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Crítica|Inumanos – Primeira Temporada

A produção que havia sido anunciada como filme, chegou a telinha – e telona, com grande pompa, mas pouca relevância

Em um mundo de super-heróis, Game of Thrones e rentabilidade monstruosa, Inumanos tinha tudo para ter figurado como a uma das melhores produções da Marvel. Exibida inicialmente em IMAX, com um investimento de milhões de dólares e o retorno parco de apenas 2 milhões, tendo sido retirada antes do prazo de sua já curta rota de exibição, a série falhou e não conseguiu justificar sua existência fora das telonas e das páginas das histórias em quadrinhos. O elenco, que foi apresentado em um poster questionável, também não teve muito o que fazer com o material ruim apresentado. Mas e existia salvação para a série?

Bom, a começar pela trama, é possível dizer que existia sim potencial para Inumanos na televisão. Todo o teor mais adulto, prometido no começo como uma espécie de Guerra dos Tronos com super-heróis, intrigas e dramas familiares, era exatamente o que a Marvel precisava para emplacar um novo hit e conseguir o respaldo necessário para a audiência da ABC, que nunca conseguiu entender a preciosidade de Agents of S.H.I.E.L.D. Só que esta história de intrigas, reis, rainhas e súditos, não chegou a acontecer de verdade.

O primeiro erro, de muitos, cometido pelo time criativo (com quase nenhuma criatividade) foi o de separar, logo no segundo episódio, a família real, em vários núcleos menores e menos interessantes. Tudo o que tinha potencial, como a relação entre Medusa e Raio Negro, Karnak e Górgon, os problemas de Maximus e o irmão, as armações, tudo foi jogado no lixo. Lá estávamos nós, acompanhando cada uma destas pessoas, mas a irritante Crystal, perambulando pelo Havaí, após uma tomada de poder pelo agora rei Maximus – irmão de Raio Negro e interpretado pelo excelente Iwan Rheon (Game of Thrones, Misfits).

A trama, sem qualquer senso prático, permite que personagens apareçam e desapareçam a qualquer momento, faz com que cenas de morte não tenham nenhum impacto e que a própria destruição da cidade de Attilan termine sem nenhum ápice sentimental. Bronaja, inumano com o poder de ver o futuro, surge no primeiro capítulo durante a cerimônia de terrigenese, é usado por Maximus várias vezes durante o decorrer da série, mas sempre como uma ferramenta e não uma pessoa. E o que falar de Eldrac, o inumano que é um portal vivo? Após se recusar a ser usado por Maximus, ele cede quando sua família é ameaçada de morrer, contudo nada do que foi feito realmente soou como uma pessoa – ter um ser vivo que é, também, um muro capaz de transportar outros e não desenvolvê-lo, é um erro tão grande. Não existe discussão, aprofundamento, nada que coloque o roteiro da série como algo humano.

Apesar de estarmos lidando com inumanos, a humanização de seus personagens – algo mandatório para qualquer narrativa, em qualquer mídia, independente do processo – só chega na reta final. E se considerarmos uma produção com 8 episódios, a reta final é literalmente o final. Em determinado momento Maximus, que figura como uma espécie de salvador, brevemente, menciona que sua tomada de poder (algo que acontece logo no segundo episódio) foi motivada pela injustiça do sistema de castas imposto por Raio Negro. Só que a trama ao redor do povo inumano nunca decola. Existe uma breve menção, visitamos o passado de Medusa e sua irmã, quando seus pais tentavam lutar pelo mesmo objetivo que Maximus agora prega, mas tudo é raso.

Como mencionei no começo deste texto, o potencial de Inumanos é sim grande, mas a execução é abaixo de mediana. Medusa muda completamente sua atitude, após uma frase, de uma personagem pequena e sem nenhuma relevância. No começo da série a rainha inumana se porta como uma mulher mimada, tirana e que só se preocupa com seu marido. Só que ao nos aproximarmos da conclusão da temporada (talvez da série), Medusa começa a esboçar preocupação com o povo de Attilan. Um discurso limitado, que nunca é explorado e que termina antes mesmo de começar.

O melhor personagem da série é aquele que nem ao menos consegue falar, e não, não estou me referindo ao Raio Negro. Dentinho, o cachorro gigante capaz de se transportar para onde quiser, é digitalmente criado, um bom trabalho do time criativo de efeitos especiais da série, não tem nenhuma fala e é tratado, unica e exclusivamente como um método de transporte. São raras as vezes em que alguém trata Dentinho como um cachorro, com carinho, um agrado, um afago. Na maior parte do tempo, inclusive após ser atropelado, ele é exaurido e funciona como um burro de carga. Ou seja, o melhor personagem é o que recebe o pior tratamento. Será que os roteiristas da série pelo menos tem bichinhos de estimação? Duvido muito e espero que não.

