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Crítica | Filme – Corpo Elétrico

Há algo de especial em Corpo Elétrico difícil de traduzir em palavras.

Seja a representatividade ou sua despretensão, Corpo Elétrico traz algo que ainda é uma lacuna no cinema nacional com a temática LGBTTQ: uma dose de realidade.

Apesar de serem respiros em meio a falta de representatividade gay em filmes, sempre me incomodou (e já falei por aqui) sobre a falta de personagens que fugissem dos padrões de beleza já estipulados (impostos) pela nossa sociedade. Se fizermos uma rápida análise, podemos contar em apenas uma mão quantos filmes gays encontramos com personagens negros, por exemplo. Personagens que fogem ao idolatrado viriarcado (leia-se, afeminados) ou que representem a nossa realidade cotidiana (de trabalhar diariamente e não terem um carro do ano), são ainda mais raros.

Estas lacunas parecem inofensivas pra muita gente, mas filmes onde apenas homens gays, cis, brancos e sarados ganham visibilidade é algo para se refletir. Claro que nenhuma produção será capaz de abarcar todas as minorias necessárias, mas quando apenas um grupo (justamente aqueles que possuem maior privilégio) são sempre os retratados, significa que estes “filmes LGBTTQs” são apenas “filmes Gs”. É questionar um preconceito estrutural, mas reforçar outros, mantendo o privilégio de alguns sobre outros.

Mas vamos a história. O protagonista é Elias (Kelner Macêdo) que trabalha numa fábrica de roupas. A primeira cena do filme já mostra o tom de desapego em que a história irá imergir. Elias conversa sobre temas aleatórios ao lado de outro homem nu na cama, onde nada parece ser algo concreto ou planos primordiais.

A fábrica de roupas fica na cidade de São Paulo (mais especificamente na região do Brás, quem mora por aqui vai reconhecer alguns lugares onde o filme foi filmado) e isso é uma informação muito importante. Não existe nenhuma grande questão em relação a sexualidade de Elias. Ele é gay, sabe disso, e convive muito bem com isso. Isso é algo cada vez mais comum em nossa sociedade, mas na terceira maior cidade do planeta é algo muito mais fácil.

Fugir do velho clichê sobre a “famosa saída do armário” é um ponto positivo para Corpo Elétrico, afinal, LGBTTQs são muito mais do que apenas este momento. A saída do armário muitas vezes é o menor dos problemas para a grande maioria, como gays negros (que sofrem racismo, violência policial, exclusão do mercado de trabalho, etc), ou pessoas trans (que além de “sair do armário”, ainda precisam reaprender a viver na nova identidade que foi “descoberta”), gays deficientes físicos (que algumas vezes saem do armário, mas não possuem as mesmas oportunidades em diversos áreas da vida que os outros gays possuem), etc.

Além do armário, o filme também foge de outro clichê comum em “filmes gays”, que é o de história trágica. Muitos roteiristas e diretores ainda acreditam que uma pessoa LGBTTQ não possui uma vida feliz ou simplesmente comum, sem nenhuma tragédia, morte ou coração partido. Nossas vidas são, muitas vezes, tão banais quanto a dos héteros, permeadas apenas por um preconceito estrutural constante.

Apesar de trabalhar na fábrica de roupas, Elias não é um “peão” como os outros que aparecem na história. Ele é branco e, ao que aparenta, teve acesso a uma formação, permitindo que este tenha um trabalho mais brando em relação a todos os outros.

Além de Elias, outros personagens gays aparecem na história, como Wellington (Lucas Andrade). Este é um personagem marcante na história, afinal, ele possui a mesma orientação sexual que Elias, mas não os mesmos privilégios. Wellington é gay, mas também é preto e pobre, o que o coloca em um lugar diferente dentro da fábrica. Como o filósofo Michel Foucault* já abordou em sua teoria, somos sujeitos modelados pelas relações de poder e as relações de saber, logo, a forma como Elias e Wellington vivenciam suas sexualidades (apesar de gays) são bem diferentes.

