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Crítica | Filme – Os Iniciados [Inxeba, 2017]

Muito se fala sobre as construções sociais do feminino e como a sociedade influencia no comportamento das mulheres. Mais recentemente, as construções de pessoas não heterossexuais também entraram em foco e diversos cientistas sociais debruçaram-se sobre os fatores que inscrevem as identidades LGBTs. Mas existe um grupo que continua distante das rodas discussões de identidades: os homens heterossexuais.

Questões de gênero e sexualidade raramente abordam a formação da identidade de homens heterossexuais, e assim o viriarcado (termo proposto pela antropóloga Nicole-Claude Mathieu) continua incutindo em meninos ideologias que reforçam e mantem o machismo, a misoginia e a LGBTfobia.

Os Iniciados (Inxeba, 2017), apesar de abordar um relacionamento homoafetivo, é um filme que nos ajuda também a compreender como princípios preconceituosos ainda são transmitidos de geração em geração, e as consequências que isso pode causar na vida de gays, pessoas trans, bissexuais, lésbicas e travestis.

No filme acompanhamos a história de Xolani (Nakhane Touré), um tutor do rito de passagem, que fica responsável por Kwanda (Niza Jay), um jovem da cidade, questionador e “sensível demais”, segundo seu pai. E entre no meio dessa relação está Vija (Bongile Mantsai), outro tutor que possui uma forte ligação Xolani (X).

Enquanto Kwanda vivencia o ritual Ukwaluka, nos aprofundamos na relação entre X e Vija, aceitos pela comunidade de homens e anciões Xhosa uma vez que mantém seus verdadeiros desejos escondidos dos olhos de todos.

O ritual (bastante praticado em Cabo Oriental, na África do Sul),  consiste na circuncisão feita por um ancião e o jovem Xhosa precisa ficar uma semana sem beber água, sem dormir, meditando dentro de uma tenda e orientado pelo seu tutor.

Na cultura Xhosa, se o homem não passa por isso ele não é aceito como um homem, cai em desgraça e uma vergonha para sua família. Mas algumas famílias Xhosa mandam seus filhos para as montanhas porque acreditam que este ritual seja capaz de transformá-los em heterossexuais.

Apesar de mais comum em sociedades tradicionalistas, sabemos que ritos semelhantes ocorrem em vários lugares do mundo, inclusive aqui no Brasil. Figuras paternas e homens mais velhos impõem sobre os mais jovens (até crianças) comportamentos que “forcem” estes a se encaixarem na tão esperada heterossexualidade. Meninos são levados para bordéis, meninas são hipersexualizadas (quando não abusadas) e etc. E o filme mostra um pouco como o viriarcado e estas tradições formadas por homens, apesar de possuírem seu valor histórico, levam a um comportamento tóxico e violento.

Os Iniciados é um dos raríssimos filmes que retratam a masculinidade e a homossexualidade africanas. Já falamos diversas vezes aqui o quanto filmes com temática LGBTTQ buscam retratar apenas uma parcela dessa comunidade: o homem, branco e cis (e de preferência dentro dos padrões de beleza já conhecidos). Não é no mínimo curioso como negros nunca fazem parte das produções com personagens gays? Ter uma produção com a beleza negra é um suspiro entre tantas séries e filmes com invisibilização negra, não é mesmo?

O filme é dirigido pelo estreante John Trengove e tem um brasileiro como produtor do longa, Elias Ribeiro. O filme estava concorrendo a uma vaga no Oscar para o prêmio de Filme Estrangeiro, porém não foi um dos escolhidos para a premiação.

No Brasil, Os Iniciados estreou no mesmo dia que Me Chame Pelo Seu Nome, algo até irônico. Enquanto o primeiro é uma produção sul-africana e com um elenco cheio de nomes desconhecidos, o segundo é uma produção franco-ítalo-americana e com Armie Hammer entre os atores principais.

Os dois filmes correm pela borda de filmes com temáticas LGBTs, mas apenas um deles se tornou o queridinho das premiações. Será que o “romance” entre dois homens brancos é mais atrativo do que dois homens negros (e pobres)? Este contraponto é importante para refletirmos por que decoramos tão rápido o nome de atores que parecem saídos da Bel Ami, mas não sabemos nada sobre atores gays negros.

Os Iniciados possui uma trama densa e um final que pode desagradar muitos, mas é uma história visceral e que retrata a realidade de muitos jovens, sul-africanos ou não, que ainda hoje são obrigados a vivenciar tradições que impõem comportamentos normativos.

Muito se fala sobre as construções sociais do feminino e como a sociedade influencia no comportamento das mulheres. Mais recentemente, as construções de pessoas não heterossexuais também entraram em foco e diversos cientistas sociais debruçaram-se sobre os fatores que inscrevem as identidades LGBTs. Mas existe um grupo que continua distante das rodas discussões de identidades: os homens heterossexuais. Questões de gênero e sexualidade raramente abordam a formação da identidade de homens heterossexuais, e assim o viriarcado (termo proposto pela antropóloga Nicole-Claude Mathieu) continua incutindo em meninos ideologias que reforçam e mantem o machismo, a misoginia e a LGBTfobia. Os Iniciados…

Os Iniciados

Filme

Nota

O filme traz uma realidade visceral e conflitos diretos com os ritos tradicionais em uma sociedade que ainda é enraizada pelo viriarcado. Uma produção com nomes desconhecidos, mas de alta qualidade.

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Sobre Michel Furquim

Psicólogo, pós-graduando em Sexualidade Humana. Curioso e pesquisador nas áreas de sexualidade e relacionamentos. Aficionado pelo universo nerd, em especial HQs e Mangás.

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