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Quando você não é o padrão

Quem nunca fantasiou com aquele crush loiro dos olhos claros?

Talvez você até goste de um moreno, mas ele tem que ser sarado? Se o cara for negro e não tiver um pauzão ele cai no seu conceito? Você já parou para pensar que talvez esse seu amor por um corpo “definido” seja apenas mais uma imposição?

A imagem que ilustra esse post foi capturada do meu desktop, eu não consegui me identificar com nenhum desses estereótipos, mas não é só na busca do Google que percebemos os padrões, eles estão no nosso dia a dia. As pessoas os reforçam sem sequer terem conhecimento disso. Talvez você leitor seja assim como eu, alguém que não se encaixa nos padrões da sociedade, alguém que desde a adolescência nunca foi o tipo pelo qual xs garotxs se apaixonavam e junto com isso veio o fato de ser uma pessoa diferente, que pensa numa frequência meio desajustada do resto da sociedade.

Não ser o padrão pode te encher de questionamentos, ao mesmo tempo em que a batalha para se encaixar naquilo que é esperado pela maioria te obriga a seguir alguns caminhos que você não deseja, isso vai desde tentativas frustradas de alisar os cabelos ou entrar na academia e transformar seu corpo em algo, no mínimo, “desejável”.

(In) Felizmente isso faz com que você se torne uma pessoa diferente, as vezes é o(a) engraçadx, ou criativx, mas ainda assim algo dentro de você te diz que você não é como as outras pessoas e que por mais que tente não vai conseguir atingir o patamar necessário para que te olhem com mínimo de respeito, ou apenas para que não te olhem.

Já faz algum tempo desde que ser nerd subiu a superfície e se tornou algo mainstream, os óculos, o amor pelos filmes de heróis, quadrinhos e jogos se mesclou a grande mídia e como não poderia deixar de acontecer foi absorvido pelo padrão. Aos poucos o gordo granudo passou a ser substituído pela imagem do homem/mulher nerd branco de cabelo liso, com o corpo torneado e que utiliza óculos quadrado maior que seu rosto. E mais uma vez as pessoas que não se encaixam no padrão ficam excluídas, o(a) nerd gordx, negrx, afeminadx  continua sendo relegadx a margem. Além delxs existem também xs travestis/transexuais/intersexuais que por muitas vezes sofrem por não se encaixarem no padrão heteronormativo de ser.

Não fazer parte do padrão significa muitas vezes buscar refúgio em outros locais, como por exemplo a internet. Ela por muitas vezes pode nos iludir com a sensação de que as pessoas que estão ali fazem parte de uma sociedade dotada de um conhecimento quase que infinito, mas lembre-se, ter acesso a fontes de conhecimento não quer dizer que as pessoas vão utiliza-las, então, até mesmo nas interwebs em algum momento o fato de não seguir alguma norma imposta vai incomodar alguém e algo ofensivo vai aparecer na sua timeline, muitas vezes disfarçada de opinião.

Cada um faz um uso diferente de cada ferramenta e por mais que a internet esteja aí para nos expor aos diversos tipos de pensamentos, isso não quer dizer que nós façamos parte da maioria. Nós vivemos num pais onde a minoria das pessoas tem acesso à internet, apenas as maiores capitais têm acesso a uma banda larga decente, além disso, nos interiores do Brasil quando muito existe a conexão feita pelo celular nos planos pré-pagos.

O fato é que as grandes capitais, que detém o maior acesso a informação e a internet, ainda assim são aquelas responsáveis por reforçar estereótipos. Ainda em 2017 discutimos sobre a troca de etinia dos personagens dos quadrinhos nos cinemas, isso apenas mostra a resistência que as pessoas tem para aceitar aqueles que não seguem o padrão branco e heteronormativo de ser. Gastamos muito tempo nessas discussões que são importantíssimas, afinal vivemos num momento de transição, onde estamos discutindo e mudando diversos valores antigos, esse é um processo difícil e cansativo, mas precisamos passar por ele.

