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Crítica|Linn da Quebrada – Pajubá (2017)

Bicha, trans, preta e periférica. Nem ator, nem atriz, atroz. Bailarinx, performer e terrorista de gênero.

A frase acima é a que está nas redes sociais dx Linn da Quebrada e diz muito sobre o seu trabalho. Seu primeiro clipe foi disponibilizado em 2016, no youtube, e se chama Enviadescer onde, além de apresentar um novo termo para a comunidade TLGB, critica o machismo, enaltece a figura da pessoa afeminada e ainda ressalta que não tem problema em Enviadescer e ser feminina independe de gênero. O vídeo rapidamente se espalhou pela internet e pouco tempo depois foi lançado também o de Talento, que tem seis minutos de duração e mostra relatos e pessoas trans que estavam albergadas na época da gravação. No final  acompanhamos os relatos emocionantes dessas pessoas, dando assim ainda mais representatividade do que apenas a de figurar no clipe da artista.

Além das letras que enaltecem as travestis e as afeminadas, o que também é uma constante no trabalho dx Linn da Quebrada é uma forte batida de funk, mas entre os seus trabalhos preferido é a música intitulada como Bixa Preta onde é mantida a característica principal das músicas anteriores, mas carrega junto uma leve mudança no seu estilo musical, que felizmente não é possível – e nem tenho a intenção de – classificar em algum estilo já pré-definido. Com certeza o principal motivo para meu apreço por essa música é o fato dela ter chegado num momento de mudança pessoal e por estar acompanhando as mudanças, que mesmo lentas, são muito importantes para trazer a esperança de que algum dia talvez tenhamos um pouco mais de igualdade.

No primeiro semestre de 2017 a Linn iniciou uma campanha de financiamento coletivo para produzir o álbum intitulado como Pajubá e só por esse nome já era possível imaginar e ficar ansioso para escutar esse trabalho. Pajubá é nome dado ao conjunto de palavras e expressões que tem origem na África Ocidental e que são utilizadas principalmente pelas travestis e também pela comunidade TLGB. Contudo, além do nome do álbum, o que também aumentava as expectativas para escutá-lo é o fato da Linn ser uma pessoa muito envolvida nas questões de gênero e de representatividade, além de também ser bastante ativa no seu instagram e de já ter mostrado ali alguns indícios do que estava por vir.

A artista anunciou na sua página do facebook no dia 06 de outubro o lançamento oficial do álbum e fez uma declaração, nessa data ela também disponibilizou o Pajubá nas plataformas de streaming junto com áudio-vídeos no seu canal do youtube:

“Pajubá chegou.

Disponível em todas as plataformas digitais e como áudio-vídeo no Youtube. Era um Lemonade Transvyada que vocês queriam, meninas?

Pajubá é celebração e (re)existência. É sobre nossas vidas. É nossa. Quero agradecer as pessoas que se envolveram e colaboraram com a produção do disco, cada uma do seu espaço, como pode. Sem vocês seria impossível. O que mais viso com a minha atuação, meu trabalho e minha música é essa troca, essa formação de redes, de conexões que estão se estabelecendo entre nós. Espero que todas possam desfrutar desse disco e que possamos continuar caminhando, pois acredito que juntas somos mais fortes. Que o nosso progresso não tenha linnmites. Seguimos juntas.”

A primeira coisa que chama atenção nesse álbum é a capa. Ela pode ser interpretada de diversas maneiras, mas lembra muito a técnica de alisamento capilar utilizada por pessoas que não tem a possibilidade de adquirir os equipamentos necessários para realizar esse procedimento, mas como toda obra de arte ela pode ter interpretações diferentes de acordo com o olhar de quem observa.

O Pajubá começa com Talento, o nome da música é o mesmo da que foi lançada em 2016, mas surpreende com a nova interpretação. Seria injusto dizer que uma ou outra é melhor, mas atualmente essa versão pode acabar por cativar mais por abrir perfeitamente o álbum e por definir o tom e a mensagem que a Linn deseja trabalhar nele. Ela começa lenta, com a uma mensagem importante e no final começa a ficar dançante. Além da mensagem ela mostra que também está interessada em fazer música para você ter vontade de balançar o corpo e ralar a bunda no chão.

Em Submissa do 7º Dia é confirmada a sensação de que além de passar uma mensagem importante a Linn também se preocupou em fazer músicas dançantes e com batidas que tornam praticamente impossível deixar o corpo parado.

No dia 27 de setembro (pouco mais de uma semana antes do lançamento do Pajubá) a artista disponibilizou no youtube o áudio-vídeo de Bomba Pra Caralho, a letra além de ser forte também é mais explícita e também tem o jogo de palavras que é característico da Linn.

