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Crítica|Game of Thrones 7.02 – Stormborn

Game of Thrones volta a mostrar que em seu mundo, os mocinhos também perdem

E claro que esta crítica começaria pelo fim, já que a batalha entre Euron e Yara foi exatamente o momento em que Game of Thrones voltou a usar a ação e a surpresa como método de encerramento para um episódio. Só que muito mais do que uma cena coreografada, com sangue e mortes poéticas – as serpentes sendo mortas com suas próprias armas – a conclusão de Stormborn ofereceu um padrão que a produção sempre adotou e que continua nos pegando de surpresa, o inesperado. 

Ter Euron vencendo Daenerys e quebrando duas alianças da mãe dos dragões é algo importante neste primeiro momento. Apesar de ter a soberania em números, Danny ainda precisará enfrentar alguns obstáculos antes de realmente ter o que quer. Para ela seria muito mais fácil montar em seus dragões e invadir Porto Real, queimando tudo e a todos no caminho, mas Danny é esperta e tem um conselheiro muito inteligente. É Tyrion quem oferece o tipo de vingança que Ellaria e Olenna querem, algo contra os Lannister após terem membros de suas famílias mortos por Cersei ou por causa dela. Só que ganhar com facilidade não seria atraente para nós, telespectadores, e os criadores da série sabem exatamente que não é o que queremos. É por isso que temos um desfecho tão sangrento e emocional. 

A grande cicatriz de Theon, seu período como Fedor, o lacaio de Ramsay Bolton, obviamente ainda não fechou e o resultado não poderia ter sido diferente. Theon teve a oportunidade de corrigir seus erros e, pelo menos, morrer como um guerreiro Greyjoy, em um navio, mas assim como havia feito antes, quando não conseguiu confrontar o próprio pai e traiu Robb Stark, ou quando não conseguiu ir em frente com sua traição e permitiu que Bran e Rickon permanecessem vivos, Theon mais uma vez acovardou e fugiu. Theon escolheu a própria vida, em detrimento de sua honra. Mas você realmente pode culpá-lo por sua escolha? Apesar de ter cometido um ato condenável, após uma “vida” de tortura física e psicológica pelas mãos de Ramsay é compreensível que o medo, interpretado brilhantemente por Alfie Allen, tenha guiado sua (talvez) última ação. Ainda acho que a série revisitará a história do traidor e covarde Theon Greyjoy, mesmo que seja para fechar sua história de uma maneira sombria. É uma pena, afinal seu personagem sofreu muito, mas em linha com o tipo de destino que Game of Thrones usualmente oferece para seus “heróis”. 

Quem também surge para um “desfecho” emocional é Nymeria, a loba de Arya que a jovem Stark precisou afugentar com pedras após a morte de Lady, a loba de Sansa. É um momento de catarse vê-la, em um reencontro muito antecipado pelos fãs da série, incluindo os leitores dos livros, mas um pouco confuso para outros por causa da fala de “Arry”. A fala confundiu algumas pessoas, que chegaram a conclusão de que aquela loba não era a Nymeria, mas o visual acompanha o mesmo design utilizado na primeira temporada, enquanto ela ainda era um filhote do tamanho de um cachorro. Nos livros a loba gigante, que divide sonhos com a Arya algumas vezes, está comandando uma matilha nas terras fluviais. Aquela confissão de “Não sou eu” é uma exposição de que a loba permanece sendo a mesma da infância da jovem Stark, quem mudou, porém, foi ela. Sua constatação de que ela estava fora do “caminho” foi interessante, já que aconteceu no mesmo lugar onde ela, no passado já um pouco distante, havia decidido voltar para casa. E ela está voltando para casa, tanto física quanto emocionalmente.

Só que o caminho de Arya talvez não seja o norte, como ela imagina. Quero muito acreditar que o futuro da casa Stark esteja nas mãos de Arya, Sansa, Bran e Jon, mas algo me diz que ter a assassina da casa do Deus de Muitas Faces decidindo novamente ser Arya, e não Ninguém, poderá resultar em sua morte. Contudo o período em que ela esteve na Casa do Preto e Branco nunca foi tão iluminador e existem mais dúvidas do que resoluções, mas não surpreenderia vê-la morrendo até o final desta temporada. No momento a reunião permanece como o mais acertado, mas é bom manter em mente que o episódio terminou de uma forma que nos ajuda a questionar, sempre, o que parece simples demais. 

