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Precisamos falar sobre a mudança de etnia em personagens ficcionais

Mês passado, uma atriz negra foi anunciada em Deadpool 2 (2018) no papel de Domino, uma personagem originalmente branca nos quadrinhos.

Nesse ano, ainda, tivemos RJ Cyler, ator negro, no papel de Billy em Power Rangers (2017), o ranger azul que também é branco em sua versão original, na série de televisão.

Estes dois são apenas alguns dos vários exemplos de personagens que tiveram sua etnia alterada em adaptações cinematográficas. Uma prática que está se tornando cada vez mais comum e que tem gerado muita discussão entre o público.

Zazie Beetz vai interpretar Domino em Deadpool 2

De um lado, os fãs mais radicais dizem que essa alteração descaracteriza os personagens, prejudicando a adaptação e desrespeitando a obra original. De outro, os fãs mais abertos a mudanças e que não veem a etnia do personagem como característica fundamental para a narrativa ou que gostam de ver maior representatividade de etnias não muito representadas.

De toda forma, é importante analisar os dois lados antes de tirar qualquer conclusão precipitada. Até porque, apesar de estar acontecendo com mais frequência agora, esse fenômeno não é novo e tem significados que vão além do universo em que se passa a narrativa.

Alguns casos como estes já aconteceram antes. Uma discussão bem recente sobre o tema surgiu quando o ator Michael B. Jordan foi escolhido para interpretar o Tocha Humana no filme Quarteto Fantástico (2015). Assim como aconteceu quando Michael Clarke Duncan apareceu como Rei do Crime no filme Demolidor (2003).

Michael B. Jordan foi o Tocha Humana na adaptação de 2015

Estas escolhas colocaram atores negros para interpretar personagens originalmente brancos e muita gente não gostou. Os fãs explicam que se um personagem é concebido pelo autor com determinadas características, não é função do diretor ou da equipe de produção de um filme alterá-las. Esses fãs dizem que não são racistas, sempre falando que não teriam queixas caso os personagens fossem originalmente negros.

Aqui no blog, já comentamos sobre essa indignação no nosso especial do Dia da Consciência Negra, onde citamos o caso do ator Keith Stanfield para interpretar ‘L’ no Live Action de Death Note e quando foi considerada a possiblidade da atriz Zendaya interpretar a Mary Jane em Spider Man Homecoming. Também vimos isso nos quadrinhos com polêmicas envolvendo Riri WilliansMiles Morales.

Esse argumento faz sentido, de certa forma. É compreensível que fãs de uma obra sejam fãs exatamente por gostarem dela da forma como foi criada. Seguindo esta lógica, então, da fidelidade aos personagens originais, seria natural que esses fãs também se sentissem incomodados quando personagens não-brancos são interpretados por artistas brancos. Mas não é isso o que acontece.

Em muitas produções, personagens negros, asiáticos, indígenas e de diversas outras etnias são interpretados por artistas brancos. É o caso do filme Vigilante do Amanhã – Ghost In The Shell (2017), que escolheu a americana Scarlett Johansson para dar vida à Major Motoko Kusanagi, uma ciborgue japonesa. Ou quando o personagem persa Príncipe Dastan, de Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo (2010) foi interpretado pelo ator estadunidense Jake Gyllenhaal.

Scarlett Johansson no papel da Major em Vigilante do Amanhã – Ghost In The Shell

Apesar desses exemplos recentes, a prática de utilizar pessoas brancas em papéis não-brancos é muito antiga. Em 1944, a atriz americana Katharine Hepburn interpretou uma chinesa no filme A Estirpe do Dragão (1944). Na produção, a atriz foi maquiada para parecer asiática. O mesmo aconteceu em 1965, quando Laurence Olivier, um ator branco, interpretou o personagem título do filme Othello (1965), que é negro. A produção, ao invés de alterar a etnia do personagem, preferiu mantê-lo negro. Assim, Laurence foi maquiado a fim de apresentar uma pele mais escura.

Kathernie Hepburn e Laurence Olivier, maquiados para parecerem chinesa e negro, respectivamente.

Essa prática de usar maquiagem para “mudar” a etnia de um ator branco é antiga e bem ofensiva. No caso dos negros, se chama “Blackface” e era usada em filmes e peças teatrais americanas entre os séculos XIX e XX. Existe, ainda, o caso de pessoas brancas passando-se por asiáticos, prática conhecida como “Yellowface”. Um dos exemplos mais famosos é o personagem de Mickey Rooney em Bonequinha de Luxo (1961), um chinês caricato que serve como alívio cômico no filme.

