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Esqueça os pais da Rey, a Disney precisa responder a respeito de outro personagem, Poe Dameron

Quem é Poe e quem ele ama, ou poderá amar, ainda figura como a pergunta que mais tem movimentado grupos de gay nerds na internet.

Rótulos são importantes, são eles que demonstram sem margem para questionamento que determinado personagem é parte de um grupo. Quando falamos da sigla LGBTQ+, categorizar seu herói, heroína, vilão e vilã é mais importante ainda, caso eles se encaixem em alguma das letras acima. Star Wars ainda não chegou neste tão almejado ponto e Poe continua funcionando como a figura mais emblemática dentro desta discussão.

Lembrando que este texto contém spoilers de Star Wars – Despertar da Força e Os Últimos Jedi. 

Faria sentido que a saga introduzisse seu primeiro personagem gay eventualmente, mas em um mundo em que a ‘alt righ’, partido da extrema direita norte americana, cria bots e petições para desmerecer o filme simplesmente pela presença de mulheres e a possibilidade de um personagem homossexual, fica fácil enxergar o medo dos executivos da Disney. Um produto que entra facilmente para a possível marca de um bilhão de dólares em arrecadação em todas as previsões, não pode sofrer riscos diretos – não na cabeça dos executivos responsáveis pelo dinheiro investido. A decisão então é a mais comum dentro da estratégia globalizada de uma empresa: não provocar, mesmo que provocando nas entrelinhas.

É bem simples analisar Poe dentro de dois filmes e constatar que as chances para que ele se assuma, pelo menos bissexual, existem. A própria construção do personagem desde o Despertar da Força aponta para um homem gay, sem nunca verbalizar em alto e bom som a sua orientação sexual. A falta de rótulos, defendida por muitos como algo bom, é extremamente ruim quando analiso todo o processo de construção do personagem.

Poe surgiu em Despertar da Força como o homem que entrega a jaqueta para outro homem, que morde o lábio quando o vê e que não demonstra nenhum interesse em outras mulheres. Muito mais do que isso ele foi o intrépido e corajoso piloto responsável pela destruição da arma da Primeira Ordem.  Só que nem mesmo na sua HQ, Poe Dameron, o melhor piloto da galáxia parece preocupado em arrumar uma parceira. O colar com anel que ele usa foi descrito pela Disney em seu material promocional oficial de Last Jedi como “a aliança de sua mãe que Poe pretende um dia entregar para seu partner”, uma palavra que pode ser traduzida para ambos os gêneros.

Analisando a trajetória do par amoroso então fica bem fácil colocar Poe como um homem que não é heterossexual, mesmo que lá nos minutos finais do filme exista uma dica de possível relacionamento entre ele e Ray. Contudo, vamos analisar o que foi construído até aqui e deixar de lado o “Eu sei”, usado como frase icônica entre Leia e Han Solo nos filmes anteriores da franquia e repetida entre o possível casal no fim de ‘Os Últimos Jedi’.

Um dos maiores símbolos do relacionamento amoroso e do flerte entre dois personagens, usualmente homem e mulher, é a jaqueta dada pelo pretendente. Este foi o primeiro sinal de que existia algo diferente na criação de Poe. Na televisão este comportamento é chamado de ‘Tv Trope’, que sempre vem seguido de um “você deve estar com frio”. O pensamento por trás da entrega da jaqueta é o de que o homem deve proteger a mulher, especialmente quando ele pretende engatar em um romance com ela. Para Poe e Finn, este foi apenas o primeiro sinal.

Em determinado momento de Last Jedi, Poe aparece extremamente preocupado com Finn, afinal ele está acordado, pelado e vazando. Note como a fala “pelado e vazando” soa extremamente sexual e de maneira alguma condizente com o que um personagem tipicamente heterossexual diria em situação similar. Demonstrar carinho e afeto entre dois homens não é tão incomum assim dentro do mundo hétero, especialmente do bromance (quando dois amigos, quase irmãos, se preocupam um com o outro), mas recebe uma interpretação diferente para estes dois. Primeiro porque temos a jaqueta e segundo porque repete a sensação de “tomar conta” que constrói a base para um relacionamento – ou para o shipp, que é quando a audiência começa a torcer pelo casal, por causa das dicas dadas pelo filme/série.

Também é mais “gritante” ainda o momento em que Poe indaga Finn, a respeito de Rose. Existe uma construção de cena que trabalha para que o telespectador enxergue a pergunta como uma demonstração de ciúmes.

Obviamente o elenco, assim como o diretor e roteirista do filme, Rian Johnson, fazem questão de se posicionar a respeito da possibilidade de um romance entre Finn e Poe, que agora parece um pouco mais complicado com Rose dentro da equação. Johnson chegou a dar RT em uma fanart em que os dois personagem se beijam, enquanto Finn ganha um toque de cumplicidade de Rey: 

No final, mesmo que tenha dado todas as dicas de um possível personagem gay, ou bissexual sem nunca ter ido até o fim, o marketing da Disney continua provocando a audiência com a chance de que Poe não seja heterossexual. Ensaios de revistas colocam Oscar Isaac e John Boyega sempre juntos, com contato corporal, inclusive.

Quer tenham sido instruídos pela Disney para não apagar a “chama” de quem clama por um relacionamento gay entre Finn e Poe, ou por realmente defenderem a possibilidade, o elenco faz questão de deixar o possível romance no ar, com Isaac confessando ter interpretado Poe como um homem gay…

As chances existem, mas a sensação de que estamos sendo enganados também. É muito fácil continuar despistando sem entregar algo conclusivo. O próximo filme deverá marcar a despedida destes personagens do universo de Star Wars, com Johnson assumindo uma nova trilogia após a conclusão de J. J. Abrams. Continuar com a charada parece interessante e bem rentável. E meus medos se comprovarão caso, no último filme e depois de tanto antecipar, Poe e Rey terminem juntos. 

Há um tempo entrei em uma discussão com um amigo a respeito de outro possível casal gay, Chirrut Îmwe e Baze Malbus, de Rogue One. Ambos se tratam como um casal por boa parte do filme, ou velhos amigos de guerra. Eles morrem se protegendo, como um casal, ou velhos amigos de guerra. Por não oferecer nenhum rótulo, a interpretação da audiência termina preenchendo as lacunas conforme sua experiência de vida. Existe algo de errado aí? Não totalmente, afinal, interpretação e leitura são pré-requisitos para o consumo de qualquer produto. Entretanto a migalha é bem explícita. Eles serem gays não é o determinante, mas em termos de representatividade deixar que algo tão relevante para uma parcela pagante do seu público tentar adivinhar e se satisfazer com tão pouco, apesar de muito, é decepcionante. Chame de queerbating, eu vou continuar chamando de migalha. 

Assuma seus personagens dona Disney! Representação importa e rótulos são bem vindos. Star Trek já saiu na frente, mas a centelha da esperança permanece viva… 

Sobre Diego Antunes

Fundador do site, também colabora com postagens para o Série Maníacos com reviews de séries. Nutre um amor incondicional pela Marvel e é leitor ferrenho dos quadrinhos da casa das idéias desde os 12 anos de idade.

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