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A representatividade nas HQs está acabando com a Marvel?

Na semana passada, o vice-presidente de vendas da Marvel, David Gabriel, em entrevista para a ICv2.com, disse que a diversidade estaria prejudicando as vendas das HQs  da editora.

Segundo David:

“O que nós ouvimos é que as pessoas não querem mais diversidade. Eles não querem personagens femininos por aí. Isso foi o que ouvimos, quer você queira acreditar ou não. Eu não sei se isso é verdade ou não, mas foi isso que nós vimos nas vendas. O que nós vimos nas vendas foi que qualquer personagem que era novo, nossos personagens femininos, qualquer coisa que não era um dos principais personagens da Marvel, as pessoas estavam virando a cara. Isso foi difícil para nós pois tínhamos várias ideias frescas, novas e empolgantes que estávamos tentando divulgar e nada estava realmente funcionando.”

Essa afirmação já foi o suficiente para grupos LGBTfóbicos, racistas e machistas, que se denominam nerds, utilizarem como defesa de seus discursos preconceituosos.

Quem acompanha o Gay Nerd Brasil, já sabe sobre nossa posição em relação a diversidade nas séries, filmes, quadrinhos, novelas, animações e etc. Por isso decidimos falar um pouco sobre a representatividade nas histórias em quadrinhos e explicar porque a diversidade nas histórias da Marvel não é a causa na queda das vendas.

Há muito tempo atrás…

A queda na venda das histórias em quadrinhos não é um tema recente, diferente do que muitos novatos possam achar. Este tema é amplamente debatido há décadas e não somente nas HQs, mas em todas as publicações impressas do planeta.

Diversos jornais e revistas já foram cancelados, e aqueles que sobreviveram estão constantemente realizando cortes e reduzindo seu quadro de funcionários, pois o consumo de produções impressas cai a cada ano. Isso é um fato.

E um dos motivos disso é a internet. Pessoas compram menos revistas, jornais, livros e quadrinhos, afinal praticamente tudo está a um clique de distância.  Ninguém precisa esperar o dia seguinte para comprar o jornal e saber de (quase) todas as notícias do mundo. Assim como ninguém precisa mais esperar 6 meses para ver aquela HQ do seu personagem preferido nas bancas. Histórias em quadrinhos atualmente são traduzidas e divulgadas na internet quase que instantaneamente após sua publicação nos EUA.

Este é um dos motivos que faz a venda das HQs cair anualmente.

Há 40 anos atrás, por exemplo, tínhamos dezenas editoras que publicavam histórias de personagens que muitos aqui nunca ouviram falar, que fugiam do eixo Marvel/DC. Outro exemplo de como a queda nas HQs não é algo atual, é a mudança das publicações da Marvel e da DC pela empresa Abril Jovem para a Panini Comics na década de 90. A editora Abril perdeu o direito de vendas destas editoras aqui no Brasil para a italiana Panini, demitindo centenas de funcionários e um rombo em suas vendas mensais.

A própria Marvel quase fechou as portas na década de 90, devido aos números ridículos de vários seus títulos. Com exceção de Homem-Aranha, seus outros títulos encalhavam nas bancas de jornais, gerando prejuízos, demissões e vários heróis caindo no esquecimento. A Marvel foi salva por Joe Quesada (que assumiu o cargo de editor-chefe, na época e salvou a editora) e a venda de vários personagens para que estúdios como a Fox e a Sony pudessem produzir filmes de seus personagens (algo que muitos fãs novatos da Marvel esquecem e reclamam, sem Fox e Sony vocês não teriam uma Marvel Studios hoje).

Então, sites “nerds” sempre irão apresentar o título “queda nas vendas das HQs”, praticamente todo o ano, o que irá mudar será apenas o motivo que os profissionais de marketing e vendas das editoras irão utilizar para justificar esta queda. E aqui está o ponto.

Histórias ruins, vendas ruins

Nenhum CEO ou presidente sênior de vendas irá justificar seus números com um “vendemos pouco por que nosso trabalho foi uma merda”.

Não importa se você gosta da Marvel ou da DC (ou se é iluminado e ama a Image), editoras sempre lançam histórias ruins. Se pensarmos que Batman e Superman possuem mais de 75 anos de existência, é impossível lançar boas histórias toda semana por 75 anos seguidos! A criatividade possui um limite e quem escreve (moi), desenha e produz algo sabe disso, e em algum momento as ideias se esgotam. E neste momento coisas ruins são produzidas ou são repetidas.

Batman, por exemplo, está no TOP 10 de vendas de quadrinhos mensalmente, mas isso não o deixa livre de histórias ruins seja na época das cavernas, no Egito Antigo ou no Cavaleiro das Trevas 2.

Mas e a representatividade?

Primeiro de tudo precisamos saber de qual representatividade as editoras estão falando. Para quem não lê sobre equidade e igualdade, a palavra representatividade virou um rótulo para tudo aquilo que não é HOMEM, BRANCO e HÉTERO. Apesar de possuírem coisas em comum, os movimentos LGBTs, negros e das mulheres são diferentes e aceitos de formas diferentes na sociedade também.

