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Especial | Heróis Gays das HQs – Striker

Codinome: Striker (algumas traduções brasileiras o chamavam de Chocante, mas esse nome é feio que dói);

Nome: Brandon Sharpe;

País de origem: EUA;

Raça: Humano/Mutante (apesar de possui habilidades mutantes, não foi encontrado nenhum gene mutante em seu DNA e seu pai é desconhecido, o que deixa um mistério sobre sua raça);

Poderes:

  • Eletricidade;

Striker tem a capacidade de gerar poderosas descargas elétricas. Ele também pode controlar a eletricidade do ambiente (incluindo a corrente elétrica no sistema nervoso de seus inimigos). Seu poder permite criar também campos elétricos para proteção. Striker já voou algumas vezes, o que nos permite acreditar que ele pode utilizar as cargas elétricas nas moléculas do ar para voar.

Em qualquer conversa sobre heróis gays em HQs, os primeiros nomes que vêm à cabeça são Wiccano e Estrela Polar. O primeiro devido a importância que recebeu em diversas sagas da Marvel e o segundo por ser o mais antigo da mesma editora. Porém, existem muitos outros personagens LGBTs nos quadrinhos que às vezes passam despercebidos, tanto por nós quanto pela grande mídia. E é legal falar também destes outros menos famosos. Acredito que isso ajuda a preencher as lacunas que possuímos nas referências culturais LGBTs.

Pensando nisso, decidi falar um pouco de um heróis que gostei muito e que poucos conhecem: Striker.

A história de Striker começa no período Reinado Sombrio. Pra quem não sabe procura no Google, Reinado Sombrio foi aquela saga pós invasão Skrull (Invasão Secreta), onde Norman Osborn assumiu o comando da S.H.I.E.L.D. e dos Vingadores, formando os Vingadores Sombrios. Neste período, Osborn rastreou, convidou e até sequestrou jovens com superpoderes para criar uma legião de meta-humanos. O ex-Duende Verde submeteu estes jovens a coisas terríveis, como testes e torturas que extraíam o pior do ser humano.

Um destes jovens era Brandon Sharpe, que adotou o codinome Striker. Brandou podia controlar a eletricidade e gerar descargas elétricas poderosas e assim tentou virar um super-herói, mas teve dificuldades (início de carreira, vocês sabem, né?). Como ele mesmo diz, não é fácil achar bancos sendo assaltados como antigamente. Para sobreviver e pagar as contas, o jovem trabalhava em shows de monster truck, destruindo carros e outras máquinas. Norman Osborn ficou sabendo do garoto e trouxe Striker para seu projeto, diferente dos outros jovens, oferecendo muito dinheiro e mulheres a ele.

Após a derrota dos Vingadores Sombrios, os verdadeiros Vingadores decidiram criar uma Academia para acolher e treinar estes jovens que sofreram diversos danos psicológicos durante as atrocidades cometidas por Osborn. Assim surgiu a Academia de Vingadores. O intuito na verdade era manter estes jovens superpoderosos por perto e ensiná-los valores heroicos.

A equipe era supervisionada pela Tigresa Mulher-Leopardo, Hank Pym (Homem-Formiga feat. Jaqueta Amarela feat. Gigante feat. O Vespa feat. Golias feat. Nick Minaj), Mercúrio (Pietro), Justiça (Vance Astrovik) e Jocasta (esposa de Ultron), e o principal objetivo dos Vingadores era não deixar que estes jovens se tornassem vilões e dor de cabeça no futuro.

Um destes jovens era Brandon Sharpe. Brandon, conhecido como Striker, possuía uma personalidade egocêntrica, sempre buscando os holofotes. Desde o início, Striker é o único que parecia perceber o porquê da criação da Academia Vingadores. O rapaz não tinha papas na língua e sempre confrontava seus colegas de equipe e seus superiores, entrando em conflito diversas vezes até mesmo com os Vingadores originais, como o Capitão América.

Brandon era do tipo que diz o que pensa e sempre pronto para soltar algum comentário maldoso, causando desconforto e conflitos no time, e em quem estivesse envolvido. Nas primeiras histórias de Academia Vingadores, praticamente todas as falas de Brandon eram propondo alguma rebelião contra seus tutores ou algum comentário venenoso contra algum colega. A Phi Phi O’Hara elétrica deixa bem claro desde as primeiras edições que só deseja fama e holofotes, algo que desagrada e muito Capitão América e Cia.

Diversas vezes Striker age de forma desagradável, assediando as garotas da equipe e semeando a discórdia entre seus companheiros. E durante toda a primeira fase de AV, acreditamos que Striker é apenas um hétero mimado, com atitudes machistas e comportamento antissocial.

Porém, seu comportamento tem explicações. Brandon foi uma estrela infantil com um passado conturbado. Ele foi criado por sua mãe, uma mulher que sempre buscou dinheiro e fama, e era capaz de muitas coisas para isso. Quando envelheceu, a mãe de Brandon perdeu suas fontes de renda e decidiu apostar todas as suas fichas na carreira artística do filho, transformando-o em um ator mirim.

Neste período, Brandon começou a ser molestado pelo empresário contratado por sua mãe. Quando o menino contou sobre a violência que estava sofrendo, sua mãe o desacreditou e ordenou que ele ficasse calado para que não acabasse com suas carreiras (algo muito comum na vida real).

O que ninguém esperava era que durante outra sessão de abuso, Brandon despertasse suas habilidades e matasse seu empresário. Assim, Brandon descobriu seus poderes e ganhou a cicatriz no olho esquerdo e uma mecha de cabelo branco.

