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Crítica|Filme – The Pass (2016)

Desde que foi anunciado, The Pass (numa tradução literal seria “O Passe”) criou muitas expectativas, principalmente entre os gays, por dois motivos: primeiro, o ator padrãozinho, Russell Tovey, e segundo, por abordar um tema que ainda é tabu – apesar de muito comum -, que são os gays no universo do futebol.

A história tem início num quarto de hotel, onde dois jovens jogadores de futebol de um famoso clube inglês, brincam e expõem suas expectativas sobre seu primeiro jogo como membros do time oficial, que ocorrerá no dia seguinte.

Jason (Russell Tovey) e Ade (Arinzé Kene) fazem parte do clube desde os 7 e 8 anos de idade, respectivamente, e este jogo oficial é a oportunidade perfeita para conseguirem deixar sua marca e conquistarem uma vaga no time principal.

Durante esta noite pré-jogo, os dois zombam um do outro – com “piadas” nada politicamente corretas, como blackface –, assistem uma sextape “vazada” de um companheiro de equipe e fazem todas aquelas brincadeiras que homens “héteros” juntos costumam fazer para provarem suas masculinidades. Apenas um deles será escolhido para o time principal, mas aparentemente eles torcem um pelo outro, para que qualquer um consiga a vaga.

Mas é possível sentir uma tensão entre os dois rapazes. Não temos nenhuma informação sobre o passado de Jason e Ade, então não é possível saber sobre suas orientações sexuais ou sobre seus relacionamentos, sabemos apenas aquilo que a dupla informa – que pode ou não ser verdade.

Em meio a está tensão sexual, seja pelo álcool (apesar de ser um pouco polêmico comentar sobre isso, álcool e drogas podem sim desinibir um indivíduo e fazer com que ele experiencie outras práticas sexuais, sem necessariamente alterar sua orientação sexual) ou pelo desejo que um já possuía pelo outro, ocorre um beijo. E após um momento de reflexão, Ade e Jason mantém relações sexuais.

A história dá um salto de 10 anos no futuro e encontramos um Jason já como jogador profissional e consagrado em um famoso clube de futebol. Ele agora é um homem casado, com filhos e sua vida familiar é de conhecimento e interesse público.

O loiro está acompanhado de uma moça após uma noitada em um bar, algo bem comum entre jogadores de futebol. Porém, a moça parece ter interesses secundários no jogador. Sua ida ao hotel foi apenas no intuito de realizar uma sextape com Jason e vender a fita para a imprensa.

O jogador não parece nem um pouco surpreso ao descobrir o plano da moça e revela ser o mentor da armação. Jason explica para a moça, agora confusa, que ele havia planejado tudo e que ela precisava apenas fazer sexo com ele, divulgar o vídeo para a imprensa e receber o pagamento por isso.

Fica claro que o objetivo de Jason é mostrar a imprensa e ao público que ele é um homem heterossexual  e que possui uma vida sexual ativa com várias mulheres. Isso é algo, infelizmente, comum em nossa sociedade. O preconceito, a discriminação, o machismo e a homofobia internalizada fazem com que muitos homens mantenham esta vida dupla, mantendo relacionamentos de fachada, casando e até tendo filhos, para não serem vistos como gays.

Quantos você já conheceu que mantém aquele discurso de “discreto”, “na encolha”, “não assumido” para manter relacionamentos – muitas vezes apenas sexual – , mas mantém relações com mulheres apenas para não serem “descobertos”?

Jason se tornou aquilo que muitos garotos gostariam de ser: um jogador de futebol, famoso, rico e que “pega” muitas mulheres. Já Ade não teve o mesmo sucesso. Ele não se tornou um jogador profissional e atualmente é gay assumido, e possui um trabalho não muito reconhecido pela sociedade. Jason e Ade se reencontram, graças ao primeiro, e as vidas dos dois parecem totalmente opostas. Porém, Jason é nitidamente infeliz e incompleto, e busca no contato com Ade reviver um momento feliz de sua vida, que foi aquela noite de 10 anos atrás.

O filme mostra como muitas pessoas mantém vidas totalmente em negação, negligenciando suas vontades, seus desejos e sua felicidade em troca de aceitação social e alguns privilégios na vida. Uma vida dissimulada pode parecer viável por um tempo, mas cedo ou tarde o peso de não ser quem se é cobra seu preço.

Ninguém deve ser obrigado a assumir publicamente sua orientação sexual. Mas também, ninguém deveria ser obrigado a esconder quem é, por medo, por preconceito ou por discriminação.

Isso se torna muito pior no caso de uma pessoa pública, como Jason. Ginastas olímpicos, atores – de Hollywood à globais -, cantores – de sertanejos à rappers-, jornalistas, e vários outros vivem suas vidas dentro de armários apertados para manterem seus contratos e seus empregos nessa sociedade LGBTfóbica.

