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A visibilidade trans na TV aberta: A força de querer informar

“Eu sou Valentina. Eu me entendo como mulher, esse é meu gênero, é como eu me vejo e me reconheço.”

Desde o lançamento de “I am Cait” eu venho observando e pensando sobre esse fenômeno na mídia, onde em vários shows e programas de TV personagens transexuais tem sido inseridos de uma maneira orgânica e natural, e a temática tem sido discutida direta ou indiretamente. Em “Transparent”, por exemplo, temos como protagonista um pai de família realizando sua transição tardiamente (Hello Laerte), e em Sense 8 e Orange is the New Black, temos personagens que fazem parte da trama, e tiveram sua transexualidade discutida em momentos oportunos, mas sem ter um peso crucial na trama da história central.

E finalmente, depois de alguns anos, ele está em voga no Brasil. Discutida pela autora Glória Perez em “Força do querer”, a transexualidade entrou pela porta da frente na casa das famílias brasileiras, e está gerando muita polêmica e empatia, e elevou a discussão a um nível inesperado, haja vista há algum tempo atrás ainda estávamos comemorando o primeiro beijo gay em horário nobre, né non?

Para me ajudar a refletir um pouco sobre o impacto desse fenômeno no Brasil, eu como homem cis e gay, convidei uma grande amiga, e batemos um papo sobre o tema, pois ela, melhor do que eu, saberia me dizer sobre o peso que esta exposição tem atualmente na vida das pessoas trans no Brasil. Valentina, uma mulher trans, vive atualmente em Florianópolis com seu esposo, e concordou em nos contar sobre alguns pontos chaves da sua vida, realizando um paralelo com os personagens criados pela mídia para representar pessoas trans na TV.

Carol Duarte a Ivana de ‘A Força do Querer’

Na novela de Glória estamos acompanhando a transição de Ivana, uma personagem trans masculina que aos poucos, busca a sua auto aceitação, auto entendimento, e sua transição, para depois buscar a aceitação da família, amigos, etc. A atriz Carol Duarte está dando um show de atuação, e ajudada por um roteiro, que apesar de soar didático em alguns momentos (o que é entendível e aceitável), ilustra para o público a transexualidade de uma maneira inédita.

“Eu não sei bem como explicar, pois o processo de autoconhecimento é o trabalho de uma vida! Eu transitei depois dos 30 anos, me senti como a personagem Orlando do livro homônimo de Virgínia Wolf, que acorda aos 30 anos mulher. Quisera fosse assim, tão mágico. O mais demorado foi aceitar para mim, foi me livrar da vergonha gigantesca – um elefante rosa – que carreguei desde pequena. Eu sou uma mulher desde a transição? Minha resposta é não. Eu nasci menina num corpo que era adequado a um menino.” Valentina

Tarso Brant na novela de Glória Perez

Ivana têm muita dificuldade em explicar para a sua família sua condição e encontra muita rejeição da família, a personagem vive momentos dificílimos com sua mãe e irmão, e encontra apoio em amigos e outras pessoas trans, Tarso Brant, um ator trans fez uma participação especial e certeira na novela, mostrando como Glória está antenada no assunto. Na vida real a coisa não é diferente, e digamos que na novela a coisa está até muito maquiada.

“Importante destacar que o Brasil é o País que mais mata trans/travestis e também é o que mais consome pornografia desse gênero, então é uma questão relevante, pois quase ninguém se importa com destinos trágicos das trans/travestis nesse país hipócrita. Hoje, tenho me identificado com várias personagens trans seja da novela ou de séries como Sense8 e isso me deixa esperançosa de avanços na sociedade.” Valentina

A falta de informação é uma das maiores culpadas pelas tragédias que acontecem pelo Brasil afora, tanto no sentido de informação para a pessoa trans sobre o tema, quanto para o público em geral, que não entende, não busca entender, e parece não fazer questão de entender. O diferente sempre gera estranheza, e aí é onde está o acerto maior de Glória ao abordar o tema tão abertamente em seu folhetim INFORMAÇÃO PARA O PÚBLICO. A autora tem em seu histórico de novelas o mérito de ter abordado exitosamente muitos temas “polêmicos”, e dessa vez não está sendo diferente.

