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Crítica|Star Trek: Discovery 1.01/02 – The Vulcan Hello & Battle At The Binary Stars

Star Trek Discovery e a ponte entre o novo e o velho no universo idealizado por Gene Roddenberry.

Há aproximadamente 12 anos atrás terminava Star Trek Enterprise, a última série live action baseada na franquia criada por Gene Roddenberry e ambientada neste universo de exploração do universo conhecido e desconhecido. Desde o fim de Enterprise tivemos o renascimento de Star Trek nos cinemas, com a chamada Kelvin Timeline – uma espécie de realidade alternativa em que alguns fatos se distanciam da série clássica de 1966. Discovery funciona então como uma espécie de ponte entre o velho e o novo. Ela bebe, de maneira nada sutil, da fonte criada por J.J. Abrams sem se esquecer do mundo do Kirk e do Spock de William Shatner e Leonard Nimoy.

Como base de uma mitologia em crescente expansão e com mais de 50 anos é comum que exista certo estranhamento em quem já acompanhava Nova Geração, Enterprise e afins. Discovery está, cronologicamente, antes da série clássica, a primeira lançada e também antes de Enterprise, a última lançada e anterior ao surgimento de Kirk e Spock. Entretanto a construção dos cenários, a tecnologia e até mesmo os uniformes aparecem como algo incrivelmente moderno e avançado. Claro, estamos falando de uma produção de 2017 e que precisa, obrigatoriamente, impor chamativos visuais para seu público, mas que por muitas vezes termina “pulando” do trem em movimento para entregar um visual que não permite ser considerado um prequel.

Todavia estes pequenos “deslizes” na estética, além da própria história dos Klingons, que deverá confundir muitos trekkers devido a mudança na aparência, bem mais feral do que aquela exposta futuramente, não retira de Discovery o mérito de ter conseguido introduzir dois excelentes capítulos para esta nova jornada.

O primeiro ponto positivo de Discovery está na excelente inclusão de duas personagens incrivelmente relevantes, Michael (Sonequa Martin-Green) e Phillipa Georgiou (Michelle Yeoh). Contudo, enquanto falamos de Star Trek, progresso é a palavra-chave – mesmo que Enterprise pouco tenha oferecido neste quesito. A verdade é que Star Trek sempre foi progressista e sempre esteve à frente de seu tempo. Esta havia sido a proposta de Roddenbery, a de romper o conhecido e incluir, em suas produções, avanços que ele julgava imprescindíveis para a evolução do ser humano. E ele muito fez pela inclusão e rompimento de paradigmas. Tivemos um dos primeiros beijos inter-racial em uma série de televisão com Kirk e Uhura em Plato’s Stepchildren, de 1968. Também já tivemos um homem negro no comando de uma estação espacial, em Deep Space Nine e uma mulher no comando, a fabulosa Kate Mulgrew em Voyager.

E este mérito jamais poderá ser rebaixado, mesmo a franquia já mantendo em seu histórico uma boa parcela de representatividade, Discovery nos oferece a primeira capitã asiática e primeiro oficial como mulher e negra. Para muitos pode não parecer muito, mas quando estamos discutindo a relevância e a representação de Star Trek como o futuro da humanidade e sua posição cultural, é fundamental levantar tal discussão dentro da televisão. No momento, uma asiática e uma negra no comando é ficção cientifica e após tantos discursos em premiações e afins, o mercado de produção cinematográfica e televisiva precisam trazer esta parcela do futuro para o presente.

Olá Vulcano serve, basicamente, para expor estas duas mulheres e construir o relacionamento de amizade e respeito que uma mantém pela outra – algo que é rapidamente ferido durante o segundo episódio. Neste primeiro capítulo, porém, o que prepondera são os traços de Michael e Phillipa. Michael, criada com os vulcanos, é extremamente lógica. Uma raça que aprendeu a dissociar o pensamento emocional do racional, criando uma base perfeita para pensamento analítico, ela é uma mulher que rapidamente duvida de uma saída “criativa” e demonstra, através de seu comportamento, o lado mais baseado em fé e emoção de Phillipa.

