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Diários de um Nerd | Estrela fascinante, Patrine!

Houve uma época em que tokusatsus reinaram na TV, sejam os metal-heroes (Jiban, Jaspion, Spielvan, Black Kamen Rider ou, para os mais velhos, National Kid) ou os Super Sentais (de Changeman a Power Rangers). Porém todos possuíam uma coisa em comum: o protagonismo masculino.

As mulheres ou eram introduzidas nas histórias como o interesse amoroso/ a “mocinha indefesa” para o protagonista, ou eram as cores rosa e amarela de algum grupo liderado pelo “macho” vermelho. Mas eis que surgiu em 1990, uma garota com superpoderes que era a protagonista de sua própria história, Bishōjo Kamen Powatorin ou, como ficou conhecida por aqui, Estrela Fascinante Patrine.

Jóias! Muitas jóias!

Patrine era do gênero Super Heroine, que tinha como fonte inspiradora o mahou shoujo dos animes e mangás (“garotas mágicas”), e foi criada por Shotaro Ishinomori, o pai de Kamen Rider e Cyborg 009.

A protagonista da série é Sayuri Nakami, uma estudante do ensino médio, que encontra Kami Sama quando estava rezando em um templo. O Deus Protetor, como assim é chamado na série, está em busca de um descanso e nada mais coerente do que escolher uma adolescente humana para realizar o serviço de proteção do universo, não é mesmo? Ele lhe concede o poder de se transformar na Estrela Fascinante Patrine, com a condição de que esta mantivesse sua identidade secreta, sob pena de ser transformada em um sapo.

Enquanto o Deus Protetor vai aproveitar umas férias na Itália, Sayuri se torna Patrine e enfrenta os mais diversos criminosos, desde ladrões de fitas de SuperNES até o temível Diabo do Inferno (nos anos 90, a dublagem eram um show à parte, fazendo com que nossas mães e avós temessem por nossas almas, sempre que Patrine gritava “Diabo do Inferno!” na TV). O seriado ganhou uma segunda temporada, onde foi introduzida a Pequena Patrine, a versão mini da Patrine que ajudou a heroína a proteger a cidade e o universo.

A heroína possuía vários superpoderes, alguns interessantes (como mutação, que a transformava num cosplay em poucos segundos, muitas vezes em personagens divertidíssimos) e outros bem bizarros, como um Carrossel Encantado mequetrefe que faziam os vilões… bem… virarem bonzinhos. Fora os vilões muito, muito exóticos, como o homem com um saco de palha na cabeça que obrigava suas vítimas a comer feijão azedo ou o homem que jogava papel de bala no chão. Se não bastassem todos esses perigos, Patrine ainda precisa despistar uma detetive super linha dura, Honda, e proteger sua identidade secreta da pentelha Pequena Patrine.

Patrine não foi o primeiro seriado tokusatsu a ter uma heroína como protagonista (Mahou Shoujo Chuka Na Paipai e Mahou Shoujo Chuka na Ipanema vieram antes, também pelas mãos de Ishinomori), mas foi com certeza a mais relevante e a primeira a ser transmitida no Brasil, num período em que heróis eram homens e “machos”.

Depois do Shun nos Cavaleiros do Zodíaco e Leiga em Shurato, Patrine trazia mais um sopro de representatividade nesse universo de mangás, animes e tokusatsus, desconstruindo a ideia de que heroísmo tinha a ver com força ou gênero. Naquela época, ainda existia uma enorme separação entre “coisas de meninos” e “coisas de meninas”. Assistir Jaspion e Kamen Rider, por exemplo, não era coisa de menina. Meninos assistiam e brincavam de seus heróis guerreiros enquanto meninas tinham suas princesas indefesas. E com a exibição de Patrine, na extinta rede Manchete, este mundo monocromático, pelo menos para alguns, começou a cair.

Era possível observar uma nova consciência e visão se formando. Algumas meninas se sentindo mais confortáveis em participar das brincadeiras de heróis com os meninos, e até mesmo alguns meninos participando do “faz-de-conta” como a Estrela Fascinante Patrine. E, diferente do que muitos conservadores possam acreditar, nada tinha a ver com doutrinação de gênero ou alguma teoria ridícula para “mudar” as orientações sexuais daquela geração, era apenas a formação da consciência de que o protagonismo e heroísmo não eram exclusivos do viriarcado.

Claro que muitos não gostavam, afinal já enxergavam como “coisa de menina” ou tinham medo que alguém duvidassem de sua “macheza“ caso fossem vistos assistindo uma produção com uma mulher como protagonista. Mas se essa fragilidade é vista até hoje com o filme da Mulher-Maravilha, imaginem há quase 30 anos atrás.

A atriz Yuko Hanashima em 2015 ao lado da action figure raríssima da heroína

Há muitos boatos de que Patrine inspirou Naoko Takeuchi, criadora de Sailor Moon. Algumas características são realmente muito semelhantes, apesar de muitas outras não terem nada em comum. Até mesmo algumas citações de Serena/Usagi parecem copiadas da Estrela Fascinante. Essas semelhanças eram gritantes na época em que as duas séries eram exibidas no Brasil e com a mesma dubladora nas duas protagonistas, Marli Bortoletto.

Patrine foi um seriado que fez parte de uma ótima leva de produções exibidas no Brasil, e que de alguma forma ajudou aqueles que não se sentiam representados pelos heróis já batidos que sempre salvavam a princesa indefesa no final e resolviam os problemas apenas com a força.

Hoje em dia, vários episódios dublados de Patrine estão disponíveis de graça no Youtube e é bem hilário rever esta produção, especialmente devido aos efeitos especiais da época. Mas é uma série que sempre terá espaço em nossos corações e lutaremos enquanto existir amor!

Aberura brasileira:

Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana.
Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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