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Crítica|Star Wars: Os Últimos Jedi

Como um divisor de águas e de fandom, The Last Jedi apresenta a trama mais consistente de Star Wars para a nova geração

Quando estreou em 1977, Uma Nova Esperança trouxe um conceito diferente de ficção científica para o mercado de filmes. De lá para cá, a franquia da família Skywalker se transformou em um marco para todo o mundo. O acerto, porém, parecia cada vez mais como um feliz acidente de percurso e após Império Contra-Ataca, os fãs foram deixados constantemente com o desejo de uma repetição da fórmula que havia surpreendido e conquistado. Após uma trilogia aquém do esperado e que funcionou como um grande, e caro, flashback, Star Wars parecia perdida enquanto franquia. Após quase 32 anos, um novo capítulo e sequência direta de Retorno do Jedi nasceu. Embebida em homenagens e referências, O Despertar da Força fez com que muitos dos fãs antigos se animassem com a possibilidade de uma retomada daquele mesmo sentimento de Uma Nova Esperança. Outros, porém, acharam tudo requentado. Contudo a proposta funcionou e com rendimento de mais de 1 bilhão de dólares, Star Wars recebeu uma nova chance no mercado e imaginário popular. 

Os Últimos Jedi é a sequência que esta nova (velha) Star Wars precisava. Bem distante do requentado e apresentando novidade para a franquia, o oitavo capítulo acertou ao trazer de volta a noção de uma galáxia, de possibilidades e de futuro incerto. O que antes havia se transformado na epopeia de acidentes dos Skywalker, hoje já parece bem mais próximo da saga intergalática da luta entre o bem e o mal. Dirigido e escrito por Rian Johnson, o filme que já nasceu com a pressão de entregar enredo e desfechos dignos de uma sequência aos moldes de Império Contra-Ataca fez bem e muito além do esperado, mostrando que ainda é possível criar o novo dentro de um nome com tanto peso e expectativas. 

O grande diferencial da diversidade também retornou para o oitavo capítulo da grande saga intergalática que se tornou Star Wars. Gosto de ver como a franquia não se acovardou frente a crescente de críticas negativas a respeito de seu elenco principal, composto por uma mulher, um negro e um latino, e foi além, colocando agora uma asiática, Rose (Kelly Marie Tran). E o que é mais interessante é a noção de que diversidade não significa liberdade, afinal temos uma negra na ponte de comando da Primeira Ordem, um belo, porém duro reflexo da sociedade hoje. Como é possível que negros, homossexuais e tantas outras camadas marginalizadas pela direita, se aliem a ela? Bom, se para nós é difícil encontrar uma explicação, para os personagens do mundo de Star Wars também não deve ser fácil. Claramente um braço do fascismo dentro da galáxia, a Primeira Ordem tinha Finn, um homem negro, como stormtropper e agora, em seu oitavo capítulo, Michaela Coel (Chewing Gum) como monitora na ponte de comando da Primeira Ordem.

Claro que o capítulo do meio sofre um pouco pelas expectativas criadas pelo público que consome Star Wars como oxigênio, mas de forma alguma o filme é ruim, ou deixou a desejar. Ao contrário, seu papel, por mais estranho que possa parecer, não soa como um meio de estrada e sim como uma espécie de conclusão, algo que deixa o caminho para o último filme ainda mais nebuloso e cheio de potencial. O que acontecerá está figurando como maior dúvida, agora que aparentemente a resposta para os pais da Rey finalmente chegou – apesar de ainda soar como uma espécie de cortina de fumaça. 

Obviamente o filme comete erros e a falta de direcionamento para alguns personagens, assim como uma conclusão estranha para Snooke, tiram um pouco do brilho deste episódio. Entretanto, ao contrário do consenso geral, achei adequada a maneira que o filme decidiu lidar com seu “imperador” do momento. Limar Snooke de forma tão superficial foi algo bom, porque delimitou de uma vez por todas o papel de Kylo, assim como a derradeira separação da velha trilogia. Muitos esperavam o retorno de Ben Solo, assim como sua união a Rey para que ambos derrotassem Snooke, mas a época de homenagens e reaquecimento de tramas morreu com o Despertar da Força. Só que nem mesmo a “separação” conseguiu tirar o gosto amargo que ficou na boca após o desperdício de Phasma, a nova Boba Fett da franquia. A personagem que poderia ter oferecido mais, morreu de forma apressada, porém bem mais trabalhada que a do mercenário clone em Retorno do Jedi. 

A franquia também parece que aprendeu com erros passados. Uma das coisas que mais me preocupou quando começaram a sair informações e imagens sobre Os Últimos Jedi, foi a participação das criaturinhas fofas desta nova geração, os Porgs. Diferente dos Ewook, a participação destas aves peludas não é tão agressiva e se limita a algumas interações pequenas, como todo bichinho criado para vender bonecos deveria realmente ser. Você compreende a função do marketing, mas em nenhum momento se sente incomodado.