O problema com essas representações é que a narrativa usa personagens não-brancos, mas não dá oportunidades para que artistas não-brancos os representem. Isso faz com que as produções continuem sendo monopolizadas por artistas brancos. Isso é um problema porque as obras falam sobre diferentes etnias, mas sob a ótica da cultura branca ocidental europeia, uma vez que artistas não brancos não tem oportunidade de falar sobre a própria etnia. Isso quer dizer que, muitas vezes, características dos negros ou rituais indígenas, por exemplo, são vistos como “exóticos”, “estranhos” ou “engraçados”.

Essa visão de que sua cultura é superior ou melhor que outra é chamada de “etnocentrismo”. Um termo da antropologia que serve para alertar as pessoas para o fato de que não se deve enxergar uma cultura com os olhos de outra.

O etnocentrismo nas representações midiáticas é problemático porque, ao representar negros, asiáticos, indígenas, latinos e outras etnias de forma caricata e estereotipada, a ideia de que elas são inferiores ou engraçadas é propagada e confirmada. Apesar de acontecer em filmes de ficção, essa ideia não fica restrita às salas de cinema e acaba tendo consequências na vida de pessoas reais que pertencem a essas etnias mal representadas.

Voltando às discussões de personagens brancos que ganham outras etnias em adaptações, muitas pessoas argumentam que a melhor estratégia para uma maior inclusão de atores não- brancos no cinema seria criar novos personagens que tivessem outras etnias. Desta maneira, segundo essa lógica, a obra original não seria alterada e artistas de diversas etnias poderiam ter a mesma chance de aparecer nas telas.

Infelizmente, essa solução não é tão eficiente na prática. Os personagens mais famosos que existem na cultura mainstream são orginalmente brancos e ocidentais. Sim, é possível criar novos personagens não-brancos, como a Marvel vem fazendo em seus quadrinhos, como Amadeus Cho, um Hulk asiático ou Miles Morales, um Homem-Aranha negro. Mas esses personagens são infinitamente menos conhecidos que Bruce Banner ou Peter Parker, personagens que já tem mais de 50 anos de existência. O que faz com que seja muito mais difícil que o cinema escolha fazer um filme com eles ao invés dos personagens que já são bem mais famosos.

Amadeus Cho, o Hulk de origem coreana

O motivo para os personagens brancos serem mais conhecidos é óbvio. Muitos deles foram criados no passado, quando as discussões sobre etnias não tinham o alcance que tem hoje. E, mesmo os personagens mais atuais continuam sendo majoritariamente brancos. É só ver como alguns filmes nerds desse ano (Resident Evil 6: O Capítulo Final, Logan, Anjos da Noite: Guerras de Sangue, A Bela e a Fera, Power Rangers) tem protagonistas americanos ou europeus. E todo mundo sabe que essa hegemonia de brancos está ligada à colonização europeia no mundo, aquela que todos nós estudamos na escola como se fosse um favor que a Europa fez em levar “modernidade” aos povos “primitivos”.

Por isso, mesmo que sejam criados novos personagens não-brancos (o que é, sim, muito importante), apenas essa tática não vai fazer com que eles sejam tão representados quanto os personagens brancos são hoje e foram no passado. Isso faz com que a escolha de artistas negros, por exemplo, para interpretar personagens brancos seja importante. Não é apenas uma escolha relacionada àquela obra em si, mas sim ao histórico do cinema que não só negou oportunidades a essas etnias, mas também as representou de forma caricata e estereotipada. É uma forma de reequilibrar a representatividade, dando espaço para que todas as etnias – inclusive os caucasianos, claro – sejam representadas com respeito e empatia.

Por Angresson da Silva e Grégory Damaso

Sobre Gregory Damaso

Estudante de Comunicação que adora todo tipo de arte. Fã declarado de cultura pop maisntream, é do tipo que não para de falar do filme ou série depois que termina de ver.

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  • Eduardo

    O que se esquece nessa discussão é o papel do marketing. Para ficar só em Ghost In The Shell, a visão dos produtores é “Que atriz japonesa atualmente é um chamariz de bilheteria tão forte quanto Scarlett Johansson? NENHUMA.” Atrizes chinesas são mais “fáceis de encontrar”, e até Pryianka Chopra (atriz indiana que está na série Quantico), que está em ascensão em Hollywood, seria uma opção, mas a polêmica cotinuaria. Se fosse um homem no papel principal, o ator poderia até ser visto como um “novo Jason Statham”, por exemplo, e GITS cairia num outro “nicho de mercado” e vida que segue.
    Reforçando: estou falando de marketing, não de gênero. E aí é uma situação de Hollywood em particular: o quanto o cinema americano de massa, mesmo em 2017, está aberto a atores/atrizes de outras etnias e/ou nacionalidades, produzindo e consumindo filmes em que sejam protagonistas?