Já Phillipa, interpretada pela maravilhosa Michelle Yeoh, segue um padrão mais humanizado, mas puramente galgado em regras e no sentido de exploração, mas nunca invasão, da Federação. Estamos, afinal, lidando com uma guerra grandiosa já mencionada no futuro de Star Trek, mas nunca antes explorada. E a capitã funciona muito bem, assim como outro personagem, o alienígena Saru (Doug Jones). Existe uma relação de afeto, respeito e medo percorrendo a Shenzhou e estes dois personagens conseguem capturar este sentimento brilhantemente, quer seja durante a exploração de Michael ou durante o confronto com os Klingons.

Avançando para a Batalha nas Estrelas Binárias, mais emergencial, bonito e devastador, algo que compõe um excelente segundo episódio, muito é retirado de nossas protagonistas para oferecer o sentimento de desolação e falta de fé necessários para o leque de oportunidades da temporada que está começando. Michael, indo na contramão de sua criação Vulcan com Sarek, pai do Spock, decide ir contra as regras em prol da saída mais efetiva e humana. Procurando salvar sua capitã e tripulação ela comete um erro, baseado em um acerto que jamais chega a existir.

O confronto de Discovery é bem conduzido, e é tão sinfônico quanto a abertura da série, que mistura traços de Leonardo Da Vinci com a música clássica de Star Trek. E enquanto Michael está confinada a uma porção destruída da Shenzou, Phillipa está sendo confrontada pela possibilidade de ter sua nave e tripulação dizimadas pelo ataque feroz dos Klingons. É uma bela maneira de conectar a animosidade entre a Federação e os Klingons que irá se desenvolver até o surgimento de Worf na ponte de comando, mas também expõe a fragilidade daquelas mulheres quando confrontadas por situações impossíveis.

Do outro lado da moeda temos o fanatismo religioso de T’Kuvma e uma relação complexa e bem construída pelos Klingons. A Federação, de acordo com a visão de uma sociedade que está procurando proteger sua identidade e refrear o colonialismo, pode sim ser enxergada como uma vilã. Claro que a proposta da Federação é a de não se intrometer na cultura e desenvolvimento destas raças, uma explanação desnecessária quando a cena inicial de abertura da série é centralizada exatamente na tentativa de não “corromper” os nativos e permitir, graças ao avanço tecnológico e social, que aquela raça não seja extinta. Do viés antropológico a Federação comete erros ao fugir apenas do “observar e anotar”, mas dentro do conceito moral ela termina esbarrando em algo que uma raça tão conectada a suas raízes pode enxergar como assimilação. Foi o que os portugueses fizeram com os nativos aqui no Brasil, durante a colônia, e é algo comum a povos conquistadores. A Federação não é conquistadora, mas o que ela faria para evitar que uma civilização inteira desaparecesse? Este é exatamente o ponto fundamental de Star Trek e algo muito debatido durante anos, nas mais variadas produções.

Discovery com seus dois episódios iniciais conseguiu transmitir o universo de Star Trek o casando com a demanda de um público mais centralizado em ação, no show de luzes e também nas imagens perfeitas para uma proteção de tela com fundo espacial. A introdução de duas mulheres tão fortes e que saem vitoriosas do teste de Bechdel também conta pontos positivos. É uma pena que Phillipa tenha morrido tão cedo. Matar uma personagem tão forte, interpretada por uma atriz tão poderosa e com um efeito tão positivo dentro destes dois episódios é arriscado, mas o Olá Vulcano e a Batalha nas Estrelas Binárias definitivamente reacenderam a minha fé em Star Trek, como um farol.

Direto da ponte de controle, as conexões e easter eggs de Star Trek Discovery

– A série é um “prequel”, que se encaixa entre Star Trek: Enterprise e a série Clássica. E mostra o período onde a Federação ainda não é um sistema tão forte e aceito em várias galáxias.

