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Indicação Nerd | Série – Queen Sugar

Já comentamos por aqui algumas vezes sobre a dificuldade em encontrar produções com atores e atrizes negros, e em papéis relevantes. Mas escavando bem é possível encontrar algumas obras fantásticas no meio disso tudo. É o caso de Queen Sugar. Inspirada no livro homônimo de Natalie Baszile, Queen Sugar é uma série dramática criada pela Ava Marie DuVernay (a primeira diretora afro-americana a ter um filme indicado ao Oscar, por Selma) e com a produção executiva de ninguém menos que Oprah Winfrey.

A história tem início com o reencontro de três irmãos, Nova Bordelon (Rutina Wesley), Charley Bordelon (Dawn-Lyen Gardner) e Ralph Angel (Kofi Siriboe), após a morte do pai. Cada um possui uma trajetória de vida e, consequentemente, posições bem diferentes sobre questões familiares e do mundo.

Nova é uma jornalista renomada e ativista, que busca mudar a situação em Nova Orleans em relação a prisão de jovens negros e o abuso policial. Charley é a esposa de um famoso jogador de basquete da NBA e mãe de um adolescente, Micah. E Ralph Angel é um ex-presidiário que tenta provar seu valor após muito tempo fora do círculo familiar. Com a morte do patriarca dos Bordelon, os irmãos se veem diante do último pedido em vida do pai, que é manter a fazenda onde este plantava cana-de-açúcar.

 

E uma característica em comum une os irmãos – e grande parte dos núcleos apresentados na série -, são todos negros. Aparentemente isso pode parecer irrelevante para um espectador branco, mas sentir-se representado no elenco e em situações que acontecem no dia a dia de qualquer pessoa negra, torna a séria especial.

Queen Sugar aborda as relações familiares, entre os irmãos Bordelon e outros personagens, como a tia Violet, mas também mergulha fundo em temas extremamente atuais, como a violência policial e jurídica contra a população negra, estupro e violência contra a mulher, saúde mental de pessoas negras, machismo dentro do mundo corporativista, drogas, relacionamentos extraconjugais e muito mais. Cada episódio é uma imersão, onde feridas são reviradas, fazendo qualquer pessoa (empática e atualizada) repensar algumas opiniões.

A série é um drama familiar e trata de assuntos densos, então não é indicado para espairecer dos problemas que nos  rodeiam no cotidiano. Mas é um aprendizado imenso sobre temas que vira e mexe aparecem em discussões e textões nas redes sociais.

É interessante perceber como uma produção dirigida e produzida por mulheres e negras possuem uma autenticidade de arrepiar. Isso é algo que fica claro em Queen Sugar, mas também em outras produções, como Mulher-Maravilha, de Patty Jenkins. Somente uma mulher conseguiria transmitir algumas situações que somente mulheres vivenciam, assim como somente negros conseguem traduzir em produções como essa, situações de racismos que parecem invisíveis para todo o resto.

Apesar de Queen Sugar abordar temas polêmicos e densos, também trabalha a questão da redenção. A busca pela plenitude e a paz interior, que quase sempre só são conquistadas a partir da saída dos lugares confortáveis de nossas vidas e aceitando nossos valores que nos tornam humanos.

A série ainda traz uma personagem bissexual (ou seria pansexual? assistam e me digam), abordando também a questão de afeto e sexualidade entre pessoas negras. Não vou falar quem é para não estragar a surpresa.

A série também passa longe do clichê maniqueísta que outras produções sempre trazem. Não temos heróis ou vilões aqui, mas sim pessoas que erram, depois acertam e erram novamente. Aprendem com as rasteiras da vida (ou não) e assim tentam se tornar alguém melhor ou tornar a vida daqueles que os rodeiam mais justas, mesmo que por caminhos socialmente condenáveis. E não somos todos assim?

Queen Sugar possui duas temporadas, sendo a primeira temporada com treze episódios, exibida nos Estados Unidos entre Setembro e Novembro de 2016, e a segunda com 16 episódios, exibida entre Junho e Novembro de 2017. A série foi exibida por lá pelo canal OWN e não há nenhuma previsão de ser exibida no Brasil.

Apesar da série abordar a realidade através de um olhar feminino e de pessoas negras, é uma produção que todos deveriam ter a oportunidade de assistir, especialmente homens e pessoas brancas, afinal é assim que compreendemos um pouco da realidade que não vivenciamos.

Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana. Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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