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Crítica|Stranger Things – Segunda Temporada

Stranger Things surge como uma sequência e para provar que nem todo filme número 2 é inferior ao original

Com a proposta de tentar superar seu ano de estreia, com alguns elementos bem experimentais e outros já esperados para quem começou a acompanhar esta verdadeira carta de amor aos anos 80, Stranger Things usou muito do potencial de seus atores e atrizes, mirins e adultos, para construir uma história interessante, apesar de não muito grandiosa. Seguindo de onde paramos no ano anterior, com Eleven presa no mundo invertido e Will vomitando uma misteriosa gosma, a série dá o pontapé inicial ao explorar o resultado do confronto com o Demogorgon.

A progressão não chega a ser lenta, mas os três primeiros episódios funcionam como uma espécie de prólogo. Lá pelo quarto a coisa realmente começa a esquentar, ou esfriar, depende de quem está possuindo seu corpo. Lentamente somos apresentados a trama, com Eleven e Hopp isolados em uma cabana, enquanto o grupo tenta viver normalmente após os eventos no laboratório de energia de Hawkins. Claro que o carisma e as interações entre personagens é o maior poder da série. Neste ano o destaque maior fica para Dustin, Lucas e Will, enquanto Eleven e Mike sentam por um tempo no banco de reservas. Mike até continua lá por mais tempo, mas vamos focar no que realmente foi feito e não em quem quase não apareceu. 

Do outro lado também tivemos um pouco da interação crescente entre Jonathan e Nancy, que se propuseram a responder a #JusticeForBarb e foram longe para conseguir atingir seu objetivo. Neste ponto a série realmente não chegou a acertar ou errar. O casal termina junto, respondendo a uma necessidade criada a partir da conclusão do ano de estreia, mas nada ali conseguiu brilhar o suficiente para me fazer torcer por qualquer um dos dois.

Quem consegue uma boa torcida, porém, é Steve. Stranger Things acertou muito ao criar novos pares e Dustin e Steve foi um brilhante acerto. O relacionamento entre os dois é puramente brilhante. Existe um nível de cumplicidade muito grande e a necessidade de conselhos, bons ou ruins, apenas aproximam mais ainda o atleta popular do garoto nerd. Mas um detalhe é unânime, nada como laquê da Farah Fawcett para unir dois homens com um prazer especial pelo cabelo armado. 

O maior problema deste segundo ano foi, definitivamente, a decisão de esconder Eleven por praticamente toda a temporada, oferecendo para a garota uma estranha história própria em uma trajetória que ofereceu desvios nada agradáveis, porém necessários. O sétimo episódio da temporada, tido pela maioria como o pior da série, é tão diferente que funciona praticamente como um piloto dentro de uma produção que já está em seu segundo ano. E é exatamente o que os produtores da série, os irmãos Duffer, defendem quando falam sobre The Lost Sister. Segundo eles aquela havia sido a tentativa de modificar um pouco o escopo de Stranger Things, explorando um lado um pouco diferente, mas sem existir a sensação de filler. Bom, considerando que o episódio é exibido logo após um ganho, fica difícil não vê-lo como tal.

E a trajetória de El é até interessante, no começo, mas fica cansativa rapidamente. Devido ao destaque grandioso dado para a personagem e Mike na primeira temporada, nesta ambos ficaram um pouco de lado. Contudo ela conseguiu maior espaço, ao passo que o jovem apaixonado terminou como um coadjuvante dentro da trama de Will, um acerto bem grande do time produtivo ao entregar as rédeas para Noah Schnapp, que excedeu expectativas com seu personagem durante o decorrer da segunda temporada e da história desenvolvida. 

Schnapp, com sua interpretação, conseguiu fazer de cenas aparentemente simples, um verdadeiro show. Toda a ambientação digna do Exorcista conseguiu impor medo, tensão e antecipação para a história dele e de Joyce. Inclusive, o trabalho de Ryder neste ano conseguiu transparecer toda a sensação de uma mãe traumatizada, mas muito mais forte. Ela ainda depende bastante do Hopp, mas já consegue controlar melhor a situação. Existe um clima de excesso de proteção que é rapidamente negado enquanto o texto prova que realmente existe algo errado com Will. 

Outro pai que conseguiu um espaço grande para trabalhar foi Jim Hopper. Se a decisão de esconder Eleven durante toda a segunda temporada não foi acertada, apesar de termos avançado bastante em seu passado, especialmente com a montagem do quarto arco-íris, quem teve um avanço considerável foi Hopp. O xerife havia figurado como uma imagem a ser temida, mas conseguiu conquistar muito ao receber em Eleven a oportunidade de explorar sua vida como pai, principalmente porque o desafio aqui é bem maior. A série apenas coroa o relacionamento entre ambos quando temos pai e filha lutando lado a lado, de mãos dadas, ou quando somos presenteados, assim como o personagem, com a certidão de nascimento de Jane Hopper. É um dos momentos mais afetivos dentro da temporada, que fechou com um baile totalmente emocionante. 

Outro ponto válido foi a adição de dois novos personagens. Bob, interpretado por Sam Austin (Senhor dos Anéis e The Goonies) e Max (Sadie Sink). Também tivemos outro personagem novo, Billy, de Dacre Montgomery (Power Rangers), mas pretendo falar um pouco a respeito deste último depois. Bob chega de maneira bem clichê, interpretando o namorado seguro e bobo da mãe, mas ele cresce muito. Este é, na verdade, o grande trunfo de Stranger Things em seus dois anos de existência. A série tem uma capacidade muito grande de pegar atores e atrizes, de diversas idades, e transformá-los enquanto cria sua história. Logo, Bob se torna um grande herói e um personagem que passa de dispensável para imortalizado.