Quer um exemplo? Muitos “nerds” racistas reclamaram quando John Stewart foi escolhido como o Laterna Verde da série animada Liga da Justiça. Porém, passou. Essas manifestações seriam muito piores e continuariam até hoje, se o personagem fosse gay.

O mesmo aconteceu com a Poderosa Thor. Vários machistas reclamaram de que o título Thor seria dado a uma mulher. Mas a Marvel manteve o filho de Odin vivo e com uma história paralela, para acalmar os “nerds” raivosos. E o Mjölnir foi para uma mulher, branca, hétero e “gostosa”, então “tá tudo bem”.

Mas quando os heróis são LGBTs as coisas ficam diferentes, como é o caso do Meia-Noite, que não foi incluído em DC Rebirth, ou Jovens Vingadores que foram pra geladeira, ou o Estrela Polar que casou e passa seus finais de semana fazendo maratona da Netflix. Estes heróis existem, para manter a pose das editoras de representatividade, mas não uma representatividade significativa que ameace o lucro delas.

Então, a representatividade de que estão utilizando como justificativa não fica muito clara, afinal não há nenhum título na Marvel que represente os LGBTs, logo não é responsável pela suas vendas. Quanto aos personagens negros, existem hoje Luke Cage, Pantera Negra, Homem-Aranha Miles Morales, a Riri Williams, a Ms. Marvel e a America Chavez, e apenas as últimas tiveram um título próprio, que não foram nada mal em vendas.

Quanto a personagens femininas, elas estão entre as HQs mais vendidas da editora, especialmente a Poderosa Thor e Elektra. No mês de Fevereiro de 2017, por exemplo, foram as HQs mais vendidas da Marvel atrás apenas do Homem-Aranha e do Indigno Thor.

Então qual é o problema?

Então de qual representatividade eles estão falando? Quais são estes personagens que estão “derrubando” as vendas de histórias em quadrinhos da Marvel? Por que a concorrente DC Comics conseguiu US$ 165000,00 com as vendas de Love Is Love? Por que o título de Batwoman (mulher e lésbica) está entre as 20 HQs mais vendidas? Por que Mulher-Maravilha e Arlequína estão sempre nas listas das mais vendidas?

A resposta é: boas histórias.

A Marvel vem numa sequência de histórias ruins e mega sagas que ninguém mais quer acompanhar. Guerra Civil II, apesar de ótimas ilustrações e uma boa premissa, manteve-se aos trancos e barrancos, com uma história repetitiva e pouco original. Guerras Secretas II a mesma coisa, velho roteiro com novos personagens. Fora que em menos de dois anos foram 3 mega sagas, que torna impossível de qualquer um acompanhar tudo isso. Comprar praticamente 30 edições mensalmente para poder acompanhar (e entender) uma saga se tornou insustentável.

Ninguém mais irá fazer este tipo de loucura, ou fará pela boa e barata internet. E mesmo assim, os fãs irão escolher seus personagens preferidos (geralmente, Homem-Aranha e Batman) e não irão arriscar seu suado dinheirinho numa publicação nova.

Então por que a representatividade é utilizada como justificativa para as baixas vendas? Porque é um segmento ainda frágil e fácil de ser atacado.

Nestes últimos dias, vários homofóbicos aproveitaram esta notícia para destilar seus discursos preconceituosos do tipo:

Ou seja, jogando a culpa das baixas vendas na representatividade das minorias, a Marvel se mantém isenta de suas histórias ruins, suas divulgações medíocres e ainda justifica a não mudança na realidade de seus personagens. Isso pode parecer confortável para a editora agora, mas terá um alto preço no futuro.

Mas queria deixar uma reflexão sobre tudo isso aqui. A representatividade nas HQs possui uma importante mudança social e torna o mundo um lugar mais justo. Se isso fizesse você ganhar alguns milhares de dólares a menos, você mudaria?

Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana. Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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  • Guilherme

    Super concordo contigo. As HQs da marvel ficaram a muito tempo chatas , maçantes de se ler e com personagens nada envolventes, a última estória boa que nos quadrinhos dessa editora foi em thor #5 na saga do carniceiro dos deuses. Infelizmente esse comentário do vice abriu espaço pros preconceituosos de plantão falarem merda sem nem saber o q se passa na indústria de quadrinhos. Queria tbm acrescentar q fizeram um reboliço com certos personagens tornando-os bem menos populares como aconteceu em Homem de ferro superior , onde o personagem exibiu seu lado malvado. Ótimo texto, adorei como vc abordou de forma geral o mundo das HQs.

    • Michel Furquim

      Obrigado pelos elogios, Guilherme!
      Atualmente estou acompanhando DC Rebirth (Detective Comics, Batman e Flash), e está interessante. Mas como você disse, as histórias atualmente estão maçantes e, muitas vezes, repetitivas.
      Abraço