O filme também mostra de forma bastante despretensiosa a “nova” forma de se relacionar (que sempre existiu, mas a maioria finge que não), onde o aqui e agora é o que fala mais alto. O calor do momento, o tesão, o desejo são vividos de forma intensa, sem preocupação com o amanhã ou com expectativas de que aquele momento se prazer se torne um relacionamento “sério”. Como Zygmunt Bauman** já disse, nada é pra durar. As relações são líquidas e efêmeras. Começam e terminam rapidamente.

E, diferente do que muitos possam achar, não há nada de imoral nisso, simplesmente as novas gerações aprenderam que existem novos formatos de relacionamentos, onde as coisas não precisam ser sólidas, rígidas e inflexíveis. Nosso próprio Bauman, em sua obra, critica as relações contemporâneas (sobre o sexo sem compromisso e casual, sem preocupação com amor e aprofundamento), mas ele era um homem, branco e hétero, logo, seu olhar de relacionamento passa pelo prisma heteronormativo, onde o tradicional é o seguro e saudável.

Além de Wellington, outras personagens fazem aparições mais que especiais, potencializando a reflexão sobre identidade e sexualidade, a cantora Linn da Quebrada e a drag queen Márcia Pantera, famosas dentro da comunidade LGBTTQ, mas talvez desconhecidas para o grande público. Somos suspeitos pra falar da dona do Pajubá (um dos discos mais sensacionais de 2017), mas é impossível não se arrepiar com a participação de Linn. O discurso dela (falado e não falado) converge com o olhar atual sobre o que ser gay, preto, afeminado, em meio a uma sociedade que insiste em ignorar as diferentes identidades e orientações que a diversidade humana abarca.

Corpo Elétrico é um filme que pode parecer banal para quem é trans, lésbica, gay, travesti ou bissexual, afinal mostra a vida rotineira de personagens reais, que precisam trabalhar, pedem demissão, querem fazer um “bate-volta” na praia ou fazer sexo casual com um cara com quem acabaram de trocar olhares. Mas é uma produção que preenche uma lacuna dos filmes nacionais gays, que retratam sempre personagens estereotipados (branco, cis, padrãozinho, classe média) ou romantizados (em busca do amor ideal).

Este filme seria uma excelente pedida para heterossexuais, que ainda acreditam que a vida dos LGBTTQs é apenas sexo ou apenas romance. Aliás, as relações entre os personagens heterossexuais e os personagens não heterossexuais da história é algo que deve ser aplaudido. As diferenças e os interesses são claramente diferentes, mas o que não impende que haja respeito, amizade e empatia, sem nenhum interesse amoro ou sexual.

Apesar de um filme obrigatório para todos, possui seus defeitos. Há uma falta de objetivo na trama, que culmina num final decepcionante. Algumas cenas também parecem não se encaixar com a trama geral, dando a sensação de que alguns personagens estão ali apenas para garantir a duração do longa.

Corpo Elétrico foi lançado em Agosto de 2017 e não passou por todas as salas de cinema que merecia, mas conseguiu atrair a atenção da mídia e do público, recebendo vários elogios. O diretor, Marcelo Caetano (também participou de Boi Neon, Aquarius, Tatuagem e Mãe Só Há Uma), realizou um filme que traz muitas reflexões, foge de muitos estereótipos e que é uma das gratas surpresas de 2017. Vamos torcer para que 2018 tenhamos mais surpresas assim.

* Michel Foucault – Livro: Ética, sexualidade, política.

** Zygmunt Bauman – Livro: Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos.

Há algo de especial em Corpo Elétrico difícil de traduzir em palavras. Seja a representatividade ou sua despretensão, Corpo Elétrico traz algo que ainda é uma lacuna no cinema nacional com a temática LGBTTQ: uma dose de realidade. Apesar de serem respiros em meio a falta de representatividade gay em filmes, sempre me incomodou (e já falei por aqui) sobre a falta de personagens que fugissem dos padrões de beleza já estipulados (impostos) pela nossa sociedade. Se fizermos uma rápida análise, podemos contar em apenas uma mão quantos filmes gays encontramos com personagens negros, por exemplo. Personagens que fogem ao…

Filme

Corpo Elétrico

Nota

Um filme que explora de forma original as relações contemporâneas e a visibilidade dos corpos e das sexualidades das pessoas LGBTTQs, sem cair em clichês românticos, trágicos ou normativos.

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Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana. Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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