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Indicação Nerd | Documentário – A Morte e Vida de Marsha P. Johnson

“Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”.

Algo que eu aprendi desde cedo (seja durante meu período escolar ou minha educação dentro de casa) é que conhecer a história é a maior ferramenta de proteção e para apropriação.

É fácil entender a importância que a história possui na formação crítica e consciente de um povo, quando percebemos que uma das primeiras ações de todos os governos ilegítimos, ditatoriais ou invasores, é destruir qualquer vínculo de um povo com suas raízes e seu passado. Assim, queimam-se livros, retiram a disciplina de história da grande curricular ou engavetam casos para que caiam no ostracismo.

A falta de conhecimento dos fatos passados cria indivíduos alienados e facilmente manipulados. Isso também acontece com a comunidade LGBTQ. Você consegue citar o nome de 5 ativistas LGBTQs que viveram na década de 60 ou 70? Conhece alguém que lutou pelos direitos dos LGBTQs, além de artistas e cantores?

Estes nomes não constam nos livros de história e não são lembrados pelas novas gerações, apesar de muitos terem dado a vida para a liberdade que muitos usufruem hoje.

Um destes nomes é Marsha P. Johnson. Uma travesti que se tornou um ícone do movimento LGBTQ, que foi uma das responsáveis pela Revolta de Stonewall e das primeiras marchas pelos direitos dos gays, das pessoas trans e de outras minorias.

Marsha foi encontrada morta em 6 de julho de 1992, aos 42 anos e seu caso nunca foi investigado pela policia de Nova Iorque, mesmo com diversas evidências de encobertamento do governo devido envolvimento com a Máfia em seu assassinato, ou mesmo crime de ódio. Inicialmente, a causa da morte de Marsha foi dada como suicídio, mas este parecer sempre foi questionado devido testemunhas e a ausência de várias provas que sustentem tal argumento.

A morte é o ponto inicial para o documentário produzido pela Netflix, chamado A morte e vida de Marsha P. Johnson. A vida e um pouco do universo de Marsha  também são mostrados, principalmente sua coragem que mobilizou e motivou LGBTQs da época na luta por direitos e respeito, tirando dos guetos e construindo uma consciência política para as travestis, os gays, as dragqueens, as trans, os bissexuais e as lésbicas.

O documentário acompanha Victoria Cruz, ativista e conselheira do Anti-Violence Project, enquanto levanta dados e investiga a morte de Marsha P. Johnson. Conforme se aprofunda no caso de Marsha, Victoria também tem contato com outros casos de mortes de pessoas trans e travestis, que também são ignoradas pela Justiça.

O documentário mostra como poucas coisas mudaram da década de 60 pra cá para pessoas Trans e Travestis, as quais são invisíveis em nossa sociedade e continuam morrendo a cada esquina.

Além de Victoria, o documentário também apresenta outros personagens antigas e atuais da luta pelos direitos dos LGBTQs, como Sylvia Rivera. Sylvia foi outra travesti que esteve na linha de frente em Stonewall e em várias manifestações pela vida de pessoas Trans, Travestis e LGBTQs que moravam na rua, mas que foi rechaçada pela “comunidade gay” – leia-se o homem gay cis classe média – pelo fato de representar aquilo que muitos gays transfóbicos e machistas repudiam.

O discurso de Sylvia pelo “Gay Power”, enquanto é vaiada por vários homens gays cis, é uma das cenas mais marcantes do documentário e que todos deveriam assistir e refletir sobre seus privilégios.

A Revolta de Stonewall é um bom exemplo de como esse processo higienista funciona, sempre mostrando homens brancos gays cis como se estes fossem os responsáveis pelo início do movimento da luta LGBTQ (como mostrado em Stonewall – Onde o orgulho começou que já falamos AQUI), e o apagamento das travestis, das pessoas trans, das lésbicas, dos gays negros e pobres que foram os que mais sofreram (e sofrem até hoje) a LGBTfobia da sociedade.

A morte e vida de Marsha P. Johnson é um documentário emocionante, pesado e visceral, mas importante principalmente para as novas gerações (que já nasceram com direitos conquistados), para aqueles que dizem que militância é algo desnecessário e para os gays que dizem que o G deveria se separar da comunidade LGBTQ (acreditem, existem gays que não querem ter suas imagens vinculadas as pessoas trans, as travestis, as lésbicas e os bissexuais).

Todos deveriam assistir a este filme para compreender que direitos, espaço e dignidade não são dados por ninguém, mas conquistados. E conhecer mais do passado de quem nos trouxe até aqui.

Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana.
Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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