“Realmente foi difícil achar material sério. No google aparecia muita gente morta quando colocava palavras-chave na busca, crimes horrendos ou pornografia, sem falar em haters. Não tinha amigas trans ou travestis, fiz uma transição solitária, sem ir a guetos ou baladas, ou associações, com informação da internet. Confesso que a transição da Laerte, que era uma cartunista que eu já admirava desde sempre, me fez acreditar que minha idade não seria capaz de me impedir. Hoje, começamos a ver em séries, novelas e programas uma projeção séria e discussões humanizadas a respeito da transexualidade, sem cair nos clichês da vulgaridade explorada de modo cínico e sensacionalista que costumávamos ver que apenas se limitavam ao escárnio.” Valentina

Outro acerto da autora está em mostrar alguns constrangimentos vividos por Ivana, vemos a situação familiar, veremos a dificuldade de encontrar emprego, e quem sabe não veremos até a questão da mudança e da aceitação do nome social da personagem? Hoje o Brasil conta com leis que garantem a utilização do nome social em instituições públicas, instituições de ensino privadas, entre outros, mas essa luta é uma luta antiga, e é uma das questões que gera mais desconforto e maior constrangimento para as pessoas trans.

“Antes de mudar meu nome da Justiça, havia um medo constante de ser chamada pelo meu nome de batismo, mas em geral as pessoas chamavam de “moça” ou “senhora” para evitar constrangimentos. Entretanto, houve também quem fizesse questão de me constranger. O que foi intenso é que quando estava iniciando a faculdade de Gestão Financeira na UNISUL, requeri ao Jurídico que pudesse usar o NOME SOCIAL – já tramitava na Justiça meu pedido de mudança de nome, mas ainda sem a sentença, a UNISUL através do Jurídico me causou grande tristeza, pois além de não atender meus pedidos, faziam questão de se dirigir a mim com meu nome de batismo” Valentina

E enquanto estamos tendo a “sorte” de ver uma boa representação na TV brasileira, o mesmo talvez não aconteça com muita frequência lá fora. Com uma inserção tímida, outras nem tanto, geralmente a temática trans é levada em segundo plano nos shows estrangeiros, e muitas vezes não é desenvolvida de forma satisfatória. Ainda sobre a problemática, existe a questão da escalação de atores cis para representação de papéis transexuais, o que já gerou polêmica, e foi tema de discussão e protesto entre os militantes do meio. Fica o destaque para Orange is the New Black e Sense 8, que escalaram atrizes trans para representar esses papéis (inclusive Sense 8 é roteirizada e dirigida pelas, agora duas, irmãs Wachowski) e para Transparent, que focou a história no drama familiar e a transição de Moira.

“Mostrar que somos pessoas como qualquer outras, que sentimos, que sofremos, que amamos, que temos família, amigos, valores, projetos, etc, melhora a visibilidade e por consequência o entendimento médio das pessoas. Hoje, vemos na novela das oito da maravilhosa Glória Perez uma abordagem delicada, que com grande audiência, faz um belo serviço público de esclarecimento e sensibilização sobre esse tema.” Valentina

Entre erros e acertos, a realidade trans vem se fazendo conhecida para o público, e o tema tem sido tratado e abordado com muito carinho e cuidado na novela “Força do querer”. Apesar de o Brasil ser um país com índices que nos trazem tanta vergonha, e nos preocupam muito, a esperança da conscientização e do respeito que ela trará consigo sobre temas tão complexos e pouco discutidos se faz muito maior do que o preconceito que existe no meio brasileiro. “A força do querer” me parece um título muito apropriado para a trama de Glória Perez, onde temos vários personagens decididos e que através de sua perseverança, aos poucos conquistam seu espaço e felicidade. Ivana (em breve Ivan) está exteriorizando o homem forte que é, que esse homem sirva de inspiração para jovens transexuais que ainda vivem em conflito, na desinformação, e não sabem onde encontrar apoio.

Valentina

Para finalizar, quero agradecer a participação da Valentina, que sem hesitar se propôs a me ajudar com a realização desse trabalho. Querida, sua história e suas palavras são uma inspiração. Como seu amigo pessoal fico muito feliz de te ver tão plena, consciente, e realizada. Muito orgulho da grande mulher que você se tornou.

Recomendo a leitura da entrevista completa aqui, e recomendo que a reflexão não fique só dentro da sua cabeça, querido leitor. Esse é o momento mais oportuno para discutir esse tema com sua família, desconstruir preconceitos, ir além daquilo que está sendo mostrado na novela e mídia em geral.

“Eu faço uma militância no meu dia-a-dia com a cara no sol, vivendo a minha vida – creio que essa é uma grande militância -vida bem normal como a de todo mundo, sou casada, vou ao mercado, vou ao escritório, a feira, ao shopping etc.” Valentina

E agora uma musiquinha para relaxar. hehehe

Links Uteis

Antra – Associação Nacional de Travestis e Transexuais
Cartilha “Ministério Público e os Direitos de LGBT”
Trans Empregos
Trans Serviços

Sobre Bruno Marcatto Maldonado

Médico e grande amante de entretenimento, seja qual for a mídia envolvida. Foi Editor Chefe do Guia das Séries durante três anos e Reviewer do Mundo das Séries.

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