– Sarek (interpretado aqui por James Frain) além de ser o tutor de Michael, é também o pai de Spock. Ele já apareceu na série clássica, como embaixador de Vulcano e também em Star Trek, da nova safra de filmes.

– A série aborda o confronto entre a Frota Estelar e os Klingons, que dura entre o século 21 terrestre e o século 23.  O contato da humanidade com a raça Klingon que já aborda esta “crise” se dá na série Enterprise, onde um guerreiro Klingon “cai” na Terra, com informações importantes do Império Klingon. A Federação decide devolvê-lo ao seu planeta natal, vivo, mas os vulcanos discordam, uma vez que se trata de uma raça extremamente violenta.

– A Frota Estelar tem como objetivo explorar o espaço e conhecer novas civilizações, ampliando o conhecimento de novas tecnologias. Esta informação é importante para compreender porque a maioria dos procedimentos e naves tem como prioridade a diplomacia e não a força bélica.

– No começo do primeiro episódio, é citado Kahless, O Inesquecível. Kahless é um quase que um messias que unificou todos os reinos Klingons, fazendo com que estes se tornassem a raça guerreira que a conhecemos. Kahless pregava que a guerra enriquecia o espírito, e assim os Klingons passaram a venerar a luta, a violência e a morte na guerra como uma questão de honra. Há várias citações deste personagem durante o universo Star Trek, desde a série clássica até aqui.

– O uniforme é algo interessante para perceber a evolução da Frota Estelar. Se em Star Trek: Enterprise o uniforme da tripulação era praticamente um traje de astronauta como na vida real, em Star Trek: Discovery já podemos notar os primeiros detalhes que se referem a tripulação como parte de uma frota universal, assim como a diferenciação das cores em relação à patente de cada oficial.

– Na livraria da capitã Georgiou é possível ver uma garrafa de vinho Chateau Picard, uma homenagem ao capitão Jean-Luc Picard. No mundo real o Chateau Picard também existe.

– Também tivemos neste primeiro episódio uma menção a Ordem Geral #1, que futuramente se transformará na ‘Prime Directive’, onde: “Nenhuma nave deverá interferir com o desenvolvimento normal de qualquer vida alienígena ou sociedade”.

– T’Kuvma mencionou o planeta Donatu V, que também já havia sido mencionado na série original, em The Trouble With Tribbles – nele existiu um confronto entre Klingons e a Federação durante a Guerra Fria.

– Os eventos destes episódios também podem ser conectados a The Balance of Terror, da série original, onde a Federação encontrou uma nave Romulana escondida por uma tecnologia furtiva. Da mesma maneira que em Discovery a Entreprise tentou encontrar uma saída diplomática para evitar que a Guerra entre humanos e Romulanos explodisse novamente, como há cem anos atrás.

– A Netflix está exibindo episódios inéditos de Star Trek Discovery toda segunda-feira. 

Star Trek Discovery e a ponte entre o novo e o velho no universo idealizado por Gene Roddenberry. Há aproximadamente 12 anos atrás terminava Star Trek Enterprise, a última série live action baseada na franquia criada por Gene Roddenberry e ambientada neste universo de exploração do universo conhecido e desconhecido. Desde o fim de Enterprise tivemos o renascimento de Star Trek nos cinemas, com a chamada Kelvin Timeline – uma espécie de realidade alternativa em que alguns fatos se distanciam da série clássica de 1966. Discovery funciona então como uma espécie de ponte entre o velho e o novo. Ela…

Star Trek Discovery

O Olá Vulcano
Batalha das Estrelas Binárias

Nota

Com uma apresentação forte e cheia de personalidade, mas sem esquecer do clássico e das conexões entre mais de 50 anos de história, Discovery chega para mostrar seu lugar ao Sol - de várias galáxias.

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Sobre Diego Antunes

Fundador do site, também colabora com postagens para o Série Maníacos com reviews de séries. Nutre um amor incondicional pela Marvel e é leitor ferrenho dos quadrinhos da casa das idéias desde os 12 anos de idade.

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