Inumanos arrastou sua trama inconsistente por oito episódios e não conseguiu dar um desfecho competente para nenhum personagem. Karnak surge como uma boa adição e sua química com Górgon é visível, além de dividirem juntos o alívio cômico da série, mas são, assim como todos os outros membros da família, separados e forçados a desenvolver uma trama pouco interessante. Crystal ganha uma história de amor mais adequada para uma série adolescente, não funciona como uma pessoa normal, é irritante e mimada. Apenas alguns personagens menores conseguem convencer, com Louise liderando, mas como todo o restante, ela não é aproveitada verdadeiramente.

No final a série não é digna de ter mais uma temporada, apesar da possibilidade ainda existir. Tudo o que aconteceu é, pela falta de uma palavra melhor, um desperdício. Tempo, dinheiro e potencial foram jogados no lixo com histórias pouco interessantes, execução ruim e edição amadorística – as cenas de contraposição de Medusa e Raio Negro enquanto existe um flashback dos dois é nível faculdade de cinema. Resta saber se o peso do nome Marvel e a força da Disney conseguirão salvar Inumanos do machado. Se sim, espero que com um novo showrunner e uma equipe que pelo menos goste destes personagens.

Easter eggs e outras informações

– A primeira aparição dos inumanos em uma revista em quadrinhos foi em Quarteto Fantástico #45, de 1965. Eles depois conseguiram uma revista solo em 1975, com doze números. Seu retorno aconteceu em 1998, com roteiro de Paul Jenkins e arte de Jae Lee.

– Inicialmente os inumanos viviam na Terra, no Himalaia, até serem forçados a se refugiar na zona azul da lua.

– A criação dos inumanos começou a milhares de anos atrás, quando a raça alienígena Kree começou a fazer experimentos em seres humanos, para transformá-los em armas contra os Skrull. O experimento, porém, foi abandonado. Muito tempo depois um cientista inumano conseguiu desenvolver um método de liberação do potencial do gene inumano, acordando poderes e transformações. Este processo ficou conhecido como terrigenese.

– Existiram algumas conexões com outra produção da Marvel. Quando estão discutindo a respeito do desaparecimento de Tritão, é mencionado que um evento foi responsável por espalhar o composto terrígeno no abastecimento de água humana. No final da segunda temporada de Agents of S.H.I.E.L.D. uma caixa com cristais terrígenos caiu no oceano, infectando peixes e vida marítima que entraram em contato com a névoa. Desde então vários descendentes de inumanos tem recebido seus poderes. A mais famosa é Quake, a inumana Daisy Johnson – que teve seu gene acordado de outra maneira, em um templo Kree.

– Outra pequena conexão vem da discussão de Karnak e Gorgon, enquanto eles estão observando o despertar de dois novos inumanos. O diálogo entre ambos é bem parecido com o que foi desenvolvido no terceiro ano de Agents, quando Lincoln pontuou que cada inumano tinha um poder desenvolvido de acordo com a necessidade naquele momento.

– Esta diálogo, porém, não é obra da série e sim das revistas em quadrinhos, em especial no momento criado por Jenkins.

Inumanos
– A própria cena de despertar dos inumanos, com a voadora, é um reflexo da HQ. A diferença é que na nona arte o garoto é aparentemente revertido para um Alpha Primitive – explorado em MAoS, e a garota, Tonaja, ganha uma pele parecida com a de cobra e asas.

– Na série o rapaz ganha o nome Bronaja, mas seu poder de ver o futuro é bem similar ao de outro inumano “famoso” da Marvel, Ulysses. Foi por causa de Ulysses que existiu a segunda Guerra Civil.

– Auran, a fiel seguidora de Maximus, divide poucas similaridades com sua contraparte nos quadrinhos. Na nona arte a chefe da segurança real de Atillan tem uma aparência diferente, é fiel a Medusa e Raio Negro e tem duas filhas.

Inumanos
– O cabelo da Medusa também foi cortado por Maximus, na HQ de Jenkins.

– Um inumano poderoso foi mostrado na série, Eldrac, o portal vivo. Eldrac já foi um homem, mas quando passou pela terrigenese ele terminou como uma espécie de máquina de transporte. Seu uso não é muito recomendado porque ele usualmente envia as pessoas para onde elas precisam ir, nem sempre para onde elas querem chegar.

– Divide and Conquer é uma homenagem ao arco dos Inumanos exibido nas revistas do Quarteto Fantástico, de Fantastic Four Annual Vol 1 #5, de mesmo nome.

