dentro do próprio movimento LGBT, algo comum, mas que muitos ignoram e ou minimizam.

When We Rise também mostra como a luta contra os direitos dos LGBTs afetava (afeta) também heterossexuais e outros grupos da sociedade: como as mães solteiras que eram vistas como ameaça a “família tradicional”; pessoas que apoiavam o movimento LGBT e foram demitidas na época; crianças que eram retiradas de casais homoafetivos e eram institucionalizadas; etc.

Algo que falta ainda nas produções LGBTs é contar as histórias de pessoas que a sociedade apagou das páginas dos livros de histórias. Um povo sem passado é um povo que não conhece suas raízes e suas vitórias, e isso também vale para nós, LGBTs.

Conhecendo as dificuldades que aqueles que vieram antes de nós passaram para que tivéssemos os direitos que temos hoje, nos manterá alerta e conscientes de que nada do que temos hoje foi dado ou conquistado de forma pacífica. Acho enriquecedora uma produção como esta para uma geração que acredita que militância e a mudança de leis se dá através de views no YouTube e curtidas no Facebook.

A primeira temporada da série tem 8 episódios e com a participação de atores consagrados, como Whoopi Goldberg (que já participou de campanhas a favor dos direitos dos LGBTs, como o True Colors Fund) e Guy Pearce (Amnésia). A produção é belíssima, cheia de trechos verídicos de personalidades históricas, como Harvey Milk, e retrata uma São Francisco da época dos anos 70 de forma bastante fiel.

When We Rise foi escrita por Dustin Lance Black, que também escreveu o filme MILK e a série Big Love. WWR foi exibida nos EUA pela ABC e tem previsão de ser exibida no Brasil em Julho, pelo canal Sony, mas sem um título nacional.

Promo Legendado da série:

Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana. Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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