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Crítica | Quadrinhos – Homem de Gelo #1 – #7

O Homem de Gelo, ou Bobby Drake (ou Robert Louis Drake), faz parte da equipe mutante da casa das ideias desde a década de 60, e agora em 2017 ganhou título solo regular pela Marvel. Membro original e um dos fundadores dos X-Men, Bobby sempre foi um dos personagens mais recorrentes nas histórias em quadrinhos dos mutantes, fazendo parte de praticamente todas as formações da equipe.

Lá em 2015, como já falamos por AQUI, a versão adolescente do passado de Bobby veio para o presente e se “assumiu” gay e inclusive já está namorando com um Inumano, o Romeo. Essa mudança causou muita polêmica entre os “fãs” do personagem, afinal a versão do passado do Homem de Gelo foi retratada como abertamente gay, enquanto a versão do presente era heterossexual (inclusive teve relacionamentos com várias personagens mulheres).

A polêmica era algo desnecessária, afinal a sexualidade é algo dinâmico, não algo sólido e imutável. E as manifestações, obviamente, eram mais devido um personagem ser retratado como gay do que propriamente a preocupação com a veracidade na representação de uma orientação sexual.

Seguindo a linha da concorrente DC Comics, a Marvel decidiu reestruturar seu universo mutante com RessurXion (resultado da saga Inumanos Vs X-Men). O objetivo é resgatar alguns personagens dos X-Men e apresentá-los para novos leitores. Assim Arcanjo, Ciclope (clássico), Jean Grey (clássica), Velho Logan, Jubileu e Homem de Gelo tiveram suas histórias retomadas de forma independente e excluindo várias das bagunças que estes personagens sofreram nas mãos de roteiristas.

Homem de Gelo é protagonizada pela versão adulta, do presente, do herói. Bobby é um dos mutantes mais antigos do Instituto Xavier, além de ser um dos mais poderosos. Ele é um dos professores na escola do Professor Xavier e voz ativa nas decisões que envolvam os X-Men. Isso já é uma coisa legal, afinal, Bobby  é um mutante nível Ômega (ou seja, no mesmo nível que Apocalipse, Jean Grey e Feiticeira Escarlate) e não necessita de treinamento ou aprender a controlar seus poderes mutantes. Assim pulamos algumas etapas que geralmente estão presentes nas histórias dos mutantes sobre descobrir seus poderes ou aprender a trabalhar em equipe.

As lutas de Bobby, nestas 7 edições já lançadas nos EUA, são contra outras questões. Nosso herói finalmente se descobre gay, após contato com sua contraparte do passado, e isso irá desestruturar as bases de todas as áreas de sua vida. O Homem de Gelo do presente admira como sua versão adolescente assumiu sua sexualidade de forma tão simples e vive feliz assim. Mas a HQ limita a aproximação entre as contrapartes. Isso é compreensível, afinal seria uma confusão aprofundar questões de um homem de meia idade e de um adolescente. Apesar de muita gente achar que gay é tudo igual, a idade muda a forma como cada um experiencia algumas situações.

A relação com os pais de Bobby (que nunca aceitaram sua condição como mutante) é abordada em quase todas as edições. Como contar para seus pais que nunca te aceitaram por ser mutante que você é gay? E ainda mais: como explicar isso, sendo que você já teve várias “namoradinhas”? É engraçado de ler sobre isso, mas é algo muito comum na vida real. Homens que viveram relacionamentos heterossexuais durante muitos anos (seja para tentar despistar sua verdadeira orientação sexual, ou porque não sabiam que poderiam experimentar outras formas de se relacionar) quando assumem ser gay (ou bi) precisam se explicar para a sociedade o porquê dos relacionamentos anteriores com mulheres.

Ao mesmo tempo, a HQ também mostra como é muito mais fácil falar sobre sua orientação sexual e seus relacionamentos com aquela família que escolhemos, os amigos. Bobby conta para seus amigos, X-Men, que é gay através do grupo do whatsapp, e recebe respostas divertidíssimas. Além dos amigos, vemos também uma DR com a ex, Kitty Pride. A moça intangível questiona a distância de Bobby e porque este nunca conversou sobre sua sexualidade com ela.

A característica mais marcante do Homem de Gelo está presente, que é sua habilidade de fazer piadas com tudo. Apesar disso ser algo constante no personagem desde sempre, nesta nova fase fica a reflexão se essa necessidade de ser piadista e nunca levar as situações a sério seria um tipo de fuga para não lidar com algumas partes pouco agradáveis de sua personalidade.

As edições mais recentes (6 e 7) tem conexão com acontecimentos da saga Império Secreto, com Bobby lamentando a morte de uma amiga (que não vou dizer aqui, afinal seria um spoiler pra quem não está acompanhando), ao lado de Hércules, Motoqueiro Fantasma, Anjo e Estrela Negra. A HQ mostra esse outro lado de Bobby, bebendo com os amigos fora das paredes do Instituto Xavier.

