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Diários de um Nerd | Just Dance e os Gaymers

As comunidades nerd e gamer são espaços bem preconceituosos e possuem uma longa história de exclusão de minorias, como mulheres, negros e LGBTs, como já foi dito aqui e em outros veículos de comunicação incansáveis vezes.

Jogos de videogame (e computadores) no início não eram produtos acessíveis para todos os públicos, limitando-se a conhecedores de informática, engenharia da computação e áreas exatas, onde a maioria sempre foi homem, branco, classe média e (pelo menos aparentando) héteros.

Isso não é por acaso, ou por que héteros brancos eram mais inteligentes, mas devido ao acesso ao estudo destas áreas e a estes equipamentos. Se lembrarmos que, até o século XIX mulheres eram proibidas de cursar o ensino superior, negros não tinham acesso à universidade até metade do século XX e que somente agora no século XXI LGBTTQs estão ingressando em áreas sempre precisar esconder sua identidade ou orientação sexual, fica fácil entender porque muitos LGBTTQs, mulheres e negros eram minoria entre os jogadores e nas comunidades gamers.

Afinal, jogos de videogames eram feitos por homens e para homens. Logo, os jogos clássicos eram voltados para interesses antes associados apenas ao gênero masculino, como esportes, carros ou mulheres de shorts curto saltando em cavernas com duas pistolas nas coxas.

 

Mas este quadro mudou e o jogos de videogames expandiram cada vez mais seu público. Novas histórias e abordagens foram imaginadas para atingir o máximo de consumidores possíveis e isso atraiu novos interessados na produção de games que representassem este público, antes esquecido ou negligenciado pelas empresas e engenheiros.

As novas tecnologias também facilitaram o acesso a informação e a produção caseira de games. Muitos que antes eram obrigados a jogar com personagens que não os representavam, tiveram a possibilidade de criar seus próprios games e histórias que condiziam com seu universo e interesses. E as empresas responsáveis pela criação de games também buscaram novas formas de entreter o consumidor, e tornar os jogos cada vez mais interativos.

A dança foi chegando pouco a pouco ao mundo dos games, primeiro com a Pump It Up (aquela máquina de dança de fliperama), depois com aquele Tapete do Dance Dance Revolution (que era uma tragédia para dobrar) e, finalmente, até os dias de hoje com os sensores de movimentos, que possibilitaram a criação de Dance Central e, o mais famoso, Just Dance.

Se os antecessores, Pump It Up e o tapete de dança necessitavam de movimentos rápidos dos pés, os sensores de movimento (Câmera do PlayStation e o Kinect do Xbox) foram mais além e exigem do jogador o movimento do corpo todo para completar a coreografia (além de um bom preparo físico). Coreografias complexas e engraçadas, aliadas a hits conhecidos por quase todos, tornaram Just Dance um sucesso de vendas.

Mas não entre todos os gamers. Quem conhece homem hétero, sabe que a maioria são péssimos na dança e no rebolado – não por falta de coordenação, afinal muitos possuem uma inteligência corporal cinestésica (leia mais na teoria de Howard Gardner), capazes de realizarem vários esportes bem complexos -, mas por medo de serem vistos como gays. Logo, o jogo se tornou um sucesso maior entre as meninas e os LGBTTQs.

A Ubisoft, desenvolvedora do jogo, não é besta e tratou de colocar hits famosos entre as gays em suas últimas versões do game, transformando Just Dance em um dos poucos jogos em que a maioria de seus fãs é mulher e LGBTTQ. Tanto que o jogo é cheio de hits de divas como Beyoncé, Rihanna, Lady Gaga, Shakira e até uma música da nossa Anira, BANG. Além das músicas e a coreografia, as customizações de alguns personagens são divertidíssimas, permitindo jogar com um sapo cheio de jóias ou um urso Panda bem colorido.

Quem já leu um pouco sobre história, sabe que a música e a dança fazem parte da origem dos LGBTTQs como comunidade, afinal durante os anos em que ser gay, lésbica, trans ou travesti era crime, clubes com apresentações de música e dança eram os poucos locais onde podia-se vivenciar brevemente sua verdadeira identidade, sem preocupações ou medos. Por isso, muitos de nossos ídolos surgem nestes espaços ligados à performance e a música, como RuPaul, Beyoncé, Pabllo Vittar, Lady Gaga e etc.

Quem frequenta eventos nerds já deve ter percebido também o impacto que este jogo gera entre o público participante. Eventos nerds, geeks e de animes durante muito tempo foram espaços que disseminavam o assédio, o machismo, a homofobia, a lesbofobia e a transfobia – como já comentei AQUI -, fazendo com que muitas mulheres e LGBTTQs não se sentissem confortáveis em adquiri um ingresso ou credencial para sofrerem violências de qualquer tipo.

Atualmente, praticamente todos os eventos possuem pelo menos um stand com o jogo Just Dance, onde os fãs se sentem à vontade para apresentar toda a sua performance dançante ao som de “Single Ladies”, “BANG”, “Worth It” ou qualquer outro hit babadeiro. E é possível notar como aqueles gamers homofóbicos se sentem incomodados com tantos meninos e meninas rebolando felizes em um evento que antes era preenchido por homens, héteros e cis (e gays enrustidas e machistas).

Essa visibilidade cada vez mais comum tem um impacto e um resultado. Às vezes bom, outras vezes nem tanto, mas é uma fator que colabora para a ideia de diversidade e respeito em locais onde, teoricamente, é o encontro de pessoas que já foram os excluídos em certo momento da construção dessa comunidade nerd.

Além dos eventos nerd, existem também grupos de gaymers que se encontram em vários locais (pelo menos aqui em São Paulo) pra dançar ao ar-livre as coreografias do jogo. É comum ver isso na Avenida Paulista, em eventos de cultura japonesa na Liberdade ou em alguns espaços culturais como a Praça das Artes ou o Centro Cultural São Paulo.

A Ubisoft já anunciou o lançamento da edição 2018 de Just Dance para outubro deste ano, e obviamente que já foram vários hits já estão na lista, para o rebolado continuar na cara do preconceito, como “Swish Gretchen Swish”, “Waka Waka” e “Naughty Girl”.

Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana. Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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