Enquanto isso Jon continua caminhando pelo bem de toda Westeros. Sendo o único do norte, com exceção do povo livre, a ter testemunhado a ação dos caminhantes brancos, sua principal preocupação é com a batalha que acontecerá. Só que, assim como o próprio Jon pontua, nenhum deles viu o exército dos mortos. Aquelas ainda são pessoas preocupadas com suas terras, títulos e sobrevivência frente ao inverno e é aí que mora o problema. Jon consegue ver além da limitada concepção de terras e títulos, porque se os mortos vencerem nada daquilo terá qualquer valor, mas é preciso ser mais político. Sansa é política e mesmo que suas desavenças com o irmão enquanto todos os aliados dos Stark testemunham seja irritante, seus conselhos e visão oferecem um equilíbrio. Para ela aquele reino do norte ainda é importante, em peso idêntico ao do Rei da Noite para Jon. 

Do outro lado temos um personagem que também consegue enxergar longe. Mindinho sabe manipular e foi um dos que mais conquistou em sete anos de série. Sempre a frente de seus inimigos e com alianças poderosas, Petyr Baelish é um homem que sabe exatamente o quer e tem na ponta da língua uma arma muito mais perigosa do que qualquer espada de aço valiriano. Sua fala a respeito de Catelyn e Sansa serve para que Jon revele sua opinião sobre ele. Aquele não foi um momento de vitória, mas sim uma provocação aberta para que o Rei do Norte revelasse sua faceta. Ali, escondido, Jon pensou que estava mostrando controle através da força, mas estava perdendo em detrimento de uma coerção psicológica. E quem aqui não fica profundamente preocupado quando Mindinho apenas observa e nada faz? Eu sempre. 

Neste ponto mora a diferença entre nós, telespectadores, e os personagens. Nós sabemos exatamente o que está acontecendo em cada canto, exibido, do mundo de Westeros. Temos uma noção dos caminhos que as personagens deveriam seguir, mas não temos nenhum controle sobre a ação que está se desenrolando. Séries usualmente entregam o controle de suas tramas para seus telespectadores, pelo menos parcialmente. Esta sensação de controle vem da imagem de que nossos personagens preferidos não irão morrer, de que a trama está caminhando exatamente para o ponto que imaginávamos que ela iria e de que, no fim, não existem surpresas, apesar de alguns cliffhangers bem posicionados. E Game of Thrones é vitoriosa exatamente por não deixar o controle existir, apesar de estarmos lidando com um ambiente controlado – o caos ainda é uma forma de controle. Por isso é comum ler expressões como “se existisse whatsapp em Westeros isso não teria acontecido”. Isso é porque nós sabemos os caminhos, sabemos que os Stark estão de novo em Winterfell, que os caminhantes brancos estão próximos a muralha, que Bran está em Castelo Negro, mas os outros personagens não e neste momento, tudo pode acontecer. E o tudo pode acontecer é o que nos fascina.

Durante parte da série e com muita força na temporada anterior o caminho de Sam esteve sempre beirando o desnecessário. Com alguns momentos chave para a história da série, como a morte do caminhante branco através do vidro de dragão, ou de sua mais recente descoberta, o personagem conseguiu conquistar parte da relevância que alguém tão pequeno dentro do mundo de Game of Thrones poderia se dar ao luxo de ter. A partir do momento que ele descobre que Jorah é filho do Senhor Comandante, sua decisão de ajudá-lo termina se encaixando em um padrão já comum ao personagem. Sam é desajeitado e praticamente um exilado de toda a trama da série. Com exceção de sua cruzada na Cidadela para descobrir métodos de impedir os caminhantes e casar, sutilmente, a trama de Jon a Daenerys, cada pequena peça movimentada por ele surgiu com o intuito de algo maior, mas nunca apresentado. 

Estes momentos aparentemente desnecessários, mas com detalhes importantes, também é parte do modus operandi deste segundo episódio, e da sexta temporada com o casal Missandei e Verme Cinzento. Não existe ali nenhum tipo de história realmente palpável e marcante para o que está acontecendo nos outros cantos de Westeros, mas também existe muita poesia. É por causa do relacionamento dos dois ex-escravos que podemos observar a sútil mensagem da série de que para o sexo existe muito mais do que órgão sexual. A excitação, os sentimentos, tudo isso é relevante e muito importante. Após tantos anos de exposição desnecessária em cima do corpo de mulheres, esta foi a primeira vez que Game of Thrones soube utilizar o sexo de maneira competente e sensível, mérito da direção de Mark Mylod. 