Na verdade o que mais me incomodou neste filme foi o excesso de piadas e situações embaraçosas que destoaram bastante do restante do clima apresentado. Em alguns momentos o que deveria retirar gargalhadas da audiência terminou com meros risos amarelados na sessão que acompanhei (as duas), já outros funcionaram bem, como quando Rey derruba uma pedra no carrinho das cuidadoras. Contudo, a cena que deveria ser pesada, ao demonstrar o descontrole de uma jovem aspirante a jedi, termina leve, revelando exatamente o que para muitos figurou como um problema recorrente em The Last Jedi.

A mensagem, contudo, foi bem clara. Os últimos Jedi, antes vistos como Luke, Kylo e Rey, na verdade são mais e estão espalhados pelo universo. Com a simbólica cena no final do filme, do garotinho alcançando a vassoura com a Força, ou o momento em que Leia desperta o poder que nunca antes havia utilizado, em um momento de desespero, o que o filme tenta ilustrar é que contrária a noção do lado negro, de Snooke, de que os jedi estavam no fim, eles existem e podem ser qualquer pessoa. A própria decisão de dar para Rey pais nada famosos e distanciar a saga da família Skywalker é acertada e mostra como Star Wars está disposto a romper com os maiores problemas criados pelas antigas trilogias, em que tudo soava como uma grande história de uma família famosa. Nascer com a força e ter o poder como algo passado pela família havia sido a maior barreira para vários pontos levantados, especialmente nos prequels, já que jedis não podiam ter filhos, ou com a problemática teoria das midi chlorians, algo que já estava sendo desfeito desde Rogue One, com Chirrut Îmwe. Qualquer um. Todos. Essa é a mensagem mais forte e também a mais importante do filme.

Já Kylo Ren também aparece “renovado” e agora com uma missão particular, longe de sua vida dentro da sombra de seu avô famoso, Darth Vader. O momento em que ele destrói o capacete, aquilo que o aproximava de Vader, é icônico por demonstrar o total afastamento e a busca por uma história própria. É exatamente o reflexo que o filme tenta passar durante sua extensão e consegue com louvor. Este reflexo se resume ao grande vilão desta galáxia, os seus homens e o modelo patriarcal, tão despreparados para o poder e cheios de um ego inflado, desproporcional e na grande maioria das vezes, bem burros. Hux (Hungs), Kylo e até mesmo Poe, mostram que o poder que você recebe apenas por ser homem, não significa capacidade, muito menos preparo. 

Nem mesmo Luke Skywalker, o grande salvador e mestre jedi, está isento de críticas. Foi por causa de sua falta de humanidade e do excesso que o grande poder traz, que ele terminou criando seu grande inimigo, o próprio sobrinho. É também ele quem decide desprezar Rey por causa de sua insegurança e que precisa, na melhor cena de toda a franquia, aprender com Yoda que o erro faz parte do crescimento. O grande pecado do mestre foi achar que seus aprendizes não poderiam falhar e que o sucesso está aliado a perfeição. Exatamente por isso que Rey é bem sucedida. Desprezada pela família, fracasso é algo que ela entende em um nível bem mais complexo do que aqueles homens que receberam o poder por causa de seu nome, ou título. 

Você pode não ter gostado de Last Jedi, como fã, ou mero telespectador casual, mas a história é muito competente em várias esferas. A forma que ela desenha seus personagens é o grande trunfo. Leia, mesmo sendo uma general poderosa, ainda não está isenta de ser desrespeitada por seu subordinado. Holdo, a mulher que a substitui, também sofre por causa da falta de humildade de um homem, Poe – um dos heróis. Rey, Rose… O legado de Star Wars está na maneira que a série conseguiu trazer assuntos tão pertinentes para uma discussão que permanece viva. Estamos vivendo na Era do fascismo descarado, do machismo, do elitismo e dos homens que se acham poderosos por causa de seus nomes e funções. O grande legado de Star Wars: Os Últimos Jedi é mostrar que qualquer um, em uma galáxia de possibilidades, é capaz do extraordinário e que o passado não delimita seu futuro. 

Como um divisor de águas e de fandom, The Last Jedi apresenta a trama mais consistente de Star Wars para a nova geração Quando estreou em 1977, Uma Nova Esperança trouxe um conceito diferente de ficção científica para o mercado de filmes. De lá para cá, a franquia da família Skywalker se transformou em um marco para todo o mundo. O acerto, porém, parecia cada vez mais como um feliz acidente de percurso e após Império Contra-Ataca, os fãs foram deixados constantemente com o desejo de uma repetição da fórmula que havia surpreendido e conquistado. Após uma trilogia aquém do…

Star Wars: The Last Jedi

Filme

Nota

Com uma mensagem poderosa, bem trabalhada e diferente de tudo que franquia já fez, Os Últimos Jedi chega para coroar sua posição como o segundo melhor filme da grandiosa saga intergalática.

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Sobre Diego Antunes

Fundador do site, também colabora com postagens para o Série Maníacos com reviews de séries. Nutre um amor incondicional pela Marvel e é leitor ferrenho dos quadrinhos da casa das idéias desde os 12 anos de idade.

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