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Crítica | Filme – Tom Of Finland [2017]

Já falei por AQUI sobre a arte homoerótica de Tom Of Finland e como ela foi importante em um momento onde a vida sexual de homens gays ainda era visto como algo “anormal” e “perigosa” para a sociedade. Praticamente todo homem gay conhece ou já viu em algum lugar os desenhos de Touko Valio Laaksonen, ou como ficou conhecido, Tom da Finlândia, mas poucos conhecem a história por trás do artista.

O filme biográfico finlandês com co-produção de mais cinco países mostra a história de Touko, que sempre teve talento para as artes, principalmente desenho e música. Conhecemos Touko (Pekka Strang) já no período em que este serviu o exército, no pós II Guerra Mundial (mais precisamente na Guerra da Continuação) e tudo que acontecia nos bastidores daquele momento.

Como o próprio Touko deixou em suas anotações e outros gays que participaram da Segunda Grande Guerra, durante a noite, nos becos escuros, entre escombros e em parques, soldados (aliados e inimigos) viviam seus momentos de luxúria, até o dia seguinte. Na penumbra não importava de que lado se estava, apenas importava se satisfazer antes de mais um dia de guerra. Este é um dos motivos de muitos dos desenhos do Tom retratar homens fardados.

Apesar disso, ser gay naquela época era proibido (em vários países europeus, principalmente no Leste Europeu), sob pena de prisão. Ou seja, um gay no exército contra os “inimigos” era algo aceitável (desde que se mantivesse nas sombras), mas inaceitável viver sua afetividade e vida sexual abertamente na sociedade.

Voltando a história, conhecemos a relação de Touko com sua irmã, Kaija (Jessica Grabowsky) e com Veli (Lauri Tilkanen), o grande amor de sua vida, com quem viveria 28 anos. A relação entre Touko e Veli é algo muito interessante para aqueles que desconhecem a vida do artista. Os desenhos com homens musculosos, com membros avantajados e cheios de desejo, contrastam com a relação de amor, carinho e apoio que o casal possuía, numa época em que os relacionamentos não heterossexuais tinham que viver nas sombras.

Grande parte do filme se passa no período entre os primeiros desenhos de Touko, de soldados e motociclistas que este observou na Finlândia e na Alemanha, até seu reconhecimento, já como Tom da Finlândia nos EUA. Sua relação com a irmã, que durante muito tempo não sabia de sua sexualidade, é algo aprofundado no filme, mostrando algo comum (talvez nem tanto nos dias de hoje) que era a vida dupla que muitos gays levavam, para não serem descobertos pelos familiares.

A trama também mostra a história de personagens secundários, como Alijoki (Taisto Oksanen), que é casado com uma mulher, mas promove festas para conhecidos gays. Sua esposa, como praticamente todas as mulheres da época, era “compreensiva” com a vida dupla do marido, em nome das aparências que uma família tradicional exige.

Outro aspecto que podemos perceber no filme é a diferença de direitos e liberdade que diferenciam de uma região para outra, num mesmo período histórico. Enquanto na Finlândia e na Alemanha, apenas portar um desenho homoerótico era algo criminoso na década de 70, nos EUA (Califórnia, Los Angeles, São Francisco) gays (homens, cis, classe-média) já viviam abertamente sua sexualidade no mesmo período.

Tom Of Finland além de se tornar um fenômeno entre os gays da época (admirado até os dias de hoje), também foi uma forte influência para o movimento leather entre os gays da época, e que se mantém até hoje.  Apesar da visibilidade que as obras de Tom proporcionaram, elas também tiveram uma influência (não tão saudável) entre a comunidade gay, que é o culto ao corpo viril – como padrão de beleza -, além de perpetuar a ideia falocêntrica como símbolo de força.

O roteiro de de Aleksi Bardy foi escrito com a colaboração de várias mãos, através de entrevistas de amigos e aqueles que conheceram trechos da vida de Touko. Talvez por isso temos a sensação de seguir uma linha narrativa fragmentada, com saltos e alguns pontos sem maiores explicações. Isso talvez seja um dos pontos – apesar de compreensível – negativos do filme.

Talvez os saltos temporais ou as cenas introspectivas, mas algo que eu não consigo identificar deixa a desejar no ritmo do filme. Mesmo sabendo que se trata de um filme biográfico, permite a dispersão fácil do espectador.

A interpretação dos protagonistas, e até dos atores coadjuvantes, são excelentes. Pekka Strang é o ponto alto do elenco, convencendo em todas as fases de vida de Touko. O trabalho de maquiagem do filme é excelente, auxiliando as ótimas interpretações de Pekka e Lauri durante o envelhecimento de Tom e Veli.

É provável que muitos que conhecem a obra do autor se decepcionem, esperando encontrar homens grandes, musculosos, com pênis anatomicamente improváveis e cenas de sexo hardcore. O filme não possui nada disso (talvez um pouco), e isso é um grande mérito da produção, ao separar a vida e a obra do personagem.

O filme já foi exibido em vários países da Europa, mas por ser uma produção de baixo orçamento, ainda ronda outros países, como o Brasil, apenas em festivais ligados ao público LGBTQ.

Tom Of Finland é um dos indicados para representar a Finlândia na premiação do Oscar como Filme Estrangeiro. Vamos torcer para que sua indicação faça com quem outras pessoas conheçam a vida e obra deste artista fantástico.

Já falei por AQUI sobre a arte homoerótica de Tom Of Finland e como ela foi importante em um momento onde a vida sexual de homens gays ainda era visto como algo “anormal” e “perigosa” para a sociedade. Praticamente todo homem gay conhece ou já viu em algum lugar os desenhos de Touko Valio Laaksonen, ou como ficou conhecido, Tom da Finlândia, mas poucos conhecem a história por trás do artista. O filme biográfico finlandês com co-produção de mais cinco países mostra a história de Touko, que sempre teve talento para as artes, principalmente desenho e música. Conhecemos Touko (Pekka Strang) já…

Filme

Tom Of Finland [2017]

Nota

Um filme biográfico de um dos artistas mais conhecidos da arte homoerótica. Ótimas atuações, porém com um roteiro fragmentado que prejudica o aprofundamento de alguns arcos da vida de Touko.

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Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana.
Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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