Mas existe um espaço que ainda é muito pior: o futebol. Se dentro da comunidade nerd que, teoricamente, é (ou costumava ser) formada por um grupo de excluídos, discursos LGBTfóbicos já são comum, imaginem dentro da comunidade futebolística?

Mesmo após muitos avanços nas questões de visibilidade, representatividade e respeito às diferenças que nossa sociedade atingiu, o futebol ainda é um esporte e espaço em que a homofobia é algo naturalizado e reforçado. E não apenas no futebol profissional, no amador também.

E aqui está a melhor coisa de The Pass, a abordagem sobre este tipo de preconceito em um local onde mulheres e LGBTTQs não possuem fala, visibilidade e, caso ousem adentrar no esporte dos “homens machos”, correrão riscos (de abusos, violência e até morte). Mas isso não significa que não existem gays no mundo do futebol. Pelo contrário. Existem muitos. Tanto no amador – aquele de “final de semana” ou de clubes familiares -, quanto no profissional, porém todos omitem sua orientação.

Muitos dos gays que estão no futebol profissional são obrigados a manterem suas vidas afetivas e relacionamentos escondidos, sob pena de serem demitidos, perderam oportunidades, contratos e expulsos deste mercado. Assim, mantém-se um preconceito velado, onde todos os clubes se dizem tolerantes à diversidade e aos LGBTTQs, mas nenhum deles aceitaria um jogador assumidamente gay.

E isso não é apenas no Brasil. Times estrangeiros evitam vincular suas imagens à comunidade LGBTTQ e os jogadores também mantém sua vida a sete chaves, tentando anular qualquer possível boato de suas sexualidades, seja através de um relacionamento com uma modelo ou uma vida supostamente religiosa.

The Pass possui uma premissa excelente e o elenco colabora para o bom resultado do drama. Torci um pouco o nariz quando vi o trailer do filme, devido a presença do ator Russell Tovey. Tenho muita resistência com o ator, que ficou conhecido pela série Looking, devido seus comentários em relação “aqueles gays afeminados”. Para muitos, que enxergam apenas corpo (e cor), isso é irrelevante. Mas para mim não.

Apesar disso, Tovey entrega uma excelente interpretação, que surpreende se comparada ao seu papel como Kevin na série da HBO. Coincidentemente, ou não, o personagem dele possui opiniões homofóbicas e misóginas, que o fazem viver uma vida de aparências e dentro do armário. O diretor Ben A. Williams fez uma ótima escolha, ao colocar Tovey no papel de Jason.

Arinzé Kene também faz um ótimo trabalho como Ade, e sua presença contrasta de forma genial com o papel de Tovey. Jason é o homem gay, não assumido, branco e bem sucedido, enquanto que Ade é o gay, assumido e negro que teve sua carreira ceifada. Algo mostrado de forma sutil, mas comum e até banal em nossa sociedade. O ator inclusive foi indicado ao prêmio de melhor ator coadjuvante no British Independent Film Award por seu desempenho.

O filme é ótimo para reflexões, porém parece tímido em abordar de forma mais profunda e clara os temas. Além disso, a trama parece um recorte, sem explorar o passado dos personagens (algo importante para sabermos mais sobre as orientações sexuais deles), sem mostrar a família de Jason e seu relacionamento, e também apresenta um final que poderia ter oferecido mais ao espectador.

Apesar de The Pass ter um ótimo ponto de partida, fica na superfície do tema, seja por timidez ou por limitações na produção, algo que pesa bastante no resultado final. Mas o fato de abordar alguns temas que ainda são tabus na nossa sociedade, já vale o tempo gasto.

TRAILER

Desde que foi anunciado, The Pass (numa tradução literal seria “O Passe”) criou muitas expectativas, principalmente entre os gays, por dois motivos: primeiro, o ator padrãozinho, Russell Tovey, e segundo, por abordar um tema que ainda é tabu – apesar de muito comum -, que são os gays no universo do futebol. A história tem início num quarto de hotel, onde dois jovens jogadores de futebol de um famoso clube inglês, brincam e expõem suas expectativas sobre seu primeiro jogo como membros do time oficial, que ocorrerá no dia seguinte. Jason (Russell Tovey) e Ade (Arinzé Kene) fazem parte do…

Filme

The Pass

Nota

Apesar de manter-se na superfície dos temas levantados, The Pass traz uma discussão válida e que ainda é tabu em nossa sociedade, aliada as ótimas interpretações dos atores protagonistas.

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Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana.
Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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    Acabei nem lendo tudo. Vim atrás de uma crítica e achei um resumo do filme, aí parei pra não ver demais antes de assistir.