– Durante a conversa entre Maximus e Auran, a inumana diz que Mordis trazia consigo apenas morte. Assim que Maximus e Bronaja o libertam, ambos olham para o outro lado. No arco de Jenkins e Lee existe um inumano chamado Dinu, que tem todo o rosto coberto, porque apenas olhar em sua face representa a morte.

– Entre o time enviado por Maximums para enfrentar Górgon estão: Flora, Pulsus e Sakas. Nenhum deles possui uma versão nos quadrinhos. Pelo menos não com esses nomes.

– Raio Negro se encontrou com um inumano criado pelo evento de contaminação do final da segunda temporada de Agentes da S.H.I.E.L.D. Diferente dos inumanos descendentes dos experimentos dos Kree e que foram para a lua, os da Terra entram em casulos quando expostos a terrigenese.

– Em Divide and Conquer tivemos a participação da WHiH World News, rede de televisão que já esteve em Agents of S.H.I.E.L.D., Daredevil, Jessica Jones, Luke Cage e Iron Fist, além dos filmes The Incredible Hulk, Iron Man 2 e Spider-Man: Homecoming.

– O momento que Karnak aparece com um moletom com capuz, ele se aproxima muito da vestimenta de escolha (mais recente) de sua contraparte nos quadrinhos.

– Make Way for… Medusa é uma homenagem ao arco da personagem que teve inicio em Amazing Spider-Man Vol 1 #62.

– No quinto capítulo também tivemos algumas explicações para a diferença entre os inumanos da Lua e os existentes na Terra. Assim como nos quadrinhos, os descendentes dos inumanos que ficaram no planeta não são tão fortes quanto aqueles que foram embora.

– O nome do episódio 5 é uma referência ao arco Black Bolt: Something Inhuman This Way Comes Vol 1 #1, de 2013. Na história Raio Negro teve sua memória apagada e perambula pelas ruas de São Francisco.

– Kevin Tancharoen é irmão de Maurissa Tancharoen, showrunner de Agents of S.H.I.E.L.D. Na série irmã de Inumanos ele já dirigiu os episódios Face My Enemy, One of Us, The Dirty Half Dozen, Purpose in the Machine, Spacetime, Ascension, The Laws of Inferno Dynamics, The Patriot e The Return. Em Punho de Ferro a direção de The Blessing of Many Fractures foi dele. Kevin também já dirigiu dois episódios de The Flash, um de Supergirl, um de Legends of Tomorrow e um de Arrow. Em Inumanos ele ficou responsável pela direção do quinto episódio. 

– O episódio 6 tem como título uma homenagem ao arco homônimo de Quarteto Fantástico Vol 1 #44.

– Havoc Hidden Land, o título do episódio 7, é uma menção ao arco de mesmo nome de Fantastic Four Vol.1 #159.

– A cidade de Attilan, na lua, já foi destruída antes. No último run dos Inumanos a Marvel decidiu colocar um pedaço da cidade próxima da estátua da liberdade, o que garantiu que Dentinho fizesse amizade com a Ms. Marvel.

– O título do episódio final é saído do arco de mesmo nome da revista do Thor, número 148.

– Este episódio 8 foi dirigido Billy Gierhart e escrito por Rick Cleveland e Scott Reynolds. Gierhart já trabalhou em Agents of S.H.I.E.L.D. e Jessica Jones. Reynolds já esteve em Jessica Jones e Punho de Ferro. Acho que esta é a prova definitiva de que o grande problema de Inumanos é o showrunner, Scott Buck.

A produção que havia sido anunciada como filme, chegou a telinha - e telona, com grande pompa, mas pouca relevância Em um mundo de super-heróis, Game of Thrones e rentabilidade monstruosa, Inumanos tinha tudo para ter figurado como a uma das melhores produções da Marvel. Exibida inicialmente em IMAX, com um investimento de milhões de dólares e o retorno parco de apenas 2 milhões, tendo sido retirada antes do prazo de sua já curta rota de exibição, a série falhou e não conseguiu justificar sua existência fora das telonas e das páginas das histórias em quadrinhos. O elenco, que foi apresentado…

Marvel's Inhumans

Primeira Temporada

Nota

Inumanos é péssima em direção, elenco e poucos momentos conseguem salvar uma trama mal construída e explorada, dentro de 8 episódios.

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Sobre Diego Antunes

Fundador do site, também colabora com postagens para o Série Maníacos com reviews de séries. Nutre um amor incondicional pela Marvel e é leitor ferrenho dos quadrinhos da casa das idéias desde os 12 anos de idade.

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