O abuso e a criação de sua mãe são fardos que Brandon carrega, sem dividir com ninguém, além de sua sexualidade. Durante todo o primeiro arco de Academia Vingadores a sexualidade de Brandon não é abordada em nenhum momento, apenas com alguns toques sutis, como o fato de ele dar em cima das garotas da equipe de forma grosseira e desrespeitosa, para evitar um possível “sim”.

Agir de forma grosseira com mulheres é uma atitude muito comum em homens que buscam esconder o fato de que são gays (o que não significa que todos os caras grosseiros por aí são gays enrustidos, alguns são apenas grosseiros mesmo). Geralmente, é o medo de ouvir um “sim, vamos lá”. Já vimos um exemplo parecido na série Glee, com o personagem Dave Karofsky, que tinha atitudes homofóbicas e machistas para tentar esconder que era gay. Não precisamos nem falar que essa não é a melhor saída para a situação, né? Além do quê, nenhuma menina precisa ser o objeto da agressividade de uma pessoa mal resolvida.

Voltando a história, na edição 23 de Academia Vingadores, após a entrada da X-23 na equipe, temos o diálogo em que Brandon se assume gay (ou pelo menos como ele se vê naquele momento) para sua companheira de equipe Arco-Íris (!).

Arco-Íris e mais ninguém esperava

Este é um dos momentos mais interessante que já li em uma HQ, onde Arco-Íris (Julie Power, que é bissexual) fala sobre suas dúvidas em relação a sua sexualidade e a exclusão que sente por parte dos G e L dos LGBTs, assim como Striker se questiona se sua homossexualidade teria ou não relação com o abuso que ele sofreu quando era criança. O diálogo foi muito bem desenvolvido, deixando claro que abuso sexual não interfere na sexualidade de ninguém e que bissexualidade não é coisa de gente indecisa. Ponto pra Marvel.

Quem disse que quadrinhos não discute sexualidade?

Apesar de toda a conversa profunda e intimista, nosso herói busca holofotes, lembram? Striker não perde tempo e convoca uma coletiva de imprensa para “assumir” que é gay publicamente e assim conseguir destaque na mídia (e pretendentes, lógico).

Striker apesar de parecer durão e se achar muito poderoso, muitas vezes se mostra um membro fraco no time, sendo vencido várias vezes nas batalhas. Sua maior contribuição com o time não é com seus poderes, mas com sua sagacidade, percebendo enrascadas que seus colegas cairiam facilmente. Os Vingadores acreditavam que Brandon seria um potencial vilão no futuro, porém com o passar do tempo percebemos que na verdade ele possui um grande senso de justiça e uma profunda lealdade com sua equipe.

Durante um encontro com a equipe de mutantes liderada por Wolverine, Brandon conhece Anole, que também é um personagem gay. Striker estava se sentindo mal pela sua aparência (ele ficou com cicatrizes por todo o rosto após a luta contra um vilão) e Anole o ajuda a aceitar sua nova aparência, e diz que isso nunca o atrapalhou em encontros com outros caras.

As faces de Striker: presente, futuro e com as cicatrizes

No início da história da Academia, Striker tem uma grande aproximação da sua colega Véu. A garota até chega a beijar Brandon, mas depois de um tempo fica claro que o laço entre os dois é apenas uma forte amizade. Durante toda a saga do time jovem, Brandon não possui nenhum interesse amoroso. Mas no final do segundo arco, ele conhece um rapaz que o viu na TV (quando assumiu sua homossexualidade) e começam a se conhecer melhor. Esta foi a última aparição que eu soube do herói. Podemos pensar que foi um final feliz, né?

Final Feliz!?

Como a maioria dos personagens LGBTs das HQs (com exceção da Batwoman e do Meia-Noite), Striker é um personagem coadjuvante nas histórias da Academia Vingadores, deixando de aparecer inclusive em algumas edições da equipe. Apesar disso, a história dela é aprofundada e sua personalidade é algo mais marcante que sua sexualidade, fazendo com que muitos leitores deste título se lembrem do personagem, mas talvez nem lembrem que ele era gay. Isso é algo ótimo, pois trata a sexualidade do personagem como algo natural e não como uma desculpa para mantê-lo na história.

A Academia Vingadores acabou após 39 edições, no Brasil sendo publicadas nos títulos Avante, Vingadores, Os Poderosos Vingadores e Infinito, pela Panini Comics.

Ao que parece, não há previsão de que estes heróis voltem tão cedo da geladeira. Talvez pelo fato de já existirem muitos grupos na Marvel atualmente, e a priorização das equipes e personagens que estão nos cinemas e nas séries atuais, estes personagens menos conhecidos ficam de fora dos planos editoriais.

Mas a Academia Vingadores já teve um crossover com Os Fugitivos, aquele time formado pelos filhos dos vilões e que ganhará uma adaptação em 2018, pelo canal Hulu. Se a série fizer sucesso, pode acender as esperanças de que outras produções com equipes jovens da Marvel sejam produzidas como Academia Vingadores ou Jovens Vingadores. Não custa sonhar.

Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana. Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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  • Renné Francisco

    Legal. Mas como sempre. Personagens LGBT’s são sempre coadjuvantes bem descartáveis nas tramas principais. Um saco.

    • Michel Furquim

      Realmente é ruim Renné. Mas acho que uma representatividade é melhor do que nenhuma, não acha? Não devemos nos contentar com apenas coadjuvação, mas celebremos estas representações que pouco a pouco ajudam.