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Diário de um Nerd – Salvem os “padrãozinho”

Na última semana, o Twitter – posteriormente as outras redes sociais – se tornou palco para uma batalha que está se tornando cada vez mais comum nos grupos e aglomerados LGBTQs: os Padrõezinhos Vs os Descontruidxs. Desta vez, o pivô da batalha (que em breve pode ganhar uma adaptação dos irmãos Russo) foi o youtuber Luba.

Pra quem não conhece – eu mesmo só descobri quem era, durante a CCXP 2015, quando ele foi convidado para um debate sobre diversidade no mundo nerd (?) – Luba é o criador do canal do YouTube LubaTV, onde o rapaz fala sobre assuntos diversos e seu cotidiano. Ele é gay assumido e por este motivo possui uma legião de fãs entre os LGBTQs.

Claramente, Luba possui características que o encaixam no padrão de beleza institucionalizado em nossa sociedade, conhecido vulgarmente nos dias de hoje como “padrãozinho”. Alguns seguidores e críticos do canal do rapaz apontaram este fato, e o rapaz fez uma postagem em sua conta do twitter sobre o assunto.

Luba foi criticando por vários internautas e reacendeu o debate sobre “padrãozinho” e “todos os preconceitos” que estes estão sofrendo na sociedade atual. O rapaz tentou argumentar com textão com coisas do tipo “Não ria nem deboche da luta de um padrãozinho, cada um enfrenta sua própria batalha diariamente”. Ele excluiu o post e o textão, talvez porque a assessoria mandou refletiu sobre o assunto. Mas outros padrõezinhos já haviam denunciado toda a opressão que estes sofrem no meio LGBTQ, como o também youtuber Felipe Mastrandéa.

Ironias à parte, a discussão de Luba com vários internautas trouxe um desfile de desconhecimento e ignorância de ambos os lados. De um lado aqueles que temem assumir seus privilégios em nossa sociedade – assim como sua legião de fã sem o mínimo de senso crítico – e do outro, pessoas que demonstram não fazer a mínima ideia do que é combater um preconceito estrutural.

Antes de tudo, gostaria de esclarecer alguns termos para tentar impedir possíveis confusões, sabendo que isto é pouco provável. Como já disse em outros textos, existe um padrão de beleza institucionalizado em nossa sociedade, e isso não foi criado agora ou por uma única pessoa.

Este padrão de beleza é uma imagem corporal que representa aquilo que todos devem ter como referencial do que é belo, segundo a grande mídia, os meios de comunicação em massa e várias outras esferas da sociedade. Este padrão imposto sofre alterações ao longo do tempo, conforme a sociedade muda, e sofre pequenas mudanças também de um local para o outro.

Por exemplo, na Grécia Antiga, uma mulher com coxas grossas, cintura larga e seios grandes era considerada bela. Uma mulher para se encaixar no padrão de beleza atual, precisa ter corpo magro, ser alta, etc. Estes padrões mudam em alguns pontos, mas não em todos. Ser branco, por exemplo, é uma característica que encaixa pessoas no padrão de beleza há séculos.

Os padrões de beleza existem para excluir alguns e incluir outros. Como qualquer preconceito estrutural – como o racismo e o machismo – um grupo de pessoas será beneficiado e terá privilégios em nossa sociedade, enquanto um outro grupo será excluído e viverá a margem. Se analisarmos um pouco mais a fundo, podemos perceber certas semelhanças entre essas opressões:

  • O opressor nunca admite seus privilégios, e que sua presença e seu discurso oprimem alguém;
  • O grupo excluído geralmente é silenciado e quando decide verbalizar tal processo é visto como “vitimizado”;

Lembrando que a palavra opressor é diferente de agressor (muitos fugiram das aulas de semântica). Com o maior acesso a informação, vários autores já falaram sobre a questão da opressão que reproduzimos em nossa sociedade, seja com nossas palavras ou de formas mais sutis, como nossa presença ou apenas um simples olhar.

Ficou difícil? Então vamos exemplificar: se você, assim como eu, é um homem cis, experimente fixar um olhar em qualquer mulher dentro de um metrô e encará-la por um tempo considerável. O olhar de um homem cis possui o poder de constranger – e até amedrontar – uma mulher. Assim como um homem branco, em um processo seletivo de uma empresa, provavelmente excluirá qualquer outro concorrente negro, independentemente de seu currículo.

São algumas verdades inconvenientes que podemos perceber se olharmos atentamente para a estrutura social em que vivemos. Mas além do olhar atento é necessário também honestidade, para entender que algumas pessoas (inclusive nós) estão inseridas em algum padrão de beleza da sociedade e algum grupo de privilégio, e outras não.

Na comunidade LGBTQ atual, o padrão de beleza institucionalizado segue o mesmo do resto da sociedade: ser branco e magro. Entre os gays, as características vão mais além. É necessário possuir um corpo viril (sarado), ser branco – de preferência loiro – e com o comportamento masculinizado (podemos incluir a barba também?). Aqueles que não se encaixam nestes padrões perdem alguns pontos na hierarquia da beleza.

