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Especial|Justiceiro no cinema

Antes da bem sucedida aparição em Demolidor, Frank Castle já havia ganhado três adaptações cinematográficas. Uma dirigida por Mark Goldblatt em 1989; o reboot de 2004 dirigido por Jonathan Hensleigh e sua (quase) sequência lançada quatro anos depois, comandada por Lexi Alexander. De todas as três, o longa de 2008 é certamente a mais interessante. Não que Justiceiro: Zona de Guerra seja a melhor de todas as adaptações. Mas mesmo longe de ser um bom filme, ao menos é o mais autêntico.

Na alvorada da onda de super-heróis, Zona de Guerra ganhou um lançamento tímido. Exceto pelo escândalo sobre a suposta demissão de sua diretora, o filme quase passou despercebido em meio ao buzz de clássicos instantâneos como Homem de Ferro e O Cavaleiro das Trevas. De fato, o longa é vítima das circunstâncias, sofreu do mesmos problemas que parecem permear as adaptações de quadrinhos ainda hoje: constantes trocas de diretores, revisões de roteiro e pressões dos estúdios descaracterizaram muito do que o filme poderia ter sido. O resultado é uma história rasa, que como seus antecessores, falha um explorar a psique de seu protagonista (interpretado aqui por Ray Stevenson) e apresenta um vilão demasiadamente caricato, o Jiwsaw de Dominic West nunca atinge todo seu potencial.

Mas a razão pela qual este longa se destaca na filmografia do Justiceiro (mesmo que seu antecessor seja levemente melhor) é porque Zona de Guerra evidencia que transportar personagens dos quadrinhos para o cinema requer muito mais esforço do que se imagina. Uma personagem como Frank Castle precisa de ter suas motivações bem exploradas se quiser instigar o mínimo de empatia, e a razão pela qual ele funciona bem em Demolidor é justamente porque há personagens que se opõem a sua ideologia e também porque toma tempo para se aprofundar nas origens de seu trauma. Até aqui, nenhum dos filmes conseguiu desenvolver o personagem sem soar extremamente caricato, deixando a impressão de que Frank Castle só poderia ser mesmo um protagonista de uma produção genérica de ação dos anos oitenta.

E o que poderia ser um completo desastre só é evitado pela direção segura de Lexi Alexander. E não me entendam mal: este continua sendo um filme ruim, contudo ainda divertido quando aceito pelo o que realmente é: uma interpretação caricata de Frank Castle. Lexi é sempre objetiva em seus projetos, e se este longa hoje parece trinta anos longe do seu tempo é porque este é o objetivo. Apesar da estética colorida, este é um filme que realmente parece pertencer a mesma galeria daqueles que nossos pais alugavam nos anos 90. A diretora abraça essa ideia, e durante o filme você pode até encontrar diversão testemunhando todas as inventivas formas que o protagonista encontra para matar seus inimigos. Mas para além disso, é difícil acreditar que o humor causado pelos diálogos seja intencional.

O histórico do Justiceiro no cinema é vergonhoso. Ainda que a brutalidade seja uma das características essenciais do personagem, uma narrativa centrada no personagem não poderia se limitar somente ao espetáculo vazio de violência. Histórias de vingança e violência são recorrentes e uma produção que não explora o gênero de ação sobre novas lentes corre o risco de se perder no tempo, afinal de contas, quem de nós se lembra que Dolph Lundgren já foi o Justiceiro.

Enquanto Zona de Guerra se destaca pela direção segura e por involuntariamente soar como uma paródia do gênero de ação, O Justiceiro de 2004 é o filme que melhor conseguiu desenvolver o protagonista e suas motivações, pena que se perdeu em exageros e clichês. Mas o fato é que nenhum dos longas pretendia ir muito além, são histórias mastigadas e fáceis, concebidas em período em que não havia a constante vigilância dos fãs e da crítica.

A nova série da Netflix deu novo fôlego ao anti-herói, mas ainda chega com o peso das falhas dos longas; e assim como aconteceu com Demolidor em 2015, será avaliada por parâmetros mais rígidos que o de costume. Mas a julgar pelo o que fomos apresentados até aqui, a nova adaptação da Netflix tem tudo para ser bem sucedida, bastando lembrar que apenas vilões excêntricos e ação exagerada não são tudo aquilo que esperamos do Justiceiro.

Sobre Marco Antonio Freitas

Mineiro, 25 anos, formado em Serviço Social e apaixonado por séries e música desde os 16 e apreciador ocasional de HQs.

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