Apesar de abordar bastante as questões emocionais e de sexualidade do Homem de Gelo, as lutas como X-Men não são deixadas de lado. Inicialmente Bobby enfrenta um grupo de extremistas, que acredita que os mutantes são abominações, e tentam assassinar jovens mutantes que acabaram de descobrir seus poderes. O herói gelado também enfrenta um vilão clássico da Marvel, que cruza seu caminho por acaso: o Fanático (Juggernaut).  Nestes confrontos fica claro porque Bobby é um dos mutantes mais poderosos do universo Marvel. Se no início dos X-Men ele era um herói que apenas tacava bolas de neve em seus inimigos, hoje sabemos que ele pode se transformar em vapor, construir golens de gelo (de qualquer tamanho) e até congelar o líquido do cérebro do adversário.

As HQs são ótimas na questão visibilidade, pois mostram um personagem gay envolto em questões cotidianas, como preencher um perfil num site de relacionamentos, conversas familiares sobre sua orientação sexual e buscar um relacionamento após anos vivendo uma sexualidade egodistônica. Isso é um ponto positivo para a Marvel, que apesar de ter vários personagens LGBTQs em suas histórias (como Wiccano, Hulkling, Estrela Polar, America Chávez, Striker, Rictor e Shatterstar), poucas abordavam de forma mais profunda as questões familiares e emocionais destes personagens.

Nem tudo é perfeito, então obviamente que a HQ tem alguns pontos negativos. Homem de Gelo trata de forma estereotipada a “saída do armário” de Bobby. Encontrar um boy e ir para uma balada dançar, como sinônimo de “liberdade”, é um clichê que a HQ acaba repetindo. Falar sobre saída do armário é algo importante, mas também é um tema que já foi abordado com praticamente todos os heróis LGBTQs dos quadrinhos. E se tratando de X-Men, que já é bem conhecida por abordar discriminação e preconceito, as reflexões poderiam ser diferentes e mais políticas.

A arte também é algo que me incomodou. Os desenhos de Alessandro Vitti não mantém uma constância, variando entre imagens belíssimas e outras bem “poluídas”. Nada que prejudique a história ou a qualidade do título. O roteiro a cargo de Sina Grace, e é bem leve e simples, sem tramas complexas, chocantes ou grandes reviravoltas. Apesar disso, ler uma HQ com um personagem que lida com questões que você vivencia/vivenciou é algo especial, o que nos faz compreender como a representatividade é algo importante.

Homem de Gelo (Iceman) começou a ser publicada lá nos EUA em Junho de 2017 e está sétima edição (mas a história já está garantida até a edição 10, por enquanto). É um título regular do universo X e não há previsão de final, podendo ser estendida dependendo das vendas. Como qualquer publicação com um personagem LGBTQ envolvido, pode ser cancelada a qualquer momento, caso as vendas sejam baixas ou a equipe editorial mude.

Quem é fã de X-Men, logicamente, deveria compreender o discurso de preconceito e discriminação que suas histórias carregam, assim como o paralelo que pode ser feito com o mundo real, onde o racismo, o machismo e a LGBTfobia ainda são coisas comuns. Porém, muitos leitores americanos já criticaram a publicação, argumentando que a orientação sexual do Homem de Gelo do presente não deveria ser “alterada”. Nada de novo sob o Sol.

Este título ainda não foi lançado no Brasil, pois ainda é muito recente. A Panini Comics, detentora dos direitos de publicação das HQs da Marvel por aqui, é bem conhecida por não publicar quadrinhos com personagens LGBTQs, como vimos com a HQ solo do Meia-Noite, a HQ Apolo & Meia-Noite e também Love Is Love (que, apesar de ter conexão com o universo da DC, foi traduzida e lançada no Brasil pela Geektopia). Os representantes da editora se limitam a dizer que “não há previsão” para que estas publicações sejam lançadas por aqui, então há a possibilidade que esta HQ solo do Homem de Gelo também caia no limbo, conhecido como “evitar riscos”.

O que nos resta é torcer para que esta HQ com um personagem gay protagonista e relevante seja lançada por aqui e assim tenhamos mais visibilidade nesse universo nerd.

O Homem de Gelo, ou Bobby Drake (ou Robert Louis Drake), faz parte da equipe mutante da casa das ideias desde a década de 60, e agora em 2017 ganhou título solo regular pela Marvel. Membro original e um dos fundadores dos X-Men, Bobby sempre foi um dos personagens mais recorrentes nas histórias em quadrinhos dos mutantes, fazendo parte de praticamente todas as formações da equipe. Lá em 2015, como já falamos por AQUI, a versão adolescente do passado de Bobby veio para o presente e se "assumiu" gay e inclusive já está namorando com um Inumano, o Romeo. Essa mudança…

Crítica

HQ - Homem de Gelo (Iceman) 2017

Nota

Homem de Gelo é uma HQ especial, por trazer um dos personagens mais icônicos e poderosos dos X-Men como protagonista e lidando com questões em torno de sua sexualidade.

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Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana.
Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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