Não se encaixar no padrão vai além do corpo. Manter um pensamento que não se encaixa no esperado pela maioria das pessoas é difícil, se relacionar com as fortes amizades e respeitar os pontos de vista opostos é uma tarefa muito árdua, que exige muito do psicológico e que infelizmente é difícil de se sustentar, mas essa é uma atitude necessária. Nós estamos vivendo um momento onde as pessoas estão aprendendo a se relacionar com as novas tecnologias, as redes sociais abriram a possibilidade para que muitas vozes fossem finalmente escutadas e o revés disso é que vemos um lado da nossa sociedade que antes era obscuro, o preconceito para com aquilo que é diferente.


Mas voltando ao padrão estético.

Você já andou pela rua e teve a sensação de estar sendo observado? Você já obteve a confirmação ao cruzar olhares com outras pessoas quando está simplesmente passando por um shopping? Talvez por diversas vezes você já deve ter imaginado que tinha algo no seu rosto ou que determinada pessoa estava demonstrando algum interesse por mais estranho que seja o olhar. Mas pare para pensar um pouco e reflita, talvez não tenha nada no seu rosto, talvez, e em muitas das vezes é realmente isso, as pessoas estão reparando em você. Existem vários aspectos que não se encaixam no padrão: peso, cabelo, roupas, cor da pele e muitos outros que vão fazer as pessoas te olharem julgando quem você é e automaticamente formando uma opinião sobre você sem nem ao menos te conhecer.

Ser alvo das atenções pode parecer algo legal num primeiro momento, mas quando você toma conhecimento de que as pessoas estão te julgando como algo ruim e as vezes até mesmo com desgosto não é nada positivo. Muitas vezes isso não fica apenas no olhar (quem dera se fosse apenas esse o problema), mas também nas atitudes das pessoas, como por exemplo, com comentários que num primeiro momento podem parecer inocentes, mas para a pessoa que está escutando aquilo pode soar extremamente ofensivo. É difícil se policiar para não ofender o coleguinha, por isso muitas pessoas reagem de forma negativa quando você bate de frente com algum comentário preconceituoso e continuam repetindo o ato mesmo assim.

A imagem foi encontrada nesse site e inclusive, recomendo a leitura da entrevista.

Se você trabalha ou se relaciona de alguma forma com outras pessoas basta apenas um dia de observação para perceber como muitas delas valorizam apenas aquilo que é o padrão, quem são pessoas apontadas como bonitas, que despertam suspiros e comentários positivos sobre aparência? Observe as propagandas exibidas na TV, nos panfletos, nos outdoors, nas revistas e me diga quantas pessoas que diferem das imagens que você viu no início do post.

Mas vou deixar aqui uma dica carx coleguinha fora do padrão, continue confrontando os pré-conceitos do dia-a-dia, mas escolha as batalhas que você quer lutar. Não é necessário enfrentar o mundo inteiro, isso cansa e é muito doloroso, portanto, fale com quem estiver disposto a ouvir e com quem não quiser procure outras maneiras de desconstruir os preconceitos da pessoa. Utilize a internet como ferramenta de apoio para aqueles momentos em que você se não se sentir muito bem, existem diversos grupos onde você poderá se sentir acolhido. E mais importante, não deixe de sair as ruas, quando os olhares recaírem sobre você, levante a cabeça e se necessário saia desfilando como a Beyoncé e jogue na cara da sociedade que independentemente de ser “direfentão” você está no mundo e merece circular no por ele tanto quanto qualquer outra pessoa.

Sobre Angresson da Silva

Nascido em 88, ariano, meio diferentão devido ao ascendente em aquário e que adora conhecer novos animes, mangás, HQ's, jogos, filmes e séries, sempre se preocupando com a representatividade em todas essas mídias. Ainda não formado, mas gosta de escrever suas opiniões e se auto intitula um Nerd Fajuto por não se identificar com os padrões de muitos Nerds.

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  • Victor Diomondes

    Texto maravilhoso. E me representa. Parabéns.