Sexo, nudez e relacionamentos sexuais usualmente servem, em práticas de se contar uma história, para fragilizar ou dar poder para personagens. Game of Thrones adotou a postura de usar o sexo para calejar suas mulheres, com estupros e violência, para determinar sua força futura e também sua fraqueza presente. Este comportamento deturpado da imagem do sexo é melhor compreendido quando observamos os Imaculados. Sem o sexo, a grande fraqueza do homem, eles se tornam o exército perfeito. E é exatamente por isso que a cena entre Verme Cinzento e Missandei é tão delicada. Lentamente aquele homem está se permitindo algo que nunca lhe foi possível, a vulnerabilidade. Seria muito bom que a série também desprendesse este tipo de tratamento para suas mulheres – um garoto pode sonhar. 

Stormborn é um episódio que remente e muito ao passado. Ainda existem vários pontos da história que precisam ser descobertos. Mas já foi possível ver estradas com aparente ar de conclusão. Temos um pouco de exposição nas falas de Cersei e seu Meistre, relembrando o passado dos dragões, do grande Balerion de Aegon I, o Conquistador. Também temos vários reencontros, Arya e Torta Quente, Arya e sua Loba. Vimos a reconexão de Jorah com seu passado através da memória de seu pai, de seu nome. Este exercício é fundamental quando levamos em consideração que esta é a penúltima temporada da série. Existiu ação, mas também testemunhamos mitologia, corrente e perfurante, em vários sentidos. 

Observações

– Só queria saber como Euron conseguiu construir tantos navios em tão pouco tempo. O cabelo da Cersei nem passou da orelha e o cara já estava rivalizando com a sobrinha.

– Adeus Serpentes de Areia, vocês não foram um terço do que representaram nos livros e por isso não vão fazer a mínima falta.

– Então o presente de Euron é a Ellaria Sand, a mulher que mandou envenenar a filha de Cersei. Olha, Septã Unella se estivesse viva ficaria assustada com a possibilidade.

– Uma balestra para enfrentar um dragão, daquele tamanho e peso, vai ser usada pela Montanha, não é? Ninguém mais conseguiria usar aquele trambolho de maneira efetiva, já que dificilmente um dragão ficaria parado para ser acertado. 

– Como assim 10 meses para fazer uma balestra e dois dias para construir 100 navios? Essa matemática não bate.

– Até a Nymeria apareceu e nada do Fantasma. Nem lembro mais qual foi sua última aparição na série.

– Correio de Corvo vindo de Pedra do Dragão, Cidadela, mas nada de Castelo Negro e uma mensagem do Bran. Porra… 

Game of Thrones volta a mostrar que em seu mundo, os mocinhos também perdem E claro que esta crítica começaria pelo fim, já que a batalha entre Euron e Yara foi exatamente o momento em que Game of Thrones voltou a usar a ação e a surpresa como método de encerramento para um episódio. Só que muito mais do que uma cena coreografada, com sangue e mortes poéticas - as serpentes sendo mortas com suas próprias armas - a conclusão de Stormborn ofereceu um padrão que a produção sempre adotou e que continua nos pegando de surpresa, o inesperado.  Ter Euron vencendo…

Game of Thrones

Stormborn

Nota

Game of Thrones oferece a primeira grande batalha de sua sétima temporada, mesclada com momentos de profunda reclusão e calmaria.

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Sobre Diego Antunes

Fundador do site, também colabora com postagens para o Série Maníacos com reviews de séries. Nutre um amor incondicional pela Marvel e é leitor ferrenho dos quadrinhos da casa das idéias desde os 12 anos de idade.

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  • Guilherme Souza de Oliveira

    Adorei a crítica e quero acrescentar uns pontos que me irritam:
    Tô achando um saco esse deus ex machina chamado vidro de dragão. Essa porcaria serve pra tudo agora! Aff!
    Outro ponto que me incomoda bastante é a NedStarkização do Jon. Parece que todo o crescimento de caráter que ele teve do outro lado da Muralha tão se apagando aos poucos e ele tá virando o cara super honrado (igual o Ned) que ele era no começo.
    Ótima crítica 🙂

  • Se não me engano a última aparição do Fantasma foi quando Jon Snow morreu e o lobo não fez NADA pra impedir.