Já Max começa exatamente como o esperado, para tentar substituir o espaço deixado por Eleven. E é através desta ótica que a série brinca com a existência da personagem por meia temporada. Lentamente, porém, Max é inserida dentro do clube e começa a receber traços mais humanizadores. Contudo é por causa de seu irmão, o babaca Billy, que ela consegue receber uma luz mais forte, responsável por aproximá-la não apenas do time composto por Dustin, Lucas, Mike e Will, mas também da audiência.

Billy, porém, aparece apenas para rivalizar com Steve e Lucas. Ele é o típico personagem humano em uma produção de gênero terror, que surge para ser o lado mal fora do sobrenatural. É preciso que Stranger Things crie tensões fora do mundo invertido e suas ramificações e é com Billy que a série o faz. Só que até o final da série ele pouco age, além de ensaiar batidas clássicas de filmes dos anos 80, com cenas que beiram o erotismo e muita canalhice. 

Em sua segunda temporada Stranger Things conseguiu fazer exatamente o que ela propôs em seu ano de estreia, brincar com elementos clássicos de filmes da época, com um elenco carismático e uma história ok. Não existe nada novo ou muito brilhante na série, afinal ela opera como uma homenagem a outras produções como Exorcista, Alien e várias outras, mas no final o saldo é sim positivo. Existe um valor muito grande neste respeito a um material simples, mesmo que um pouco bobo. E como uma sequência, intitulada Stranger Things 2, o resultado é um só: aqui não existiu a maldição da sequência e no final tudo terminou de maneira honesta e bem emocional. Preciso comentar a respeito daquele baile lindo? Acho que não. 

Easter eggs e outras conexões – direto do mundo invertido de Stranger Things

– Sean Austin, o Bob, não é um estranho ao mundo dos clássicos dos anos 80, ele esteve em Goonies, filme que claramente serve como inspiração para toda a série. 

Stranger Things 2x02: Trick or Treat, Freak
– Nancy vestida como a personagem de Rebecca de Mornay em Negócio Arriscado foi simplesmente maravilhosa. Como eu amo os anos 80.

– El usando a televisão estática para acessar outro mundo é uma clara referência ao filme Poltergeist.

– E não tem como não falar de Caça Fantasmas com o quarteto fantasiado com a clássica fantasia. Tão pouco esquecer quantas vezes eles foram chamados de exterminadores.

– Por falar em Exterminador [do Futuro], o trailer do filme aparece rapidamente durante a sessão de zapeamento da Eleven.

– Quando Dustin está colocando o Pollywog dentro do aquário de Yertle, é possível ver um boneco do E.T. ao fundo.

– Acima do boneco temos um certificado de Proficiência Anti-Paranormal dos Caça Fantasmas, que era o brinde recebido quando se fazia a inscrição no fã clube oficial do filme.

– Yertle é uma referência a Yertle the turtle, personagem de Dr. Seuss.

– D’Artagnan, nome dado por Durstin ao Pollywog, é o nome do doce favorito do personagem e também de um dos três mosqueteiros.

– Dart também pode ser uma referência ao xenomorfo de Alien. Afinal, ele saiu de dentro do Will. O design do Mind Flayer, o grande vilão da série, é bem parecido com o famoso monstro de Alien, o que não chega a ser uma coincidência tão grande, já que o criador do design da criatura trabalha em ST. 

– A história do Bob a respeito do palhaço que o aterrorizava é uma clara referência a IT, livro de Stephen King que recebeu sua segunda versão em filme em 2017.

– “This Is Radio Clash”, do Clash, que toca quando Nancy entra no carro do Jonathan, é uma música que fala a respeito de jovens fugindo do horário de voltar para casa e rebeldia. Amo como Stranger Things usa músicas bem na cara.

– As caixas no porão do Hopper – quer coisa mais sutil do que essa? – tem o nome Nova York e Vietnã. Aquela história de guardar monstros no porão também é outra forma (nada) sutil da série utilizar suas conexões.

– Na geladeira dos Byers é possível ver um desenho do Super Bob.

– Dustin serving John Oates mullet realness!

– Stranger Things fez novamente várias menções ao Exorcista. Indo da mudança na voz do Will ao momento que a Joyce entra no quarto, percebe o frio e fecha a janela – seguindo o mesmo movimento da mãe de Reagan.

– E claro, a melhor imagem que saiu do encontro de Steve e Billy. 

Stranger Things surge como uma sequência e para provar que nem todo filme número 2 é inferior ao original Com a proposta de tentar superar seu ano de estreia, com alguns elementos bem experimentais e outros já esperados para quem começou a acompanhar esta verdadeira carta de amor aos anos 80, Stranger Things usou muito do potencial de seus atores e atrizes, mirins e adultos, para construir uma história interessante, apesar de não muito grandiosa. Seguindo de onde paramos no ano anterior, com Eleven presa no mundo invertido e Will vomitando uma misteriosa gosma, a série dá o pontapé inicial ao…

Stranger Things

Segunda Temporada

Nota

Em seu segundo ano, Stranger Things veio com a difícil missão de criar uma nova temporada, aproveitando a mesma alma dos anos 80 de sua estreia, mas ao mesmo tempo oferecendo algo novo para sua audiência. Com sucesso a série impõe um bom ritmo com pequenos deslizes, mas muito coração. 

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Sobre Diego Antunes

Fundador do site, também colabora com postagens para o Série Maníacos com reviews de séries. Nutre um amor incondicional pela Marvel e é leitor ferrenho dos quadrinhos da casa das idéias desde os 12 anos de idade.

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  • Rodrigo Garrit

    Adorei a matéria e os Easter eggs, eu tinha percebido só alguns…

  • Morto com o selo Sean Cody de qualidade na foto de Billy e Steve.