Em Bixa Travesty temos uma batida mais animada e da pra imaginar ela tocando nas boates, mas mais que isso é também uma música de protesto e que fala sobre solidão.

Em Transudo é onde sentimos a influência do funk mais forte até o momento, tem potencial para ser um single e fazer uma grande sucesso com o público mais jovem devido ao trabalho feito nas batidas e na brincadeira com as palavras. O refrão é divertido e senta com a mão na cara do comportamento machista.

Necromancia tem a participação da Drag Gloria Groove, nessa faixa a batida do funk combina muito bem com o rap e elementos de música eletrônica que aos poucos vão ganhando mais destaque.

Quem acompanha os stories da Linn provavelmente já escutou algum trecho de Coytada, mas no álbum foi possível perceber todos os elementos das músicas clássicas de bate cabelo incluindo os sons de chicote, os gritos e batidas eletrônicas bastante agitadas.

Pare Querida apresenta uma batida gostosa de funk misturado com um ritmo empolgante e sexy, e na letra a Linn critica a busca pelos padrões de beleza.

Dedo Nocué uma parceria com a Mulher Pepita e já começa fazendo referência a uma das vinhetas do Castelo Castelo Rá-Tim-Bum (passarinho, que som é esse?) A música é sexy, sensual e vulgar de uma maneira positiva.

Talento mostrou uma nova versão de algo que já conhecíamos e Enviadescer segue a mesma linha, mas essa é ainda mais afrontosa e novamente a Linn adiciona outros elementos interessantíssimos, que enriquecem ainda mais a música.

Pirigoza começa com uma batida bem latina daquelas pra dançar coladinho, depois ultrapassa esse ritmo sem esquecer de preservar os seus elementos como o solo de saxofone.

Na letra de Tomara escutamos enfrentamento e em meio ao ritmo empolgante a cantoria acelerada prende a atenção na letra.

Serei A tem participação de Liniker e os Caramelows e é aquela música para se contemplar com calma e prestar atenção em cada detalhe.

A Lenda é uma bossa nova agradável aos ouvidos ao mesmo tempo em que emociona, nela conhecemos mais da história da Linn, o que torna a faixa ainda mais intimista e então o álbum termina deixando aquele gostinho de quero mais.

Num contexto geral Pajubá atende e ultrapassa as expectativas, além de mostrar a versatilidade musical Linn da Quebrada. Ela possui um grande Talento e conseguiu reunir em um único trabalho músicas que divertem, que fazem a pessoa querer dançar, seja na boate, em casa ou em qualquer lugar, e faz tudo isso com afrontamento, protesto e mensagens claras que brincam com as palavras e ressignificam o sentido das frases, às vezes até de uma faixa inteira.

Conseguir comprimir tudo isso em um álbum só, de maneira coesa e contando uma história, não é um trabalho fácil e merece reconhecimento. Além de qualquer outra característica Linn é uma Artista e no momento atual a presença de pessoas como ela nas mais diversas mídias, indagando e questionando, é de extrema importância. Então caso não conheça, procure saber mais sobre a Linn, divulgue seus trabalhos, compareça aos seus shows e contribua para que não só a Linn, mas mais pessoas TLGB recebam o destaque que merecem e para que atinjam as grandes massas.

Bicha, trans, preta e periférica. Nem ator, nem atriz, atroz. Bailarinx, performer e terrorista de gênero. A frase acima é a que está nas redes sociais dx Linn da Quebrada e diz muito sobre o seu trabalho. Seu primeiro clipe foi disponibilizado em 2016, no youtube, e se chama Enviadescer onde, além de apresentar um novo termo para a comunidade TLGB, critica o machismo, enaltece a figura da pessoa afeminada e ainda ressalta que não tem problema em Enviadescer e ser feminina independe de gênero. O vídeo rapidamente se espalhou pela internet e pouco tempo depois foi lançado também o…

Linn da Quebrada - Pajubá

Álbum

Nota

Pajubá atende e ultrapassa as expectativas, além de mostrar a versatilidade musical Linn da Quebrada

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Sobre Angresson da Silva

Nascido em 88, ariano, meio diferentão devido ao ascendente em aquário e que adora conhecer novos animes, mangás, HQ's, jogos, filmes e séries, sempre se preocupando com a representatividade em todas essas mídias. Ainda não formado, mas gosta de escrever suas opiniões e se auto intitula um Nerd Fajuto por não se identificar com os padrões de muitos Nerds.

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