Algumas características são possíveis modificar, como entrar numa academia (de ginástica, não a de ensino) e conquistar aquele abdômen tanquinho que lhe trará vários crushes nos apps e nas redes sociais. Mas algumas não são. O branco é sempre belo e o preto é sempre meio, hum, “vamos ver o próximo”. E é aí que entra a problematização e a desconstrução dos padrões impostos pela sociedade.

Se você acha que a heterossexualidade é frágil, experimente apontar para um gay “padrãozinho” e dizer que ele se encaixa em um padrão de beleza da sociedade. Muitos se esforçam, gastam dinheiro e mantem uma rotina árdua para se encaixar neste padrão de beleza (e é super válido e até invejo quem tem esta disposição), mas nenhum admite que faz isso para tentar não ficar tão à margem deste grupo desejado.

Por mais que algumas coisas tenham mudado nos últimos anos, como o sucesso de drag queens na cultura pop e musical, o empoderamento de negros e afeminados, basta um passar de dedos em qualquer app de “relacionamento gay” para perceber que um afeminado ou desconstruído é muito legal no Youtube, mas não para levar para jantar ou apresentar para os pais.

Nas redes sociais problematizamos a problematização, e as longas discussões sobre os “padrõezinhos” se estendem por vários grupos e páginas, às vezes de forma desonesta. É importante ouvir e entender que muitos privilegiados não enxergam, ou não querem enxergar, seus lugares na sociedade. Muitos não admitem que se um gay preto e gordo iniciar um canal no Youtube para falar sobre o seu cotidiano, dificilmente ele terá milhares de seguidores.

Então, você está dizendo que o Luba e os padrõezinhos são os vilões? Não. O Luba e seus pares “padrõezinhos” não são os vilões e nem os criadores do padrão de beleza. O problema na sociedade é o padrão imposto, e este que precisa ser questionado e ser desconstruído.

É necessário perguntar a si mesmo, quantos youtubers negros você já parou para escutar e apoiar o seu trabalho? Quantas pessoas gordas, trans, mulheres, afeminados, você parou de fato para escutar – uma escuta ativa, não apenas ouvir – e entender as opressões que eles sofrem? Quantos ídolos – brasileiros e internacionais – você apoia que estão fora deste padrão de beleza que somos bombardeados diariamente?

Fazer estas perguntas a si mesmo e ser honesto consigo mesmo, poderá causar um grande desconforto. Não é nada agradável perceber que muitas vezes reproduzimos discursos excludentes, de racismo e machismo, mas acredito que ignorar isto e achar que ninguém é opressor e ninguém é oprimido, é ingenuidade ou, pior, desonestidade. Muitos héteros dizem que homofobia, lesbofobia e transfobia não existem, pelo fato de ignorarem seu lugar de opressor. E você, já parou pra pensar quais opressões você têm ignorado?

E para aqueles que possam se sentir ofendidos por apontar um privilégio do seu ídolo, lembre-se que todos erram (até mesmo quem escreve este texto), inclusive seu youtuber ou cantora favorita, e apontar o close errado de quem admiramos não significa desmerecer o trabalho deste, mas sim admirar com um olhar crítico.

Um dia fora do ciberespaço pode deixar qualquer um desatualizado.

Uma pessoa que vive 24h por dia conectado à web pode se tornar completamente alienado.

Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana.
Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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  • Eduardo

    “Sou um coitado porque padrãozinho, sou padrãozinho porque coitado…”

    Tudo bem que desde sempre o modelo de beleza/comportamento gay masculino sempre foi o homem hétero, mas acho que a cada geração isto fica cada vez mais insuportável. E também não acho que as outras “letrinhas” estejam mais à vontade em seus universos. Isso é muito triste.

    • Michel Furquim

      A cada geração estas reclamações dos privilegiados estão cada mais insuportáveis mesmo, Eduardo.

  • Dirceu Passos Junior

    O bonito hj é ser feio e escandaloso. Vejo nos apps uns mostrando seus músculos e outros mostrando sua ira. Por que vc se incomodar tanto pelo outro ser malhado e querer outro igual.? Cada um com seu cada um. Isso só mostra que adoraria ser aquele cara.

    • Michel Furquim

      Não mesmo, Dirceu. A questão, como está explícito no texto, é pessoas não admitirem seus privilégios e, de forma injusta, reforçar padrões de beleza sociais. Seu comentário já demonstra isso, com “O bonito hoje é ser feio” já escancara isso. A maioria possui essa mesma visão de que existe “um feio”, logo, exite “um bonito”. Se nós quiséssemos ser “aquele cara” não estaríamos aqui problematizando estas questões. Estaríamos na academia para “conquistar” um corpo “malhado”.

      • Dirceu Passos Junior

        Mas quem disse que é só malhar? Problematizar o cara que é bonito é mostrar que ele incomoda.

        • Michel Furquim

          O padrão de beleza que exclui, causa baixa autoestima e gera tristeza na grande maioria não te incomoda, Dirceu?